O paradoxo da saúde climática: hora de sair do paliativo para o estrutural

Síntese global revela o paradoxo da literatura atual: enquanto acumulamos dados sobre capacitação comunitária, a ciência ainda precisa gerar mais evidências sobre financiamento e governança para garantir um cuidado resiliente.

Enchentes e ondas de calor não matam só pelo calor ou pela água: interrompem pré-natal, vacinação e outros cuidados essenciais para mães e crianças. No Brasil, na Zâmbia e em outros países, os estudos batem na mesma tecla: falta transporte até a unidade de saúde, faltam equipes preparadas, o alerta não chega a tempo, não há rede de proteção social para quem perde renda com o desastre, e o próprio posto de saúde entra em colapso diante do evento climático extremo. Em termos de Agenda 2030, a interrupção do cuidado pelo clima ameaça diretamente a meta de cobertura universal de saúde (ODS 3.8) e a resiliência adaptativa (ODS 13.1).

O fato é que enchentes e ondas de calor não causam apenas doenças e mortes, mas também impedem gestantes e crianças de chegarem aos serviços de saúde e reduzem a capacidade do sistema público de saúde de atendê-las. Não se trata de um problema trivial, algo a ser desconsiderado diante do caráter explícito e brutal de mortes diretamente provocadas por tragédias que, no passado, eram chamadas de “desastres naturais“.

Mas, afinal, o que acontece quando uma gestante em busca de assistência não consegue atravessar uma área inundada ou quando uma unidade de saúde perde energia durante uma onda de calor? Estas são perguntas que uma investigação inédita, que integra o projeto REACH busca responder. Intitulada Building resilience to floods and heat in the maternal and child health system in Brazil and Zambia [Fortalecimento da resiliência a inundações e ao calor no sistema de saúde materno-infantil no Brasil e na Zâmbia], a análise combina revisão sistemática global com estudos de caso realizados no Brasil (em Recife e Palmares) e na Zâmbia. É encabeçada pela London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), que, por sua vez, lidera um consórcio de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, Universidade de Brasília, Universidade Estadual de Maringá, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dentre outras instituições internacionais.

REACH: Fortalecimento da resiliência a inundações e ao calor no sistema de saúde materno-infantil no Brasil e na Zâmbia.

 London School of Hygiene & Tropical Medicine

REACH visa desenvolver ferramentas de decisão para apoiar medidas de preparação para desastres nos níveis distrital, de unidades de saúde e comunitário no Brasil e na Zâmbia, melhorando os resultados de saúde materna e infantil. O REACH é um projeto de pesquisa interdisciplinar de quatro anos financiado pelo Economic and Social Research Council (ESRC) e pelo Arts and Humanities Research Council (AHRC).

Coordenadores do projeto e equipe Fiocruz

Josephine Borghi, coordenadora geral (LSHTM); Everton Nunes da Silva, coordenador pelo Brasil (UnB); Chitalu Miriam Chama-Chiliba, coordenadora pela Zâmbia (UNZA); e pesquisadores da Fiocruz Brasilia (Jorge Otávio Maia Barreto) e de Pernambuco (Garibaldi Dantas Gurgel Júnior, Idê Gomes Dantas Gurgel, Aline do Monte Gurgel, Mariana Olivia Santana dos Santos)

Maid detalhes em: https://www.lshtm.ac.uk/research/centres-projects-groups/reach

A revisão de todas as revisões

Não se trata de um estudo qualquer. Estamos falando do que chamamos de overview de revisões sistemáticas, também conhecida como revisão de revisões ou umbrella review [revisão guarda-chuva]. É um tipo de estudo científico secundário que compila, avalia criticamente e sintetiza os resultados de múltiplas revisões sistemáticas sobre um mesmo tema em um único documento.

Enquanto uma revisão sistemática tradicional reúne e analisa estudos primários (como ensaios clínicos com pacientes), a overview dá um passo além: ela utiliza as próprias revisões sistemáticas como sua unidade de análise (dados secundários). O objetivo principal é fornecer uma visão panorâmica do problema e do estado da arte do conhecimento sobre ele, algo que irá auxiliar profissionais e gestores na tomada de decisões rápidas, baseadas no mais alto nível de evidência.

Dito isso, atentemos para as proporções do problema que a overview busca tratar. Entre 2000 e 2019, enchentes e ondas de calor corresponderam a 44% dos desastres registrados no mundo e afetaram mais de 2 bilhões de pessoas. Entre elas, mães e crianças se configuram como subpopulações com vulnerabilidade acentuada, quando se consideram riscos diretos ou interrupção de cuidados de rotina.

O estudo destaca que, embora existam mais evidências sobre como eventos climáticos extremos afetam os sistemas de saúde, o conhecimento sobre quais medidas adotar para proteger estes sistemas, de forma que eles continuem funcionando nestas circunstâncias, ainda é limitado.

É exatamente esta lacuna que a investigação buscou preencher, ao procurar identificar “como as inundações e o calor impactam a saúde materno-infantil (SMI) e avaliar intervenções de adaptação que podem proteger os serviços de SMI desses impactos durante inundações e ondas de calor em países de baixa e média renda”.

