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Evento de diálogos socioambientais da Cogic / Fiocruz deixou claro o quanto as mulheres na linha de pobreza no Brasil carecem dos avanços das ODS 5 e 6
A marchinha de Carnaval “Lata d’água na cabeça”, composta por Luiz Antônio (1921-1996) e Jota Junior (1923-2019), retratava a complicada rotina das mulheres em favelas cariocas no início dos anos 1950, e tem como refrão: “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria”. De lá pra cá, como bem enfatizou em sua crônica do início dos anos 2010 a jornalista e escritora Rosiska Darcy de Oliveira, “ninguém acha mais graça desse inferno (…) e com a água encanada chegando a tantos lares, é mais difícil aceitar a torneira seca”. Nos mais de 70 anos passados do sucesso carnavalesco, algo continua muito igual: os rostos ‘invisíveis’ da coleta d’água tão evidentes nos trabalhos intermináveis de donas de casa que a fazem, às vezes, sem nem mesmo uma torneira, em um país que carece de maior abastecimento do produto e saneamento.
No evento “Diálogos Socioambientais – Dia Mundial da Água 2026: Água e Gênero”, organizado pela Coordenação Geral de Infraestrutura dos Campi (Cogic / Fiocruz) e realizado no dia 25 de março, as ‘Marias lata d’água na cabeça’ tiveram visibilidade. Com uma mesa composta apenas por mulheres, os diálogos conectaram equidade de gênero, sustentabilidade e o futuro da gestão hídrica. No eixo principal, os impactos causados a mulheres em condições precárias de vida num momento de crise ambiental global, agravados pelo descaso em relação a elas. O panorama geral enfatizou que o direito à água é indissociável das lutas por justiça social e representatividade feminina nos espaços de governança.
O impacto da falta de saneamento é mais “cruel” com as mulheres, disse Caroline Lopes Santos, engenheira de recursos hídricos com mestrado pela Coppe/UFRJ e gerente de meio ambiente na Águas do Rio/Prolagos, ao apresentar os seguintes dados do Instituto Trata Brasil sobre o país:
- 56,7% das pessoas sem saneamento se autodeclaram pardas
- 53% das internações por doenças de veiculação hídrica são de mulheres (e 43% envolvem crianças e idosos sob cuidados femininos)
- Mulheres dedicam o dobro do tempo dos homens a trabalhos domésticos não remunerados
- 80% das mulheres com filhos de até 3 anos declaram não conseguir trabalhar por falta de estrutura de cuidado
- 18 milhões de mulheres sairiam da pobreza se tivessem acesso ao saneamento, com potencial de aumento de renda em até 1/3
A Agenda 2030, criada pela ONU, em 2015, com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas, visa reverter essa situação no mundo. Tal questão está tratada diretamente no ODS 5: “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas”, e realçada em sua meta 5.4 – “Reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social (…)”. E de uma forma geral, no ODS 6 – “Garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos”, e no Brasil, “alcançar o acesso universal e equitativo à água para consumo humano, segura e acessível para todos e todas”. A Fiocruz, com o apoio direto da EFA 2030, integra o Pacto de Desenvolvimento Sustentável criado em 25 de setembro de 2015, para favorecer os ODS através de modelo de desenvolvimento sustentável nas dimensões econômica, social e ambiental.

Os diálogos
Participaram da mesa de diálogos Anna Virgínia Muniz Machado, professora da UFF e engenharia civil, especializada em gestão hídrica, participante da rede de atores que atua especialmente no alcance dos ODS, Rejany Ferreira dos Santos, geógrafa e presidenta do Comitê Gestor da Bacia da Baía de Guanabara, Fernanda Sobral Short, cientista ambiental, doutoranda com pesquisa das tartarugas reabilitadas e de vida livre da costa brasileira, Natália Torres, arquiteta e urbanista, pesquisadora em saneamento ecológico e gestão territorial da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde VPAAS/Fiocruz, e Caroline Lopes Santos. Karina Custódio, engenheira ambiental da Fiocruz, foi a mediadora.
Racismo ambiental
Rejany Ferreira, geógrafa e presidenta do Comitê Gestor da Bacia da Baía de Guanabara, evidenciou a situação de abandono de mulheres na linha de pobreza e em condições precárias de vida na bacia hidrográfica do Canal do Cunha, onde está a Fiocruz. Para ela, as mulheres negras, periféricas e de famílias uniparentais dessa região são as mais impactadas pela crise hídrica e pelo processo de privatização da água, gerando altos custos em territórios como Manguinhos, com pioras dos serviços. “O racismo ambiental, da negligência histórica em políticas públicas e do déficit de infraestrutura, destina os piores passivos ambientais a essa população, como as graves enchentes em Manguinhos, que deixam os moradores literalmente debaixo d’água”, criticou.
A falta de saneamento acarreta, segundo Ferreira, numa “economia do tempo roubado”, na qual as mulheres gastam horas coletando água em vez de se dedicarem à educação ou lazer, em um trabalho doméstico socialmente invisibilizado e considerado “não trabalho”. Além disso, conforme Ferreira, há um paradoxo na gestão hídrica: as mulheres são as responsáveis pela provisão doméstica, mas ocupam apenas cerca de 30% dos espaços de decisão e governança dos recursos hídricos.
