Por Iris Pacheco (Fiocruz Brasília)
A Fiocruz promoveu o módulo I da formação-ação em Promoção da Saúde e Participação Social do projeto Territórios Saudáveis e Sustentáveis na Promoção do Cuidado. Esta primeira fase foi permeada por discussões que permitiram conhecer melhor a realidade dos(as) educandos(as) participantes da formação com o tema. A chegada do Territórios de Cuidado ao norte da Bahia é um momento para fazer articulação com movimentos dos estados do Piauí, Pernambuco e Bahia. O projeto é voltado para lideranças de organizações e movimentos sociais que atuam na promoção da saúde, participantes de conselhos de direitos, gestores e trabalhadores de instituições públicas.
A diversidade de representações e territórios agrega bastante à experiência de formação. Para o pesquisador e coordenador do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat/Fiocruz Brasília), André Fenner, “temos representantes de vários quilombos, sindicatos, comunidades tradicionais e movimentos sociais. E essas parcerias que a gente vem fazendo são muito importantes, porque a questão da promoção da saúde se faz de forma intersetorial para ter acesso e melhores respostas em termos de melhoria de qualidade de vida para a população”, afirmou.
Além da articulação entre si, o processo de compartilhamento nos territórios locais é extremamente valorizado. A representante do movimento quilombola em São João do Piauí, Chitara, reforçou que essa é uma formação que vai formar e ampliar multiplicadores, para as comunidades que vivem seus potenciais e histórias de cuidados nesses territórios.
“É um momento em que a gente está ampliando nossos conhecimentos e vivenciando processos de cuidado que temos e que devemos ter dentro das nossas comunidades. Está sendo um debate em que todas as pessoas que vêm de outros estados também estão falando, para que continue mantendo as tradições e o cuidado da saúde em seus territórios. E fazer com que esses multiplicadores possam buscar estratégias e políticas públicas para que cuidem mais de nossos povos. A gente cuida do nosso jeito, mas precisa estar junto com o modelo científico, que é a medicina, os hospitais, os postinhos… para que, junto aos saberes tradicionais, essas duas ideias, que são separadas, cuidem cada vez mais das pessoas”, ponderou.
Povos tradicionais
O Piauí abriga o terceiro território com maior população quilombola do Brasil, conforme o Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Lagoas, uma comunidade ameaçada pela mineração, também é o maior território quilombola do estado, com uma abrangência de mais de 62 mil hectares, que se distribui por seis municípios do sul do Piauí, contemplando cerca de 119 comunidades quilombolas. Em novembro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que declara de interesse social a área ocupada pela Comunidade Quilombola Lagoas. A medida fez parte do pacote de 28 decretos em âmbito nacional, com o intuito de fortalecer a política de reparação histórica e a garantia de direitos às comunidades tradicionais. Vale ressaltar também que é a terra de Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, uma das lideranças quilombolas do estado, cuja trajetória pessoal e coletiva se associou também à história do movimento negro em São João do Piauí e ajudou a compreender a construção desse movimento no estado junto a outros movimentos sociais e às comunidades eclesiais de base.
Na mesma perspectiva, Maria de Lourdes da Silva, conhecida como Lurdinha Quilombola, do Quilombo de Conceição das Crioulas, no município de Salgueiro, no Sertão Central de Pernambuco, apontou que esse é um espaço que valoriza a troca de conhecimento. “É importante, para mim, levar a aprendizagem que estou tendo aqui para minha comunidade… a pessoa fica muito cheia de informações… é chegar lá e conversar o que eu aprendi com a mulherada, a comunidade, para ver como faz a socialização do que a gente aprendeu”. Ela ressaltou alguns pontos da saúde que precisam ser trabalhados. “A questão da memória, da saúde mental, pois temos muito adoecimento e tem coisas que não precisam de medicamentos. Precisamos encontrar meios para valorizar nosso povo ancestral”, refletiu.
A comunidade quilombola Conceição das Crioulas fica localizada a aproximadamente 550 quilômetros da capital Recife e tem em sua história um forte protagonismo feminino de luta, resistência e cuidado com a vida comunitária. Segundo relato das pessoas mais velhas, a comunidade de Conceição das Crioulas teve início em meados do século XVIII, quando seis mulheres negras chegaram e fixaram suas moradias na localidade. O grupo era formado por Mendonça Ferreira, Francisca Ferreira, Francisca Presidente, Francisca Macário, Germana Ferreira e Romana.
Do sertão central de Pernambuco para o semiárido baiano, a educanda Luiza, de Curaçá, na Bahia, também ressaltou a riqueza do momento e a importância desse retorno aos territórios. “Foram dias enriquecedores, de troca de conhecimento e autocuidado que vou levar firme e forte para compartilhar com a minha comunidade”, destacou.
Curaçá é uma região onde a resistência e a organização popular são marcadas pela preservação da cultura popular, pela defesa de territórios tradicionais e pela convivência com o semiárido. Nesse processo, destaca-se o movimento de cultura popular, como a Marujada de Curaçá, uma expressão cultural que preserva a tradição secular de São Benedito.
O município tem uma população expressiva de comunidades tradicionais, como os quilombolas, que se organizam em torno da defesa de direitos e acesso a serviços básicos, a exemplo da saúde. E as comunidades de Fundo e Fecho de Pasto, que, na Bahia, constituem uma forma secular de utilização coletiva da terra para a produção de caprinos, ovinos e bovinos, mantendo a vegetação nativa em pé. A iniciativa da formação-ação em Promoção da Saúde e Participação Social contará ainda com a realização de mais dois módulos neste território e é uma parceria do Ministério da Saúde com a Fiocruz Brasília, por meio do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat).

