Estratégias e ações urgentes para sair da falência hídrica global

Imagem gerada por Inteligência Artificial

O impacto negativo causado pelo anúncio, esta semana, dessa falência pode dar lugar a um recomeço baseado em escolhas positivas do uso, conservação e preservação hídricos

No relatório “Falência Hídrica Global: Vivendo Além de Nossos Meios Hidrológicos na Era Pós-Crise”, do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH), divulgado no último dia 20, cientistas da ONU apontam que “o mundo entrou numa era de falência hídrica global”. Muitos sistemas hídricos ultrapassaram limites de recuperação, após décadas de excessiva exploração, poluição e impactos das mudanças climáticas.

A divulgação desse documento acontece antes de reunião de alto nível em Dakar, Senegal, de 26 a 27 de janeiro, para preparar a Conferência da ONU sobre Água de 2026, a ser coorganizada pelos Emirados Árabes Unidos e Senegal, de 2 a 4 de dezembro, nos Emirados Árabes Unidos. Bem mais adiante, virão as Conferências da ONU sobre Água de 2026 e 2028, o fim da Década da Ação pela Água em 2028, e o prazo dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas,em 2030.

A princípio, a triste realidade do relatório causa o sentimento de maior distanciamento de se atingir até 2030 a meta quanto ao acesso universal e equitativo à água potável e segura para todos explícita na ODS 6 – Água potável e saneamento, um dos 17 ODS, no item 6.1. Entretanto, o relatório sugere guinada positiva com nova agenda global baseada em “gestão de falência”, com foco em adaptação, justiça social e prevenção de perdas adicionais.

Resistente esperança

A Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030), instituída em 2017, participa ativamente para que os ODS avancem, e por meio da Rede Estratégia ODS, uma coalizão de organizações da sociedade civil, do setor privado, de governos locais e da academia com o objetivo de ampliar o debate sobre os ODS, contribui para diretrizes nas questões mundiais e nacionais que envolvem a água e o saneamento.

Os posicionamentos da EFA 2030 convergem com um dos pontos destacados no documento da ONU, o de que “a falência hídrica não é apenas um problema hidrológico, mas uma questão de justiça com profundas implicações sociais e políticas, exigindo atenção nos mais altos níveis de governo e da cooperação multilateral”. E embora todo o pessimismo que os dados do documento possam gerar, a EFA 2030 se identifica com a esperança emanada por Tshilidzi Marwala, subsecretário-geral da ONU e reitor da UNU, durante a divulgação do relatório.

“É um chamado à honestidade, ao realismo e à transformação. Declarar falência não é desistir, é recomeçar. Ao reconhecer a realidade da falência hídrica, podemos finalmente fazer escolhas difíceis que protejam pessoas, economias e ecossistemas. Quanto mais demorarmos, maior será o déficit”, argumentou Marwala.

O relatório pede numa nova agenda global o seguinte:

● Reconheça formalmente o estado de falência hídrica;

● Reconheça a água como limitação e oportunidade para cumprir compromissos climáticos, de biodiversidade e de terras;

● Eleve a água nas negociações de clima, biodiversidade e desertificação, no financiamento ao desenvolvimento e em processos de construção da paz;

● Incorpore o monitoramento da falência hídrica em estruturas globais, usando observação da Terra, inteligência artificial e modelagem integrada;

● Use a água como catalisadora para acelerar a cooperação entre os Estados-membros da ONU

Na prática, gerir a falência hídrica exige que governos priorizem:

● Evitar novos danos irreversíveis, como perda de zonas úmidas, esgotamento destrutivo de aquíferos e poluição descontrolada;

● Reequilibrar direitos, demandas e expectativas de acordo com a capacidade de suporte degradada;

● Apoiar transições justas para comunidades cujos meios de subsistência precisam mudar;

● Transformar setores intensivos em água, como agricultura e indústria, por meio de mudanças de culturas, reformas na irrigação e sistemas urbanos mais eficientes;

● Construir instituições para adaptação contínua, com sistemas de monitoramento ligados à gestão baseada em limites críticos.

Kaveh Madani, diretor do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH), autor principal do relatório e conhecido como o “Think Tank da ONU sobre Água”, ressaltou os riscos hídricos globais, mesmo sem todas as bacias e países estarem em falência hídrica.

“Um número suficiente de sistemas críticos ao redor do mundo já ultrapassou esses limites. Esses sistemas estão interligados por comércio, migração, retroalimentações climáticas e dependências geopolíticas, de modo que o cenário global de riscos foi fundamentalmente alterado”, alertou Madani.

Pontos críticos

● Oriente Médio e Norte da África: alto estresse hídrico, vulnerabilidade climática, baixa produtividade agrícola, dessalinização intensiva em energia e tempestades de areia e poeira se combinam com economias políticas complexas;

● Sul da Ásia: agricultura e urbanização dependentes de águas subterrâneas provocaram quedas crônicas nos níveis dos aquíferos e subsidência do solo;

● Sudoeste dos Estados Unidos: o rio Colorado e seus reservatórios têm drástica diminuição em seus volumes de água

Dados preocupantes do relatório

● 50%: grandes lagos do mundo que perderam água desde o início dos anos 1990 (com 25% da humanidade dependendo diretamente desses lagos)

 ● 50%: da água doméstica global proveniente de águas subterrâneas

 ● 40%+: da água de irrigação retirada de aquíferos em processo contínuo de esgotamento

● 70%: dos principais aquíferos com tendência de declínio de longo prazo

● 410 milhões de hectares: área de zonas úmidas naturais — quase equivalente a toda a União Europeia — perdida nos últimos 50 anos

● 30%+: da massa global de geleiras perdida em várias regiões desde 1970, com cadeias montanhosas inteiras em latitudes baixas e médias prestes a perder completamente geleiras funcionais

● Dezenas: de grandes rios que deixam de chegar ao mar em parte do ano

● 50+ anos: período em que muitas bacias hidrográficas e aquíferos vêm sendo superexplorados

● 100 milhões de hectares: de terras agrícolas degradadas apenas pela salinização

Consequências humanas:

● 75%: da humanidade vivendo em países classificados como hidricamente inseguros ou criticamente inseguros

● 2 bilhões: de pessoas vivendo sobre terrenos em subsidência

● 25 cm: queda anual do solo observada em algumas cidades

● 4 bilhões: de pessoas enfrentando escassez severa de água ao menos um mês por ano

● 170 milhões de hectares: de áreas irrigadas sob alto ou muito alto estresse hídrico — equivalente às áreas combinadas de França, Espanha, Alemanha e Itália

● US$ 5,1 trilhões: valor anual dos serviços ecossistêmicos perdidos de zonas úmidas

● 3 bilhões: de pessoas vivendo em áreas onde o armazenamento total de água está em declínio ou instável, responsáveis por mais de 50% da produção global de alimentos

● 1,8 bilhão: de pessoas vivendo sob condições de seca em 2022–2023

● US$ 307 bilhões: custo global anual atual da seca

● 2,2 bilhões: de pessoas sem acesso a água potável gerida de forma segura, enquanto 3,5 bilhões carecem de saneamento seguro


Fonte: UNU-INWEG News