O Brasil enfrenta um desafio inédito na saúde pública: enquanto as ondas de calor dispararam de 7 para 52 dias anuais em três décadas, 566 unidades de saúde foram comprometidas por uma única enchente no Rio Grande do Sul. Essa urgência epidemiológica foi central na aula inaugural de “Impactos das Mudanças Climáticas na Saúde“, realizada nesta quarta-feira (12) na UERJ. Um encontro que também marcou os 40 anos do ICICT e 17 anos do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz.
O evento reuniu um consenso que cresce entre gestores e pesquisadores em saúde: a crise climática obriga reposicionamento urgente da governança do sistema público de saúde. A diretora do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde, Dra. Agnes Soares, apresentou dados que transformam essa discussão de teórica para operacional, números que impactam diretamente decisões de gestores de saúde em todo o país.

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Mas há uma dimensão que amplifica ainda mais os impactos climáticos: a vulnerabilidade de gênero e raça. Mulheres sofrem desproporcionalmente os efeitos da crise ambiental não apenas por fatores sociais, mas epidemiológicos mensuráveis. A cada 17 horas uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil; essa mesma vulnerabilidade as expõe a temperaturas até 15°C mais altas em favelas, a maior incidência de doenças infecciosas agravadas pelo clima (60% dos casos) e a acesso precário a água potável. Renata Gracie, vice-diretora de Pesquisa do ICICT, foi quem trouxe essa perspectiva para o centro da discussão ao citar o manifesto do Coletivo de Mulheres da Fiocruz, sublinhando que os impactos da misoginia nas condições de vida, saúde e trabalho das mulheres não podem ser separados da conversa sobre clima. Eles são parte do mesmo sistema de vulnerabilidade.
A constatação que Renata trouxe é enfática: as mudanças climáticas não são um evento neutro, elas aprofundam feridas sociais já existentes. Para gestores de saúde pública, essa constatação tem implicações diretas e operacionais. A diferença de 15°C entre favelas e bairros ricos não é apenas um dado demográfico; ela se traduz em demanda diferenciada por leitos de terapia intensiva, maior presença de doenças infecciosas e sobrecarga de unidades de saúde em territórios vulneráveis. Os 60% de doenças infecciosas agravadas pelo clima concentram-se exatamente nesses espaços. Isso significa que um gestor municipal de saúde em comunidade vulnerável enfrentará aumento simultâneo de dengue, leptospirose e infecções respiratórias em contexto de calor extremo, saturando sua capacidade de atendimento.
Cristóvão Barcelos, coordenador da disciplina, complementou essa perspectiva propondo o conceito de “multicrise”. Para ele, a crise climática é um fenômeno que transcende uma única disciplina e exige integração entre saúde, ambiente, política e ciência social. Barcelos também retomou um legado problemático: a saúde pública brasileira historicamente viu o clima sob uma ótica determinista e, frequentemente, racista, um legado colonial que compromete a resposta atual. Superar isso significa transformar a prática científica em ferramenta de justiça social e fortalecimento pragmático do SUS. Para Barcelos, isso exige humildade dos gestores, reconhecer que nenhuma disciplina sozinha resolve o problema e que é preciso construir redes reais de trabalho, pesquisa e serviço.
Essa “multicrise” que Barcelos descreve teoricamente ganhou contornos numéricos concretos na palestra de Agnes Soares. Focada em política baseada em evidências, ela apresentou como a crise climática já se traduz em números que redefinem a carga de trabalho e a capacidade do sistema de saúde público brasileiro. O resultado das enchentes no Rio Grande do Sul oferece um retrato inequívoco: 566 unidades de saúde comprometidas, incluindo centros de alta complexidade, com interrupção direta de serviços vitais como hemodiálise, cirurgias e terapia intensiva. Para gestores, essa não é uma ameaça futura. É uma crise de gestão que já ocorre.
Os dados se acumulam. Ondas de calor saltaram de uma média histórica de sete dias anuais (entre 1961 e 1990) para 52 dias na última década. De acordo com o Lancet Countdown para a América Latina 2025, com contribuição de pesquisadores da Fiocruz, a mortalidade relacionada ao calor na América Latina aumentou 103% entre 2012 e 2021 em comparação à década de 1990, resultando em cerca de 13 mil mortes anuais. Pesquisas do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz revelaram que o risco de morte por calor é significativamente maior para populações negras, evidenciando que a desigualdade racial amplifica a vulnerabilidade epidemiológica.
