Aumento da temperatura ambiente eleva chance de desnutrição infantil

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Por Lívia Oliveira (Cidacs/Fiocruz Bahia)

A conclusão tem base em estudo de pesquisadores da Fiocruz publicado em conceituada revista de ciências médicas da Inglaterra
O aumento crescente da temperatura no Brasil pode estar afetando mais do que o clima: também pode impactar o crescimento das crianças. Um estudo com mais de 6 milhões de crianças entre 12 e 59 meses (1 a 5 anos) aponta que cada aumento de 1°C na temperatura ambiente acima de 26°C está associado a uma maior chance de desnutrição infantil.

O achado é de um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz, publicado no periódico The Lancet, e motivado pela escassez de evidências sobre o impacto do aumento da temperatura e desenvolvimento físico infantil na América Latina. A pesquisa combinou informações de saúde e clima de uma década, coletadas entre 2007 e 2017 em todo o país.

No estudo conduzido pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimento em Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), o aumento de temperatura esteve associado a 10% mais chance de baixo peso, além de 8% maior chance para desnutrição aguda e 8% para desnutrição crônica. De acordo com uma das autoras, a pesquisadora Priscila Ribas, os resultados mudam a perspectiva sobre como o aumento da temperatura, muitas vezes visto apenas como um desconforto, também pode ser um determinante de saúde infantil, sobretudo no âmbito da desnutrição.

“Temperaturas elevadas desencadeiam um efeito cascata: reduz o apetite, altera o metabolismo infantil, aumenta a chance de episódios agudos de diarreia; condição que prejudica diretamente a absorção de micronutrientes, afetando o estado nutricional das crianças”, explica Ribas.

Os resultados foram identificados através da vinculação de dados administrativos da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, que utiliza os registros do Cadastro Único (CadÚnico), com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan).

Impactos no peso e crescimento

De acordo com os achados da pesquisa, os efeitos do aumento da temperatura não aparecem imediatamente. Durante a análise, os pesquisadores observaram que as diferentes formas de desnutrição respondem à exposição em ritmos distintos e os impactos podem se acumular ao longo de semanas.

No caso do baixo peso e desnutrição aguda, os efeitos da temperatura aparecem rapidamente, geralmente entre zero e três semanas após a exposição. Já a baixa estatura apresentou um padrão diferente: o aumento na chance aparece algumas semanas depois e está relacionado à exposição contínua ao calor ao longo do tempo.

“Embora alguns impactos agudos possam ser temporários, a exposição prolongada a temperaturas elevadas pode ter efeitos permanentes no desenvolvimento físico e cognitivo da criança”, conta Priscila.

Quando o assunto é grupos, os dados indicam maior proporção de baixo peso e desnutrição aguda entre meninas, enquanto o atraso no crescimento foi mais frequente entre meninos. Entre os meninos analisados, 10,40% tiveram atraso no crescimento. Nas meninas, 4,22% estavam abaixo do peso e 5,90% apresentavam desnutrição aguda.

No que se refere à raça e etnia, o cenário mais crítico foi observado entre crianças indígenas, com 6,72% do grupo abaixo do peso e 26,65% com atraso no crescimento. Já entre as crianças pretas, 5,86% apresentavam desnutrição aguda e 9,32% tinham atraso no crescimento.

Desigualdades socioeconômicas e climáticas

Destacada pelo ineditismo e escala, especialmente por ser a primeira investigação nacional dentro da América Latina a relacionar de maneira robusta as temperaturas elevadas e estado nutricional na infância, a pesquisa demonstra que a temperatura interage de maneira intensa quando o assunto é desigualdades socioeconômicas.

“O estudo oferece uma nova perspectiva sobre como as mudanças climáticas afetam crianças em países de renda média com alta desigualdade. A importância reside em identificar que o calor não é um risco universal e neutro; ele atua como um multiplicador de vulnerabilidades”, Ribas enfatiza.

Isso porque os riscos também foram mais altos entre crianças que vivem em regiões diferentes do país e em diferentes níveis de privação socioeconômica. “Os impactos são desproporcionalmente maiores nas regiões Norte e Nordeste, em áreas rurais e entre crianças filhas de mães indígenas e pretas, evidenciando uma profunda vulnerabilidade socioambiental”, revela.

Esses fatores causam preocupações para a pesquisadora, principalmente no que tange às mudanças climáticas para os próximos anos. Períodos prolongados de calor podem reduzir a produtividade agrícola, encarecer alimentos e diminuir a diversidade alimentar. E quando a renda não acompanha o aumento do preço dos alimentos, o risco de desnutrição é maior.

“Isso gera um duplo impacto nas famílias mais pobres: a redução da disponibilidade de alimentos e a perda de renda, em particular, para pequenos produtores, forçando uma transição para dietas de menor qualidade nutricional”, explica Priscila.

Avanços na saúde infantil

Para a saúde pública, os resultados reforçam uma necessidade de mudança de cenário, ainda mais porque as temperaturas elevadas também aumentam a suscetibilidade do desenvolvimento de doenças infecciosas e parasitárias e fragilizam o sistema imunológico, o que compromete a absorção de nutrientes. Os autores apontam para a importância de fortalecer o monitoramento nutricional, especialmente durante e após períodos de temperaturas elevadas.

De acordo com Priscila, ideal seriam políticas multissetoriais e direcionadas. “Reforçar programas como o Bolsa Família em regiões mais afetadas pelo calor, garantindo que a insegurança alimentar causada pelo clima seja mitigada”, sugere a pesquisadora.

Ela também destaca a importância de políticas de adaptação climática com foco em equidade, priorizando intervenções nas regiões Norte e Nordeste, em áreas rurais e comunidades indígenas. A integração entre vigilância em saúde ambiental e nutricional também é apontada como estratégia para criar alertas e proteger crianças durante ondas de calor.

“Sistemas de alertas meteorológicos vinculados à Atenção Primária à Saúde seriam úteis para intensificar o monitoramento nutricional e as orientações de hidratação e alimentação antes e durante ondas de calor, transformando o Sistema Único de Saúde [SUS] em uma ferramenta ativa de adaptação climática”, recomenda Ribas. “Ao tratar o calor como um risco estrutural, o Brasil pode liderar o caminho para políticas públicas que protejam o desenvolvimento infantil em um planeta em aquecimento, garantindo que o clima não altere negativamente o futuro nutricional das nossas crianças”, conclui.