O entrelaçamento entre saúde e clima, dois pilares da Agenda 2030, esteve no centro dos debates do Fórum Econômico Brasileiro de Transição Energética e Ecológica, realizado na Casa Firjan, no Rio de Janeiro. O evento, promovido pela Business France na semana que celebrou os 200 anos das relações diplomáticas entre Brasil e França, antecipou os principais desafios que estarão em pauta na COP30, em Belém, no próximo mês.
Entre os destaques, a participação de Paulo Gadelha, coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030), que moderou o painel “Saúde, Clima e Desenvolvimento Sustentável – Cooperação Franco-Brasileira”. A discussão abordou como os sistemas de saúde se tornaram atores essenciais na mitigação e adaptação às mudanças climáticas — um tema que ganha força à medida que crises ambientais impactam diretamente a saúde das populações.
Saúde e sustentabilidade como eixo comum
Gadelha destacou que o papel da Fiocruz vai além da pesquisa biomédica, conectando-se à biodiversidade, aos territórios sustentáveis e à justiça social.
“Temos experiências amplas com territórios indígenas e com a gestão costeira dos oceanos, em diálogo com o conceito de Uma Só Saúde”, afirmou.
Ele ressaltou ainda que as cooperações franco-brasileiras fortalecem essa agenda, citando o Conselho da Rede Mundial Pasteur, presidido pelo presidente da Fiocruz, Mario Moreira, e a criação da Plataforma Internacional de Pesquisa em Saúde Global (Prisme França-Brasil), no Ceará, que une seis instituições francesas em torno de temas como biodiversidade amazônica e saúde pública.
A EFA 2030, conduzida pela Fiocruz, articula ações alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), buscando integrar ciência, tecnologia e políticas públicas para responder aos desafios da emergência climática.
Clima, inovação e saúde global
Durante o fórum, Gadelha também falou sobre o Plano de Transformação Ecológica do Brasil e anunciou o legado institucional da Fiocruz para a COP30: a criação do Centro de Clima e Saúde em Rondônia (CCSRO), voltado à análise dos impactos ambientais sobre a saúde da população amazônica. “A Fiocruz entrará na COP30 de forma social, colaborativa e articulada com diversas instituições aqui presentes”, observou.
O debate reforçou a importância da inovação e da cooperação internacional para soluções sustentáveis. Guillaume Pierart, diretor-geral da Sanofi no Brasil, lembrou que o setor de saúde responde por cerca de 5% das emissões globais de carbono, quase metade delas ligadas à entrega de serviços médicos. A farmacêutica francesa se comprometeu a atingir a neutralidade de carbono até 2045, com foco em vacinas e doenças sensíveis ao clima — que hoje representam 70% do seu portfólio de pesquisa.
Cooperação tecnológica e prevenção
As parcerias entre Brasil e França também se estendem à inovação em monitoramento ambiental. Jacques Moussafir, CEO da Aria Tecnologias, apresentou o projeto Vagar, desenvolvido com o Hospital Albert Einstein, que utiliza modelagem digital para medir os efeitos da poluição atmosférica na saúde. Inicialmente testado em São Paulo, o projeto será expandido para outras cidades e biomas, comparando padrões de exposição e vulnerabilidade.
O evento também abordou o papel da prevenção integral. Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med-Rio Check-Up, lembrou que os danos ao planeta refletem o adoecimento humano.
“Sustentabilidade não é só plantar árvores, mas também não queimar nosso próprio terreno biológico. A prevenção é mais eficiente que a reconstrução”, disse.
Outras iniciativas de impacto social foram apresentadas, como a da fundação OneSight EssilorLuxottica, que já levou campanhas de saúde visual a mais de 50 escolas brasileiras, alcançando 4 mil alunos e professores, em alinhamento à meta global SPECS 2030 da OMS para o combate à deficiência visual.
Emergências climáticas e resposta em saúde
O Serviço Social da Indústria (Sesi) trouxe exemplos concretos de adaptação às emergências, como as ações após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. O superintendente Emmanuel de Souza Lacerda destacou o uso de telessaúde, saúde digital e protocolos de resposta rápida, em diálogo com o Ministério da Saúde. “O primeiro passo é trabalhar na perspectiva da adaptação, orientando a indústria sobre como apoiar as cidades em emergências públicas”, afirmou.
A saúde no centro da transição ecológica
As discussões na Casa Firjan consolidaram a percepção de que não há futuro sustentável sem saúde. A Fiocruz, por meio da EFA 2030 e de sua Estratégia de Clima e Saúde, reafirmou seu papel como articuladora de conhecimento científico e inovação social, conectando políticas públicas, ciência e cooperação internacional.
Às vésperas da COP30, o diálogo franco-brasileiro reforça uma convicção compartilhada: enfrentar a crise climática é também cuidar da vida.
