Fiocruz promove debate sobre equidade racial e reforça papel institucional no enfrentamento ao racismo estrutural

Encontro no Icict articula ciência, cultura e direitos humanos em torno da luta antirracista, em sintonia com agenda internacional que reconhece a escravidão como crime contra a humanidade

Em um momento de reconfiguração do debate global sobre racismo e justiça histórica, a Fundação Oswaldo Cruz voltou a colocar o tema no centro da agenda pública. Em alusão ao Dia Internacional contra a Discriminação Racial, o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) realizou o encontro “Vozes e Diálogos sobre Equidade Racial”, reunindo pesquisadores, ativistas, estudantes e representantes da sociedade civil em torno de um eixo comum: enfrentar o racismo como determinante estrutural das desigualdades no Brasil.

O evento integrou a mobilização dos “21 dias de ativismo contra o racismo” e se estruturou como uma roda de conversa que abordou ancestralidade, identidade, cultura, saúde e direitos, dimensões indissociáveis da experiência da população negra no país. A iniciativa faz parte do Projeto Òdàrà, voltado à promoção da equidade racial e ao fortalecimento de ambientes institucionais antirracistas dentro da própria Fiocruz.

Racismo como estrutura e determinante social da saúde

A abordagem adotada no encontro dialoga diretamente com uma compreensão consolidada na saúde coletiva: o racismo não é apenas uma questão moral ou cultural, mas um organizador social que impacta condições de vida, acesso a serviços e desfechos em saúde. Esse entendimento vem sendo reforçado por iniciativas institucionais da Fiocruz, que reconhecem o racismo estrutural como elemento central na produção de desigualdades.

Ao reunir diferentes vozes de movimentos como Bucalidade Negra, Atitude Negra e coletivos culturais, o evento evidenciou que a construção de respostas efetivas passa necessariamente por uma escuta ativa dos territórios e pela valorização de saberes historicamente marginalizados.

Da memória à responsabilização global

O debate promovido pela Fiocruz ocorre em paralelo a um movimento internacional de revisão histórica. Recentemente, no âmbito da Organização das Nações Unidas, o tráfico transatlântico de africanos escravizados passou a ser formalmente reconhecido como o mais grave crime contra a humanidade, reforçando a necessidade de justiça reparatória e de enfrentamento dos legados contemporâneos da escravidão.

Essa classificação reposiciona o debate: não se trata apenas de memória histórica, mas de responsabilidade política e institucional no presente. A própria ONU tem reiterado, por meio de iniciativas como a Década Internacional de Afrodescendentes (2025–2034), que o enfrentamento ao racismo exige ações concretas nos campos da educação, saúde, justiça e desenvolvimento.

Agenda 2030, ODS 18 e o protagonismo brasileiro

Nesse contexto, o Brasil vem ampliando sua atuação ao incorporar o chamado ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial, adotado voluntariamente como complemento à Agenda 2030. A proposta busca dar centralidade à superação do racismo estrutural como condição para o desenvolvimento sustentável, conectando-se diretamente com metas já existentes, como saúde (ODS 3), redução das desigualdades (ODS 10) e justiça social (ODS 16).

A Fiocruz, enquanto instituição estratégica do Estado brasileiro, tem desempenhado papel relevante nessa agenda ao integrar produção científica, formação e políticas públicas orientadas à equidade racial, como evidenciado no próprio evento do Icict.

Próximo passo: Conferência Livre sobre ODS 18

Como desdobramento desse movimento, está prevista para o dia 22 de abril de 2026, na Fiocruz, a realização da Conferência Livre sobre o ODS 18, que deverá reunir pesquisadores, gestores públicos e movimentos sociais para aprofundar propostas e consolidar diretrizes voltadas à promoção da igualdade racial no país.

A expectativa é que o encontro avance na articulação entre ciência, políticas públicas e participação social e contribua para posicionar o Brasil como referência internacional no enfrentamento ao racismo estrutural a partir de uma perspectiva de desenvolvimento sustentável.

Fontes: Fiocruz/Icict; Ministério da Igualdade Racial; Agência Brasil; CUT; Instituto Peregum; Organização das Nações Unidas (ONU).