Estudo do INPE e do Cemaden confirma avanço da aridez na Caatinga; caso reforça crise climática como problema de saúde pública e testa coerência da política ambiental brasileira no cenário internacional
O reconhecimento oficial da primeira zona árida do Brasil, no norte da Bahia, encerra qualquer dúvida de que a mudança do clima deixou de ser uma projeção futura para se tornar uma realidade territorial concreta. O que por décadas foi tratado como “semiárido” passou a apresentar características típicas de aridez plena, resultado de um processo acelerado de redução das chuvas, aumento das temperaturas e degradação ambiental. No contexto pós-COP30, esse fato impõe ao país uma reflexão incômoda, porém inadiável: a distância entre os compromissos internacionais assumidos e a resposta efetiva no território.
A base científica que sustenta essa constatação é sólida. O estudo “Changes in the aridity index across Brazilian biomes”, conduzido por Javier Tomasella, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e por Ana Martins do Amaral Cunha, Marcelo Zeri e Lidiane C. O. Costa, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), demonstra que a aridez avança de forma estrutural em diferentes biomas brasileiros, com especial gravidade na Caatinga. A mudança foi observada em um trecho de aproximadamente 5 700 km² no município de Macururé e áreas vizinhas, no norte da Bahia, onde pesquisadores registraram precipitação média anual abaixo de 400 mm nas últimas três décadas — limiar reconhecido internacionalmente para caracterização climática de aridez. Não se trata de um evento episódico ou de uma oscilação climática natural, mas de uma mudança persistente e cumulativa, associada ao aquecimento global de origem antrópica.
O dado mais perturbador talvez seja o tempo. Em apenas uma geração, regiões inteiras atravessaram a fronteira climática que separa o semiárido da aridez. Isso significa que políticas públicas desenhadas para “conviver com a seca” já não respondem às condições reais do território. A aridez permanente impõe outro patamar de desafio: colapso de sistemas produtivos tradicionais, insegurança hídrica crônica, perda de biodiversidade e impactos sociais profundos, incluindo migração forçada e aumento das desigualdades regionais.
Do ponto de vista da saúde pública, o avanço da aridez explicita algo que as Estratégias da Fiocruz para Clima, Saúde e Agenda 2030 (EFA 2030) vêm afirmando de forma consistente: a crise climática é, antes de tudo, uma crise de saúde. Calor extremo, insegurança alimentar, piora das condições respiratórias, sofrimento psíquico e fragilização dos modos de vida são consequências diretas desse novo regime climático. Ignorá-las é comprometer a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) de proteger populações que já vivem em situação de alta vulnerabilidade.
A COP30, já realizada, consolidou no discurso internacional a centralidade da adaptação, das perdas e danos e da justiça climática. No entanto, a emergência da primeira zona árida brasileira expõe o quanto ainda precisamos avançar para transformar consensos diplomáticos em políticas públicas estruturadas. O Brasil não pode limitar sua liderança climática à retórica da mitigação baseada em florestas. É indispensável incorporar, com a mesma prioridade, a agenda da adaptação territorializada, especialmente em regiões historicamente negligenciadas como o semiárido nordestino.
Nesse sentido, a experiência brasileira pode — e deve — assumir um papel estratégico no debate global. Ao mesmo tempo em que evidencia vulnerabilidades, ela oferece a oportunidade de integrar ciência climática, políticas de saúde, planejamento territorial e desenvolvimento sustentável. A atuação articulada entre instituições científicas e políticas pode apontar um caminho possível, baseado em evidências, cooperação interinstitucional e foco nos territórios.
A primeira zona árida do Brasil não é apenas um novo dado climático. Ela é um marcador político. Revela que o tempo da adaptação gradual acabou e que decisões adiadas hoje terão custos humanos, sociais e econômicos muito maiores amanhã. No pós-COP30, a pergunta central não é mais se o Brasil será afetado pela mudança do clima, mas se será capaz de responder a ela com a urgência, a escala e a justiça que o momento exige.
Fonte: Changes in the aridity index across Brazilian biomes / Science Direct
Fonte da imagem destacada : Mudanças no índice de aridez nos biomas brasileiros (junho de 2025) – A Ciência do Ambiente Total – 989
