EFA 2030/Fiocruz sinaliza essenciais práticas para a G-Stic 3.0 ter êxito

Foto EFA 2030/Fiocruz

Foco maior da Conferência no fortalecimento da Agenda 2030 torna ainda mais essencial no evento a expertise da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030/Fiocruz)

Entre as atividades da 9ª Conferência Global de Tecnologia Sustentável e Inovação (G-Stic), em Bruxelas, ocorrida em 8 e 9 de junho, uma das que mais incorporou sugestões na G-Stic 3.0, lançada este ano, foi a sessão plenária de encerramento “Integrando insights – Caminhos para o G-STIC 3.0”. Paulo Gadelha, coordenador da EFA 2030/Fiocruz, pormenorizou cinco mensagens que levou do evento: de implementação e integração, saúde, adaptação e infraestrutura, de proteção social, da agenda dos oceanos e cooperação internacional. E aproveitou para transmitir cinco passos para a G-Stic 3.0.  

Para Gadelha, a G-Stic 3.0 tem a oportunidade de ocupar espaço singular: ser uma plataforma científica neutra, confiável e orientada à entrega, capaz de aproximar inovação, política e financiamento sem perder de vista o valor público da ciência. Mas, conforme Gadelha, sua legitimidade será medida por resultados concretos de atravessar o ‘vale da morte’ – período no desenvolvimento de um produto ou serviço em que é necessário um aumento significativo no investimento –, de soluções para os territórios vulneráveis, de instituições locais fortalecidas, da quantidade de sistemas públicos que incorporam inovação, de mortes evitadas, e da capacidade de comunidades decidirem sobre seu futuro. “Se a G-Stic 3.0 conseguir fazer essa travessia, poderá ajudar o mundo a transformar conhecimento em capacidade, capacidade em proteção e proteção em desenvolvimento sustentável”, evidenciou.

A G-Stic 3.0 é uma nova fase da Conferência baseada na arquitetura de implementação e focada no pensamento sistêmico, em impacto no mundo real e soluções práticas. Isso, segundo a Conferência, exige alinhamento com as políticas, o financiamento e as necessidades do mundo real, considerando grandes desafios globais bastante interligados que despontam nas alterações climáticas e na escassez de recursos até à desigualdade social e à incerteza geopolítica. A Conferência entende com isso que, apesar das tecnologias avançarem rápido, necessita-se muito de soluções com impacto mensurável para resolver essas questões.  A transição coloca a G-Stic como plataforma global e com papel de broker científico neutro, para superação do ‘vale da morte’, estruturação de pipelines financiáveis, hubs regionais, capacitação e conexão entre inovação, política e financiamento. A Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) têm prioridade.

Gadelha detalhou cinco mensagens apreendidas no encontro:

1ª – Implementação exige integração. (…) Se os dados climáticos não conversam com os dados epidemiológicos, se a meteorologia não conversa com a atenção primária, se a inovação não conversa com compras públicas, se o financiamento não conversa com territórios, se a ciência não conversa com comunidades, nós continuaremos produzindo boas ideias e maus resultados.

2ª – A saúde se tornou um dos testes mais concretos da Agenda 2030, e revela, com precisão quase brutal, onde a sustentabilidade falha. Quando uma enchente interrompe um serviço de saúde, quando uma onda de calor mata trabalhadores, quando a fumaça das queimadas adoece crianças, quando a dengue avança sobre novos territórios, quando uma comunidade costeira perde alimento e renda, a crise deixa de ser abstrata (…).

Por isso, a saúde não deve ser tratada como co-benefício da ação climática. Saúde é critério de legitimidade da ação climática. Uma política climática que não protege vidas, que não reduz desigualdades e que não fortalece sistemas públicos não é suficiente para responder à promessa da Agenda 2030.

3ª – A adaptação precisa ser financiada como infraestrutura de proteção social. Durante muito tempo, a adaptação foi tratada como agenda secundária, menos nobre do que mitigação, menos atraente para investidores, menos visível politicamente. Isso não é mais aceitável. Para populações que já vivem sob calor extremo, enchentes, secas, insegurança alimentar, poluição e doenças sensíveis ao clima, adaptação não é futuro. É sobrevivência imediata.

(…) Adaptação não pode ser privatização do risco. Não podemos transferir para indivíduos e famílias a responsabilidade por sobreviver a uma crise que foi produzida historicamente por modelos econômicos, energéticos e produtivos profundamente desiguais. Adaptação exige Estado, ciência pública, sistemas universais de saúde, proteção social, planejamento territorial, infraestrutura resiliente e financiamento internacional justo.

4ª – O oceano não é periferia da sustentabilidade. Ele é infraestrutura planetária. Regula o clima, absorve calor, sustenta sistemas alimentares, abriga biodiversidade, estrutura culturas e economias, oferece possibilidades terapêuticas e biomédicas, e conecta sociedades. Mas o oceano também está sendo aquecido, acidificado, poluído, sobreexplorado e transformado em fronteira de novas disputas geopolíticas.

