Relatório aprofunda experiências no uso de tecnologias digitais em saúde

O objetivo é analisar as implicações das tecnologias digitais para os sistemas e serviços de saúde

O Brasil tem avançado bastante quanto ao uso de tecnologias digitais em saúde, sobretudo pela adesão de 100% dos municípios e estados ao Programa SUS Digital, dado divulgado pela Secretaria de Informação e Saúde Digital (Seidigi), no final de 2024.  A fim de que sejam cada vez mais qualificadas e bem aproveitadas para uso público no SUS e também na Atenção Primária à Saúde (APS), há o reforço por meio de trabalhos como o relatório “Uso de Tecnologias Digitais na Gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) – experiências e lições aprendidas”, do Observatório do SUS/Ensp, em parceria com o projeto “Implicações das Tecnologias Digitais nos Sistemas e Serviços de Saúde”, da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030).

O relatório foi apresentado em Webinário com o mesmo nome dele, promovido pelo Observatório, no dia 5 de fevereiro. Divulgado em 30 de janeiro, busca dar visibilidade às experiências municipais que muitas vezes não são acompanhadas por estudos ou planos oficiais, produzindo subsídios para políticas públicas e gestão do SUS. Nele é possível encontrar a síntese dos principais resultados, aprendizados e recomendações provenientes da oficina sobre “Uso de tecnologias digitais na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS): experiências e lições aprendidas”, realizada no dia 28 de agosto de 2025, na ENSP/Fiocruz. “O Observatório elegeu a transformação digital como fenômeno contemporâneo essencial para a saúde pública”, afirmou Eduardo Melo, coordenador dele e vice-diretor da Escola de Governo em Saúde (VDEGS/ENSP/Fiocruz).

EFA 2030 e Saúde Amanhã

Já o projeto da EFA 2030, iniciado em 2020, dentro da iniciativa Saúde Amanhã – uma rede multidisciplinar de pesquisa que investiga e propõe caminhos para o país e o setor Saúde –, foca em analisar as implicações das tecnologias digitais para o SUS e o seu próprio fortalecimento, e discernir questões voltadas à Inteligência Artificial (IA), regulação sobre o uso desses recursos, segurança quanto a dados pessoais, utilização para beneficiar a vigilância epidemiológica e a governança brasileira e de outros países. É coordenado por Leonardo Castro, coordenador executivo da Saúde Amanhã, e Marcelo Fornazin, pesquisador, ambos da ENSP.

Na abertura do Webinário, Paulo Gadelha, coordenador da EFA 2030, discorreu sobre o impacto das transformações digitais no SUS e a importância da visão contemporânea de futuro, norteada principalmente pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, defendidos e disseminados pela EFA 2030 desde 2017, quando foi criada. Há, segundo ele, integração fundamental disso com o projeto Saúde Amanhã, de visão prospectiva e escalas móveis, já evoluindo para pensar o cenário de 2050, tendo 2030 como ponto de passagem obrigatório. “A questão digital é central, e deve seguir o princípio da tecnologia e inovação como elementos para resolver os problemas contemporâneos”, apontou.  

Paulo Gadelha, coordenador da EFA 2030

Contribuições municipais

O relatório foca em experiências municipais de sucesso, destacando como o uso de prontuários eletrônicos, telessaúde e inteligência artificial pode aprimorar a gestão e a Atenção Primária. Entre os principais pontos discutidos estão a importância da interoperabilidade de dados por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura e formação.

As experiências qualificadas de Campo Grande, Recife, Curitiba, Rio de Janeiro, Vila Velha e Manaus propiciam no relatório ‘retratos’ da utilização de tecnologia digital nas cinco macrorregiões brasileiras. Mariana Albuquerque, pesquisadora da ENSP que liderou o trabalho de identificação dessas experiências, apresentou o relatório. A publicação é fruto de uma série de entrevistas e oficinas que visam analisar as implicações das tecnologias digitais para os sistemas e serviços de saúde, e resultou em vídeos sobre o que se passou em cada município.

Mariana Albuquerque, pesquisadora da ENSP

Dentre os aprendizados aludidos no relatório, a Atenção Primária é considerada a liderança estruturante da saúde digital nos municípios. Essa digitalização, conforme Albuquerque, impacta diretamente nas lógicas de financiamento e gestão, e o financiamento torna-se todo baseado em dados cada vez mais precisos, mais rápidos e em maior volume. “Por isso, o processo deve ser inclusivo para que os municípios não sejam prejudicados”, acentuou.

38 recomendações organizadas em sete blocos no relatório. Alguns destaques incluem fortalecer o papel do Ministério da Saúde e transformar o e-SUS APS em software de código aberto para maior flexibilidade municipal, equidade – garantir que a teleconsulta seja baseada em critérios técnicos e manter canais analógicos (atendimento presencial) para respeitar desigualdades, comunicação e participação, e políticas inteligentes. “A transformação digital exige investimentos robustos e contínuos, que vão além da tecnologia, englobando infraestrutura, formação e segurança”, defendeu Albuquerque.

Debatedores

O Webinário foi apresentado por Eduardo Melo, e teve como debatedores Josélio Queiroz, assessor técnico da Seidigi, Rodrigo Gaete, coordenador de Inovação Digital na Atenção Primária em Saúde na Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), e Fernando Aith, professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP.

O Programa SUS Digital, iniciado em março de 2024, visa ampliar o acesso da população aos serviços e ações de saúde, com ênfase na integralidade e resolubilidade do atendimento médico. Queiroz ressaltou que todos os municípios e estados brasileiros o aderiram, o que possibilita avanços como diagnóstico situacional e financiamento direto para isso. A maior eficiência na gestão da informação também foi destacada por Queiroz com o aprimoramento da qualidade por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde. Criada para conectar diferentes sistemas de saúde em todo o Brasil, a RNDS estabelece a infraestrutura nacional para o compartilhamento seguro e padronizado de dados de saúde. Já conta com 4,3 bilhões de dados, incluindo mais de 1 bilhão de registros vindos da saúde suplementar.

Definindo a política de saúde digital de hoje como muito mais avançada do que no início dos anos 2010, Gaete fez um paralelo disso às mudanças positivas decorrentes do e-SUS, criado em 2013. Citou como exemplos dos avanços os 97% dos municípios já usando algum prontuário eletrônico, 78% o Prontuário Eletrônico do Cidadão, e inovações como o Design Thinking – metodologia para colocar o paciente no centro das soluções, criando na Atenção Primária experiências mais humanizadas e eficientes. O desafio agora, acredita, é a qualificação e consolidação, tratando as desigualdades regionais. “Precisamos também garantir que a Atenção Primária se comunique efetivamente com a atenção especializada”, aconselhou.

Fernando Aith, professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, se ateve à necessidade de maior proteção dos dados das instituições públicas em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), à regulação da IA focada em riscos e no letramento digital – abordagem abrangente que vai além do mero domínio técnico das ferramentas digitais, como a capacidade de compreender, analisar criticamente, comunicar-se efetivamente e aplicar habilidades digitais – e em saúde.