Lançado relatório com participação da Fiocruz de resposta a pandemias

Castelo mourisco iluminado a noite

Por Ana Paula Blower (Agência Fiocruz de Notícias)

O Secretariado Internacional de Preparação para Pandemias (IPPS) lançou, nesta terça-feira (27/1), o 5º Relatório de Implementação da Missão dos 100 Dias, alertando que a prontidão global contra pandemias está se tornando cada vez mais frágil em um momento de crescentes riscos geopolíticos e de biossegurança. A Fiocruz contribuiu para a construção do relatório e participou do lançamento, realizado durante evento em Paris. O presidente Mario Moreira, parte do grupo diretor do IPPS e que também preside a Rede Pasteur, integrou um painel sobre produção de vacinas por equidade no acesso.

A Fiocruz, que contribui ativamente para as ações do IPPS, colaborou para a construção do relatório (foto: Divulgação)

A Missão dos 100 Dias visa garantir que diagnósticos, tratamentos e vacinas seguras, eficazes e acessíveis possam ser desenvolvidos, aprovados e disponibilizados para produção em larga escala em até 100 dias após a identificação de uma ameaça pandêmica. O 5º Relatório de Implementação avaliou o progresso global em direção a essa meta durante um ano marcado por grandes mudanças políticas, financeiras e epidemiológicas. Acesse o documento em inglês

A Fiocruz, que contribui ativamente para as ações do IPPS, colaborou para a construção do relatório diante de sua ampla gama de atuação a nível nacional, regional e global e de compromisso com um mundo mais equitativo, justo e preparado, o que se alinha com os objetivos da Missão de 100 dias. Ao longo de 2025, a Fundação deu continuidade e desempenhou uma série de ações com foco na cooperação estruturante, na colaboração Sul-Sul, na solidariedade entre os países e no fortalecimento das capacidades locais e regionais de produção. Foram, por exemplo, parcerias para formação de quadros em países da África e da América do Sul, acordos de cooperação com o CDC África e com instituições da região, além do trabalho conjunto com a OMS e a Organização Panamericana da Saúde.

Ao participar de um painel sobre inovação e impacto em prol da equidade no acesso à vacinas, durante o lançamento do relatório, o presidente da Fiocruz, Mario Moreira, apresentou justamente uma dessas iniciativas, a Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, criada pelos Ministros da Saúde do G20 em 2024, no Brasil, e da qual a Fundação é a secretaria executiva.

“A Coalizão surge da compreensão de que o acesso equitativo exige ação global coordenada, e não esforços isolados. Reconhece-se também que os produtores regionais devem ter uma capacidade de ação real — não apenas como locais de produção, mas como parceiros estratégicos que definem prioridades, decisões de investimento e caminhos de inovação”, disse Moreira.

O presidente falou ainda sobre como integrar o acesso e a equidade às atividades e parcerias de desenvolvimento de vacinas. “O acesso e a equidade devem ser princípios orientadores, moldando as prioridades de pesquisa, escolhas de plataformas, modelos de parceria e decisões sobre onde e como as vacinas são desenvolvidas e produzidas. Na Fiocruz, o acesso e a equidade fazem parte do nosso mandato institucional”, reforçou Moreira. “Nosso objetivo não é apenas produzir vacinas, mas também construir e reter conhecimento, autonomia tecnológica e capacidade regional a longo prazo”.

Neste aspecto, ele destacou a experiência da Fiocruz, a partir do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), e sua visão integrada. Ao longo dos anos, Bio-Manguinhos implementou diversas parcerias de transferência de tecnologia de vacinas, combinando a produção local com o desenvolvimento estruturado de capacidades, capacitação da força de trabalho e fortalecimento institucional. “Trabalhamos em estreita colaboração com os sistemas de saúde pública para garantir que o desenvolvimento de vacinas esteja alinhado com as condições reais de distribuição”, ressaltou ele.

A assessora especial da Presidência para assuntos internacionais, Paula Reges, e o vice-diretor de inovação de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Hugo Defendi, também participaram do evento de lançamento em Paris ao lado do presidente Mario Moreira.

Avanços e desafios pela frente

Entre alguns dos destaques do relatório está a adoção, em 2025, do Acordo de Pandemias da Organização Mundial da Saúde (OMS) como um passo significativo, estabelecendo o primeiro marco global para preparação e resposta equitativas. Ao mesmo tempo, registrou-se fortes reduções no financiamento da saúde global e de Pesquisa e Desenvolvimento, incluindo a diminuição de compromissos por parte de grandes doadores e o encerramento de diversos programas de grande porte, interromperam fluxos de inovação e revelaram o quanto o ecossistema de preparação permanece dependente de uma base de financiamento restrita. 

Apesar dos desafios, o relatório também identificou áreas de progresso significativo. Avanços em tecnologias de plataforma, incluindo a de mRNA, anticorpos monoclonais e inteligência artificial, continuam oferecendo oportunidades para acelerar o desenvolvimento de insumos. A capacidade regional expandiu-se, particularmente na África, com o amadurecimento regulatório e o crescimento da capacidade de produção industrial. 

O evento de lançamento do relatório do IPPS foi realizado em parceria com a Agência Nacional Francesa de Pesquisa em Doenças Infecciosas Emergentes da França (ANRS MIE, da sigla em francês) e a Rede Pasteur.