Para enfrentar esses problemas na bacia do Canal do Cunha, Ferreira propõe o uso de tecnologias sociais baseadas na natureza, como bacias de evapotranspiração (Bets) – sistema de tratamento e reaproveitamento do efluente proveniente de vasos sanitários, biofiltros – sistema que utiliza organismos vivos, como bactérias e plantas, para tratar e purificar a água, removendo poluentes e contaminantes – e biodigestores – sistema utilizado para o tratamento da matéria orgânica através do processo de decomposição anaeróbia (na ausência de oxigênio). “Essas soluções visam tratar o esgoto e proteger as nascentes utilizadas pela população local, promovendo saúde e dignidade”, ressaltou.
Marco no saneamento básico do Rio
O Complexo da Maré foi apresentado por Caroline Santos como exemplo de engenharia complexa que pode vir a gerar renda local e dignidade. Está em andamento obra inédita de R$ 120 milhões no complexo feita pela Prefeitura do Rio por meio da empresa Águas do Rio, para beneficiar cerca de 200 mil moradores. O projeto visa retirar, com tecnologia de perfuração para proteger casas, 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês que seriam lançados na Baía de Guanabara, e tem como meta garantir água encanada regular, sem ligações clandestinas, e ampliar a coleta e o tratamento de esgoto em toda a região. É a maior intervenção do tipo já realizada em uma comunidade de baixa renda na história da cidade.
O grupo Aegea, do setor privado de saneamento brasileiro, é dono da Águas do Rio e atua em mais de 890 municípios brasileiros, atendendo desde vilas com menos de mil habitantes até grandes concessões como o Rio de Janeiro. Santos citou como caso de sucesso do Aegea a recuperação da Lagoa de Araruama, que passou por processo de degradação e hoje apresenta retorno de aves migratórias e espécies marinhas. Também apresentou o programa da Aegea “Respeito Dá o Tom”, que busca a reparação histórica e a inclusão de pessoas negras em cargos de liderança.
Importância do cidadão
Anna Virgínia Machado abordou a gestão da água e gênero como temas transversais indispensáveis para projetos de infraestrutura modernos – a educação ambiental, a percepção da integridade da água e a questão de gênero. Ela incentiva o engajamento em redes profissionais nacionais e internacionais para alcançar os ODS, e reforçou que a transformação global depende tanto de decisões institucionais quanto da responsabilidade individual de cada cidadão. Para Machado, o saneamento não é um problema de mulheres. “É uma questão da sociedade que o Brasil precisa enfrentar abertamente”, afirmou, embora tenha lembrado que a tarefa de buscar água recai majoritariamente sobre mulheres e crianças, com exemplos de Moçambique e Quênia, até em áreas urbanas.
No contexto brasileiro, prosseguiu Machado, o acesso à água em pequenas cidades, vilas e comunidades de pequeno porte costuma ser gerenciado por associações de moradores, muitas vezes com apoio de companhias estaduais. Essas associações, de acordo com Machado, atuam como concessionárias locais, sendo responsáveis pelos custos, manutenção e cobrança de tarifas, que em alguns casos ainda ocorrem de forma informal. “É de grande importância a participação social das mulheres nas gestões comunitárias brasileiras”, enfatizou.
Formas diferentes de organização
Água, território e dignidade feminina tiveram bons exemplos de proatividade na fala da pesquisadora Natália Torres, com base no apoio do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), atuante nos litorais sul do Rio de Janeiro e norte de São Paulo, com o apoio técnico da Fiocruz. Entre os quais o coletivo “Mulheres na Cozinha das Tradições”, consolidado em 2023, que reúne comunidades de povos tradicionais para, por meio da culinária com base em receitas tradicionais, não possibilitar a alimentação ultraprocessada nas escolas; o papel das mulheres na pesca artesanal por meio de automonitoramento, incluindo pescadoras e marisqueiras que lutam por reconhecimento e enfrentam problemas de saúde; na agroecologia, com as mulheres atuando no plantio, colheita e distribuição escolar, gerando renda para os territórios; e o Turismo de Base Comunitária (TBC) como uma alternativa não predatória que respeita os limites ambientais do território. “Ao implantar formas diferentes de organização, abre-se o horizonte para entender que o poder não precisa ser centralizado”, disse.
Tartarugas marinhas
A utilização de tartarugas marinhas, especificamente a tartaruga-verde, como indicadores biológicos da saúde ambiental na Baía de Guanabara, foi o foco da participação da pesquisadora Fernanda Sobral Short. Ela detalhou como a poluição por esgoto e plásticos afeta esses animais, resultando no surgimento de tumores ligados à baixa imunidade em áreas mais urbanizadas. O monitoramento realizado desde 2022 revelou que, embora as tartarugas sejam resilientes e retornem aos mesmos locais, a qualidade da água impacta diretamente sua sobrevivência. O estudo também investigou a presença de bactérias resistentes a antibióticos, e destacou o papel fundamental das mulheres na ciência da conservação. “A preservação da biodiversidade marinha exige o enfrentamento de problemas sociais, como a falta de saneamento básico”, concluiu.