O predomínio de paliativos

Levantamento promovido pelo estudo sobre a literatura científica produzida sobre saúde e emergência climática revelou que esta ainda aposta pesado em ações de base e capacitação humana. Assim, quase metade dos estudos analisados (49,4%) trata de três frentes apenas: educação comunitária, treinamento de profissionais e novos modelos de prestação de serviço: o tipo de estratégia que ajuda tanto a saúde materno-infantil quanto a resposta a enchentes e ondas de calor.

Mas isso não é tudo. De acordo com o estudo, o que falta mesmo na literatura científica produzida sobre o tema (a verdadeira lacuna de conhecimento) são dados sobre medidas mais estruturais. Abastecimento de água aparece em apenas 3,3% dos estudos. Financiamento para adaptação, 2,6%. Soluções baseadas na natureza, 1,3%. Ou seja: sabe-se pouco sobre o que essas ações são capazes de alterar na prática, mesmo sendo as que exigiriam mais investimento da parte de governos. Aqui navegamos quase no escuro.

A maior parte das intervenções de adaptação apuradas pela overview concentra-se na Atenção Primária e no nível comunitário (54% do total) e atende à população em geral: 76% dos casos. Gestantes e crianças, público mais vulnerável nesse contexto, aparecem em só 24% das ações. Do lado climático, a prioridade é combater inundação e calor extremo conjuntamente (36%), bem na frente de quem foca só em enchentes (22%) ou só em ondas de calor (6%).

Saber é poder: o que falta conhecer?

Existe um campo de atuação fascinante na interface entre as Ciências da Saúde, a Ciência da Implementação e as Ciências Sociais e Aplicadas. Trata-se da Tradução do Conhecimento, que define o processo dinâmico e interativo de síntese, disseminação e aplicação ética de pesquisas científicas no mundo real.

O seu objetivo é aproximar as evidências de profissionais, gestores ou sociedade no momento certo, acelerando os benefícios para a população. Visa diminuir o abismo entre o saber e o fazer: a distância existente entre tudo que conhecemos (no caso, as evidências científicas) e sua aplicação prática nas políticas públicas, por exemplo.

Dito em outras palavras, é o mecanismo institucional que garante que o conhecimento gerado pela pesquisa não ficará confinado a artigos acadêmicos empoeirados na estante, mas se converterá em políticas de saúde equitativas e sustentáveis.

O estudo do projeto REACH que ora relatamos, enquadra-se nesta perspectiva. Por meio dele, ficamos sabendo que a literatura científica sobre iniciativas de adaptação diante de inundações e ondas de calor reflete a facilidade de documentar ações locais e educacionais, mas ainda falha em sistematizar as grandes intervenções estruturais e seus potenciais resultados.

No entanto, o campo da gestão em saúde dispõe de uma verdadeira bússola para gestores e formuladores de políticas públicas: a matriz evidência x transformação (ver ilustração abaixo).

Aplicada ao estudo do projeto REACH, o que ela nos revela?

Educar e mobilizar a comunidade (23,7%), capacitar equipes de saúde (14,5%) e ajustar o modelo de atendimento (11,2%) concentram a maior parte do que já foi estudado sobre o tema. O problema é que, na matriz que cruza evidência e impacto, elas caem exatamente onde não se quer estar para mudar as coisas: muita evidência, pouco poder de transformação. Reduzem o dano na hora, preparam quem está na ponta. Mas não tocam na raiz. Ensinar uma família a se proteger da chuva não impede que o mesmo posto de saúde alague de novo, ano após ano.

Pior ainda são as intervenções isoladas, sem nenhuma integração com risco climático: baixa evidência, baixo potencial, medidas pontuais que ninguém se preocupa em avaliar.

A virada real está no quadrante oposto: alto potencial de transformação, mas quase nenhuma evidência sistematizada. Ali estão as grandes alavancas: governança intersetorial, financiamento climático, mudança em quem decide para onde vai o dinheiro e o poder. É onde o sistema de saúde poderia ser refeito de verdade. E é justo aí que a ciência sabe menos.

Sobra o mesmo desafio de sempre: transformar o que ainda é intuição em evidência sólida, para as soluções que de fato têm chance de mudar o sistema; não só de amenizar seus efeitos.

E é isso que incomoda nessa matriz: o que sabemos fazer é justamente o que menos muda a estrutura (capacitação e educação comunitária). O desafio não é largar a educação comunitária, mas usá-la como ponte para financiar reformas mais profundas. Sem mexer em governança e orçamento, o resto é treinar gente para nadar contra uma maré que já trocou de regime climático.

A verdadeira Tradução do Conhecimento exige coragem política e investimento em pesquisa para mover as evidências da mera “mitigação de danos” para a robusta “transformação estrutural permanente”


Imagem e ilustrações geradas por Inteligência Artificial

* Cláudio Cordovil é pesquisador em Saúde Pública (Fiocruz) e jornalista profissional. Prêmio José Reis de Jornalismo Científico (CNPq)