Por isso, Blue One Health é mais do que uma expressão inovadora. É um chamado para reconhecer que a saúde humana também é oceânica. Uma Só Saúde precisa ir ao mar. Mas, para ser politicamente legítima, essa agenda deve evitar dois riscos: o risco de ser apenas conceitual e o risco de ser capturada por uma economia azul que repete padrões extrativos. A economia azul do futuro precisa ser saudável, justa e regenerativa. Não basta produzir crescimento a partir do oceano. (…)

5ª – É sobre cooperação internacional. Estamos vivendo um momento de fragmentação geopolítica, competição tecnológica, desinformação e erosão de confiança. Nesse contexto, plataformas como a G-Stic são necessárias. Mas a cooperação que precisamos não pode repetir hierarquias antigas. Não precisamos de uma cooperação que coleta dados no Sul, registra patentes no Norte e devolve dependência tecnológica aos territórios. Precisamos de co-inovação, co-propriedade, formação de capacidades, governança compartilhada e repartição justa de benefícios.

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Paulo Gadelha, coordenador da EFA 2030, transmitiu cinco mensagens e cinco passos para a G-Stic 3.0

Gadelha e os cinco caminhos para a G-Stic 3.0, resumidos abaixo:

1º – Construir pipelines de implementação, não apenas vitrines de inovação. Cada solução apresentada deve ser acompanhada de perguntas objetivas: qual problema resolve, em que território, com que evidência, com que governança, com que financiamento, com que capacidade local e com quais indicadores de impacto?

2º – Criar critérios de prontidão pública para tecnologias sustentáveis. Não basta saber se uma tecnologia funciona em laboratório ou piloto. É preciso saber se ela pode ser incorporada por sistemas públicos, se pode ser mantida, financiada, regulada, apropriada localmente e avaliada por seus efeitos sociais.

3º – Fortalecer hubs regionais com protagonismo local. A implementação acontece em territórios. Hubs regionais não devem ser escritórios de tradução de soluções globais. Devem ser espaços de inteligência territorial, preparação de projetos, articulação institucional, formação de capacidades e negociação com financiadores.

4º – Aproximar financiamento climático da saúde, da água, dos oceanos e da infraestrutura social. O financiamento deve reconhecer que proteger sistemas de saúde, comunidades costeiras, qualidade do ar, segurança alimentar e vigilância climática é tão estratégico quanto financiar energia ou transporte.

5º – Assumir justiça, confiança e participação como condições técnicas de sucesso. Uma solução socialmente rejeitada, eticamente frágil ou institucionalmente imposta não escala de forma sustentável. Participação não é etapa decorativa. É mecanismo de qualidade, legitimidade e permanência.

Clima e saúde

A sessão “G-Stic e a relação entre clima e saúde: impulsionando soluções em um cenário geopolítico em transformação” reuniu especialistas para discutir como ciência, tecnologia e inovação podem acelerar respostas concretas aos impactos das mudanças climáticas sobre a saúde. A mesa foi moderada por Gadelha e contou com a participação de Danielly Magalhães, pesquisadora da EFA2030/Fiocruz e da Columbia University, em debate que conectou clima, saúde pública, formação profissional, vigilância, adaptação, justiça climática e cooperação internacional.

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Danielly Magalhães, pesquisadora da EFA 2030: “Necessidade de se investir em formação e inovação”

Em um cenário global de instabilidade, desigualdades e pressão sobre o multilateralismo, a discussão reforçou que a agenda clima-saúde não pode permanecer restrita ao diagnóstico. O ponto central é construir capacidade institucional para agir: transformar dados climáticos em decisões sanitárias, sistemas de alerta em protocolos de resposta, inovação em capacidade instalada, e adaptação em orçamento público. O Plano de Ação de Belém para a Saúde, lançado na COP30, teve destaque, porque transforma a pauta em instrumento de adaptação.

A participação da EFA 2030/Fiocruz sublinhou a importância de tratar a saúde não como consequência secundária da política climática, mas como eixo estratégico da adaptação. Proteger populações diante de ondas de calor, enchentes, secas, queimadas, insegurança alimentar, doenças sensíveis ao clima e colapso de serviços exige sistemas de saúde resilientes, profissionais preparados, vigilância integrada e políticas baseadas em evidências.

Oceanos e saúde

Já a sessão “Oceanos e Saúde para um Futuro Resiliente e Sustentável”, moderada por Gadelha, aprofundou uma agenda estratégica para a EFA 2030/Fiocruz: transformar Blue One Health em uma abordagem concreta para conectar saúde humana, saúde dos ecossistemas marinhos e costeiros, inovação científica, segurança alimentar, resiliência comunitária e justiça climática. E com o reconhecimento que populações costeiras, pescadores, povos tradicionais, comunidades quilombolas, indígenas e insulares não são apenas vulneráveis, pois produzem conhecimento, governança e soluções.

A discussão mostrou que o oceano não pode ser tratado apenas como espaço de conservação ou economia azul, já que regula o clima, sustenta sistemas alimentares, abriga biodiversidade, influencia o bem-estar físico e mental, recebe impactos da poluição, dos resíduos, de patógenos, da resistência antimicrobiana e das mudanças climáticas — e também guarda potencial para inovação biomédica, biotecnológica e farmacêutica.