Neil Vora enfatizou, com princípios em Uma Só Saúde, a necessidade de mais atenção primária contra esse grave quadro
“O mundo vive uma era de sindemia”. Assim, o médico epidemiologista Neil Vora, diretor executivo da Preventing Pandemics at the Source – coalizão internacional criada para prevenir pandemias antes que elas comecem, sobretudo na origem das doenças que podem passar de animais para humanos – focou sua apresentação na palestra “Proteger a natureza é proteger a nós mesmos”, organizada pelo Centro de Estudos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), no dia 27 de fevereiro, convidado por Bruno Moreira de Carvalho, pesquisador em Saúde Pública no IOC.
Com base na abordagem de Uma Só Saúde – abordagem integrada que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental –, ele fez interseção entre conservação ambiental e prevenção de pandemias, e sua importância para a saúde e o bem-estar – ODS 3, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável mais trabalhados pela Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030). Segundo o epidemiologista, essa abordagem é muito importante no Marco Global de Biodiversidade e no acordo de pandemias da OMS.
Sindemia é “uma conjuntura em que os problemas socioeconômicos, sanitários e ambientais de uma determinada localidade propiciam a ocorrência de duas ou mais epidemias simultâneas (por exemplo, dengue e Covid-19), com maior gravidade e impacto negativo sobre a população (definição da Academia Brasileira de Letras).

Neil Vora fez a sua palestra on-line para o Centro de Estudos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC)
Para solucionar esse quadro, Vora defende a mudança sistêmica e colaborativa a fim de que se garanta a sobrevivência futura, mas percebe a carência de ação governamental, pela negligência em relação às causas ambientais das doenças, muitas delas de origem zoonótica. “O desmatamento especificamente gera estresse na vida selvagem, aumenta a chance de infecção e favorece espécies generalistas que convivem com humanos”.
Planeta em crescente risco de existência
Ao analisar a crise planetária e a sindemia, Vora destacou que as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade são sintomas de um planeta estressado. Alertou para o surgimento de patógenos fúngicos, como a Candida auris, selecionados por temperaturas mais altas. Ele apontou para o paradoxo de que, embora estejamos no melhor momento para o ser humano em termos de métricas sociais, hipotecamos a saúde das futuras gerações ao ultrapassar sete das nove fronteiras planetárias. Somente a camada de ozônio e os aerossóis seguem dentro dos limites.
O conceito das fronteiras planetárias, desenvolvido por um grupo de cientistas liderados pelo sueco Johan Rockström e pelo americano Will Steffen, e publicado, em 2009, na revista “Nature”, tem base na ideia de que ultrapassar esses limites pode levar a mudanças ambientais abruptas e irreversíveis que ameaçam a estabilidade do sistema Terra e, consequentemente, a capacidade da humanidade de sobreviver e prosperar no longo prazo. De acordo com estudo de 2025 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), que incluiu a acidificação dos oceanos, os sete ultrapassadores de fronteiras planetárias são os seguintes:
- Mudanças climáticas
- A integridade da bioesfera (diversidade genética e energia disponível para os ecossistemas)
- Mudanças no sistema terrestre
- Mudanças na água doce (mudanças em todo o ciclo da água sobre a terra)
- Fluxos biogeoquímicos (incluindo os ciclos de nutrientes)
- Novas entidades (como os microplásticos e os desreguladores endócrinos presentes em todos os produtos químicos, pesticidas e poluentes orgânicos).
- Acidificação dos oceanos
Fonte: Instituto Potsdam
Enorme falta de prevenção
Vora criticou a ênfase global na preparação – resposta pós-surto, uma prevenção secundária, com base no estabelecimento e operacionalização de equipes multidisciplinares e multissetoriais responsáveis pela investigação rápida de alertas, avaliações de risco de campo e, quando necessário, respostas operacionais antecipadas – em detrimento da prevenção contra o transbordamento inicial, uma prevenção primária – evitar o surto com o fortalecimento da vigilância em saúde e promover ações coletivas que reduzam os riscos.
O palestrante observou que relatórios da OMS mal mencionam “desmatamento” ou “vida selvagem”, e se limitam excessivamente a passarem soluções biomédicas. Em seu entender, o setor de saúde negligencia a prevenção, devido à preferência por especialistas, aversão à complexidade, curto-prazismo político e dificuldade em medir o sucesso de algo que não aconteceu. “A prevenção custaria entre US$ 20 e 30 bilhões anuais, uma fração do custo de uma pandemia”, ressaltou.
Sugestão de Vora para prevenir transbordamentos:
- Interromper o desmatamento (mencionou o sucesso do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal – PPCDAm, criado em 2004, durante o primeiro governo do presidente Lula
- Melhorar a saúde e segurança econômica de comunidades em áreas de risco
- Regular estritamente o comércio de vida selvagem em áreas urbanas
- Melhorar o controle de infecções na pecuária
Os transbordamentos de patógenos (Spillover) – transmissão de patógenos entre espécies de vertebrados – são destacados por Vora como os maiores motivadores das seis epidemias virais ocorridas no mundo desde 1918, com a morte de cerca de 90 milhões de pessoas. No geral, entretanto, as pessoas, segundo ele, recordam mais evento único em um século, a Covid-19. O estresse na vida selvagem provocado pelos seguidos desmatamentos aumenta, conforme Vora, a chance de doenças infecciosas emergentes, que ameaçam aumentar ainda mais num futuro próximo. Ele apontou quatro razões para que isso esteja acontecendo:
- Desmatamento e degradação florestal: criação de bordas de floresta que aumentam a intenção humano-animal
- Biossegurança precária na pecuária: animais aglomerados e geneticamente homogêneos facilitam a propagação
- Comércio de vida selvagem: especialmente para o mercado de luxo urbano, o que já causou surtos de MPox e SARS
- Mudanças climáticas: um impulsionador que agrava mais de 50% das doenças conhecidas
‘Festival de patógenos’
Habitantes de algumas regiões da África e da Ásia consomem carne de morcego e de outros animais silvestres e selvagens. Na Nigéria, a alimentação quiróptera chega a atrair grande número de pessoas para um Festival de Morcegos a fim de caçarem, principalmente, o da espécie frugívera Rousettus aegyptiacus, da família Pteropodidae, transmissor de um vírus de mesmo nome. Vora, em 2013, liderou investigação sobre o evento no qual registrou a caça feita por homens e meninos, e cuja pesquisa revelou a existência de novas bactérias e vírus circulantes. “O dado mais alarmante foi a inequidade em saúde: enquanto o contato com morcegos era alto, apenas 1% tinha acesso à vacina contra a raiva”, relatou.