Sobre os desafios estruturais, Agnes Soares também acrescentou um número que expõe negligência de décadas: 32% da população brasileira não tem garantia de qualidade d’água. Esse legado vergonhoso do saneamento básico torna-se ainda mais crítico em contexto de estiagem, mudanças nos padrões de chuva e risco crescente de desabastecimento. Próximos de 2030, o Brasil ainda enfrenta essa realidade, o que significa que uma parcela significativa da população depende de água imprópria exatamente quando a crise climática aumenta demanda por hidratação e higiene.
Diante desse panorama, Agnes trouxe um imperativo claro para os profissionais da saúde: manter o povo vivo para que possa continuar lutando e mudando o mundo. Ela defende um sistema de saúde que funcione como uma rede de proteção, anteparo e resiliência da população frente às crises que o setor não controla, mas das quais precisa mitigar as consequências. Nesse sentido, destacou o papel de liderança do Brasil no “Mutirão Global contra a Mudança do Clima“, explicando que a palavra mutirão, de origem tupi-guarani, representa a ideia de que para resolver problemas complexos é preciso chamar a todos, sem deixar ninguém de fora – parafraseando o mote da Agenda 2030: “Sem deixar ninguém para trás”. Não é retórica. É uma estratégia de governança que reconhece que nenhuma instituição isolada consegue responder à magnitude da crise.
A diretora também apontou a gritante disparidade entre os países que mais consomem recursos e emitem gases poluentes e aqueles que sofrem as consequências mais letais. O custo humano dessa desigualdade é evidenciado por um dado que reposiciona responsabilidades globais: 79% das mortes relacionadas a eventos climáticos extremos monitoradas desde 1991 ocorreram em países do Sul Global. Para gestores de saúde pública brasileiros, esse número não é retórica de justiça social. É um fato que obriga simultaneidade impossível: mitigar impactos imediatos (ondas de calor, enchentes, surtos infecciosos) enquanto participa de negociações globais sobre emissões. A tarefa é operacional e política ao mesmo tempo.
Como representante do governo e do Ministério da Saúde, Agnes apresentou a resposta federal a este contexto dentro da infraestrutura do SUS. O Adapta SUS é um plano setorial que norteia as ações de adaptação do sistema público de saúde frente às mudanças climáticas. Sua estrutura se baseia em quatro eixos operacionais que traduzem urgência epidemiológica em ação concreta.
Primeiro, fortalecer a capacidade de cada região identificar quais riscos climáticos (seca, enchente, calor extremo, padrões de chuva alterados) afetam sua demanda epidemiológica específica. Um gestor do semiárido enfrenta seca; um do litoral, tempestades; um da Amazônia, alterações no regime de chuvas que amplificam vetores de dengue. Segundo, adaptar infraestrutura e protocolos para que o atendimento não seja interrompido durante desastres e ondas de calor. Isso significa hospitais com energia renovável, sistemas de armazenamento de água, refrigeração de medicamentos garantida mesmo em falta de energia. Terceiro, capacitar profissionais de saúde em novos protocolos climáticos e engajar comunidades em estratégias de proteção. Um enfermeiro de favela precisa saber identificar sinais de desidratação por calor extremo; uma gestante vulnerável precisa saber quando buscar atendimento em contexto de inundação. Quarto, desenvolver novas soluções e infraestrutura para um SUS mais resiliente. Isso inclui desde centros de saúde estruturalmente preparados para crise até sistemas de vigilância epidemiológica que previnam surtos antecipadamente em cenários de calor ou chuva extrema.
O diferencial dessa proposta ministerial está na relevância do território. O Ministério da Saúde está elaborando um guia para que cada um dos 5.570 municípios brasileiros possa construir seus próprios planos de adaptação climática, reconhecendo que crise climática não é um problema nacional genérico, mas uma série de crises locais distintas. Em paralelo, o projeto Adapta Cidades prioriza 581 municípios identificados com maior vulnerabilidade climática, articulando ações entre ministérios para que a resposta não seja fragmentada.

O Adapta SUS emerge nesse contexto como tentativa do Brasil de cumprir um imperativo operacional: manter viva uma população que precisa continuar funcionando socialmente. Mas como reforçou Cristóvão Barcelos, essa resposta exige mais do que planejamento setorial isolado. Exige integração real entre disciplinas, construção de redes de trabalho que conectem pesquisa, governo e serviço, e principalmente reconhecimento de que a vulnerabilidade não é geográfica ou epidemiológica apenas, mas profundamente marcada por raça, gênero e classe.
A comemoração dos 40 anos do ICICT e dos 17 anos do Observatório de Clima e Saúde marca o reconhecimento de que a agenda de pesquisa e política pública em saúde não pode ignorar as mudanças climáticas como fator constitutivo de saúde coletiva. A questão agora é se a velocidade de implementação do Adapta SUS conseguirá acompanhar a velocidade da crise climática.

