Brasília entrou, nesta terça-feira (8), no centro da agenda internacional do desenvolvimento sustentável ao sediar o Encontro internacional que discute Relatórios Nacionais Voluntários (RNV), inovação em dados, financiamento, comunicação e governança para a Agenda 2030; Brasil apresenta sua experiência com a nacionalização das metas, o ODS 18 e iniciativas territoriais.

A Fiocruz recebe, até 10 de abril, o Second Global Workshop for 2026 VNR Countries, encontro que reúne representantes de 25 países para três dias de intercâmbio sobre a Agenda 2030 e a elaboração dos Relatórios Nacionais Voluntários (RNVs) que serão apresentados em julho no Fórum Político de Alto Nível da ONU (HLPF 2026), em Nova York. No Brasil, o evento é correalizado pela CNODS, pelo Ministério das Relações Exteriores e pela Fiocruz, em articulação com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas.
Mais do que uma reunião preparatória, o workshop funciona como uma espécie de laboratório político e técnico para a reta final dos relatórios. A agenda oficial indica que o objetivo é fortalecer a capacidade dos países de produzir revisões inclusivas, participativas e baseadas em evidências, além de enfrentar gargalos ainda abertos antes da apresentação formal no HLPF, como definição de mensagens centrais, estruturação dos relatórios e preparação da narrativa pública de cada país.
Os RNVs são hoje um dos principais instrumentos multilaterais de acompanhamento da Agenda 2030. Segundo a plataforma oficial do HLPF, eles servem para compartilhar avanços, desafios e lições aprendidas, além de fortalecer políticas, instituições e parcerias em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A própria ONU registra que já houve mais de 400 RNVs, apresentados por 191 países, e que 36 países levarão seus relatórios ao HLPF de 2026, entre eles o Brasil.
A programação em Brasília espelha esse esforço de qualificação. Ao longo dos três dias, o debate passa por temas como nova geração de RNVs, engajamento de partes interessadas, coordenação de governo inteiro, inovação e jornada dos dados, financiamento da implementação, comunicação dos resultados e preparação para a apresentação final no fórum da ONU. A agenda oficial também prevê um exercício de peer learning (aprendizagem por pares) coordenado pelo Brasil para o ciclo de 2026, reforçando a aposta na cooperação entre países como método de aceleração dos ODS.
O Brasil chega ao encontro com a intenção clara de transformar sua experiência recente em vitrine diplomática e técnica. No terceiro dia (10), uma sessão específica será dedicada às lições brasileiras na implementação dos ODS, com destaque para a nacionalização de metas e indicadores, para o ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial, adotado voluntariamente pelo país, e para experiências como os ODS Munduruku e os ODS da Arte Rupestre. A escolha desses temas projeta uma leitura brasileira da Agenda 2030 que combina monitoramento, diversidade territorial e reconhecimento de marcadores étnico-raciais no desenho das políticas públicas.
É nesse ponto que a presença da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030) ganha peso político e editorial. Rômulo Paes de Souza, pesquisador e assessor da EFA 2030, esteve entre os participantes da abertura e participou da primeira sessão temática, dedicada justamente à construção de uma “nova geração” de RNVs. A presença de um pesquisador ligado à Fiocruz e à EFA 2030 reposiciona o debate brasileiro a partir de um eixo que a instituição vem sustentando há anos: o de que desenvolvimento sustentável, saúde, produção de evidências e capacidade estatal precisam caminhar juntos.

A Fiocruz esteve muito envolvida na produção do relatório realizado há dois anos atrás e agora está novamente engajada na produção deste novo relatório. A nossa expectativa é que este novo relatório indique os avanços que o Brasil obteve nesses três anos de implementação de políticas públicas do governo atual e da qual a Fiocruz faz parte com muito orgulho e tem contribuído, inclusive, não só na área da saúde, mas em várias outras áreas. Afirmou o pesquisador da Fiocruz.
Vale lembrar que a Fiocruz novamente sedia, agora aqui em Brasília, esse oficina. Nós tivemos uma presença muito grande de países. Dos países que vão apresentar na cúpula, que se reunirá em julho deste ano em Nova Iorque, apenas três não vieram. Completou o Assessor da EFA ao afirmar o sucesso do encontro.
Na prática, o workshop reforça uma mudança de tom no campo dos relatórios voluntários. Em vez de documentos apenas descritivos, a orientação internacional vem se deslocando para relatórios mais analíticos, capazes de mostrar causas estruturais dos atrasos, qualidade dos dados, resposta institucional e caminhos de implementação. É esse movimento que transforma o encontro em Brasília em algo maior que uma agenda protocolar: trata-se de uma disputa por método, evidência e capacidade de coordenação num momento em que a Agenda 2030 enfrenta pressão global, atraso em metas e necessidade crescente de pactos multilaterais mais efetivos.
Ao sediar o encontro na Fiocruz Brasília, o Brasil também sinaliza que quer associar sua atuação internacional à produção pública de conhecimento, ao uso de dados para qualificar decisões e à articulação entre governo, organismos multilaterais e instituições de pesquisa. Nessa chave, a Fiocruz não aparece apenas como anfitriã logística, mas como ator de formulação, com a EFA 2030 ocupando espaço num debate que conecta ODS, governança, cooperação internacional e políticas públicas baseadas em evidências.
Veja o depoimento de Rômulo Paes na integra:

