As onipresentes e perigosas bitucas

Foto Karbuz Orbz / Unplash

Mal que se espalha por todo o mundo

Onipresentes e muito pouco percebidas, as bitucas de cigarro, conhecidas também como guimbas, estão em todo o meio ambiente, não são biodegradáveis e têm efeito maior nocivo do que plásticos nos solos e na água. A OMS estima em 1,6 bilhão de fumantes no mundo e cerca de 12,3 bilhões de bitucas jogadas na natureza diariamente. Cada guimba contém um filtro feito de material plástico, e se fragmenta em partículas, cada vez menores, contribuindo para a poluição por microplásticos. Pode liberar microfibras, além de nicotina, produtos orgânicos, metais pesados e outras substâncias tóxicas e cancerígenas, e causar entupimento de tubulações e incêndios. Dependendo das condições, fica presente em um ambiente de dois a 15 anos. Conforme dados da OMS, anualmente, são produzidos e comercializados mais de 5 trilhões de cigarros no mundo, e 8 milhões de pessoas morrem devido ao uso do tabaco e exposição à fumaça de segunda mão.

Apesar da existência de legislações gerais de gestão de resíduos sólidos, a tipificação legal e a regulamentação específicas para filtros e outros resíduos de tabaco continuam fragmentadas em muitos países, o que dificulta ações coordenadas de coleta e reaproveitamento. A Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, normatiza no Brasil o conceito da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Estima-se que apenas nesse país sejam descartadas cerca de 9 mil toneladas anuais do resíduo, de acordo com dados do “The Tobacco Atlas”, publicado em uma parceria entre a Vital Strategies e a Economics for Health, da Johns Hopkins University.

O problema envolve seis Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade:

Preocupação internacional

Marcelo Moreno, coordenador do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Cetab/Ensp/Fiocruz) e diretor do Centro de Conhecimento sobre os Artigos 17 e 18 da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, sediado na Fiocruz, recordou que essa questão ganhou bastante espaço nas negociações internacionais para a criação de tratado juridicamente vinculante contra a poluição por plásticos. “Durante as reuniões do Comitê Intergovernamental de Negociação, conhecido como INC, os filtros de cigarro foram discutidos como produtos plásticos problemáticos, evitáveis e responsáveis pela liberação de microplásticos”, e a OMS e a Convenção-Quadro têm defendido que os filtros sejam proibidos ou progressivamente retirados do mercado”, recordou. Não há qualquer definição internacional definitiva sobre isso.

Marcelo Moreno, coordenador do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde (Cetab)

A Conferência das Partes (COP), segundo Moreno, vem avançando nessa discussão: na COP10, realizada em 2024, foi aprovada decisão que orienta os países a fortalecerem medidas para enfrentar os impactos ambientais de toda a cadeia do tabaco, desde o cultivo e a fabricação até o consumo e o descarte dos resíduos. Isso inclui a poluição causada pelas guimbas. Já nas discussões mais recentes da COP11, os filtros foram tratados, ao mesmo tempo, como um problema ambiental e de saúde pública. Para ele, é preciso saber quanto à própria utilidade desses filtros, até porque alguns pesquisadores apontam serem uma “verdadeira falácia”. “Segundo a OMS e diversos especialistas, o filtro não torna o cigarro seguro nem reduz de forma comprovada os riscos à saúde. Pelo contrário, pode transmitir ao consumidor uma falsa sensação de proteção. A pessoa olha para o filtro e pode imaginar que está impedindo a passagem das substâncias tóxicas, quando, na prática, continua inalando nicotina, substâncias cancerígenas e outros compostos nocivos.

Paulo Suarez, professor de química de universidade de Brasília onde dá aula de tecnologia de reciclagem no curso de engenharia química e participa de projeto de reciclagem total de bitucas em polpa de celulose e em derivados, existe uma confusão comum, pois as pessoas dizem que a bituca é tóxica, mas, segundo os próprios estudos de que participou na universidade, não se viu toxicidade nelas, diferente da fumaça, que tem milhares de compostos tóxicos e metais pesados. Conforme ele, foi encontrado material altamente poluente, orgânico com demanda química e bioquímica de oxigênio muito alta, que precisa de muito oxigênio para ser degradado, levando de dois a cinco anos para se decompor, e em condições extremas, até 15 anos. “O material lixiviado polui águas subterrâneas e rios, aumentando a carga orgânica. Além disso, animais marinhos ingerem as bitucas. O grande problema é que são bilhões de bitucas jogadas no ambiente, anualmente, como uma ‘poluição formiguinha’ espalhada por toda parte”, realçou.

Paulo Suarez, professor de química em universidade de Brasília

Ao comparar a bituca com o plástico de forma geral, o professor explicou que esse não solta compostos poluentes de imediato. Já a bituca, prosseguiu, num copo d’água dissolve e a água fica marrom com os compostos que causam problemas ambientais, e o filtro não retém o material tóxico. “Publicamos estudo de doutorado que mostrou que nada do que tem na fumaça fica retido no filtro; ele não funciona como retentor de toxinas. No entanto, o filtro retém derivados da lignina e produtos fenólicos que têm um gosto amargo e adstringente. Se tirar o filtro, o hábito de fumar torna-se mais desagradável ao paladar”, acentuou.

“Quando a bituca é jogada no chão e entra em contato com a chuva, parte desse material tóxico é liberada. A água da chuva pode levar esses resíduos para o solo, para os bueiros e, depois, rios, lagoas e outros corpos d’água”, complementou.

Vilã dos oceanos

Relatório da “NBC News” sobre meio ambiente, de 26 de agosto de 2018, revelou que a bituca de cigarro polui mais o oceano do que as sacolas e canudos de plástico. A estrutura dela é formada por múltiplos elementos, com o filtro feito de fibras de acetato de celulose, o papel e o resíduo do tabaco parcialmente queimado, cinzas e outros elementos, como saliva e batom.

Estudos científicos da OMS e de pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à Universidade Estadual Paulista (Unesp), ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), à Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, à Universidad San Ignacio de Loyola, no Peru, e outros 55 centros acadêmicos revelam que esses resíduos atingem, no universo mundial pesquisado, densidades médias de 0,24 bitucas por metro quadrado em ambientes urbanos e aquáticos. Bitucas de cigarro representam, de acordo com os estudos, 12% do lixo marinho global.  

No solo, as bitucas podem afetar organismos importantes, como minhocas, fungos e bactérias, além de prejudicar a germinação e o crescimento das plantas. Na água, essa contaminação pode prejudicar peixes, micro-organismos e outros seres aquáticos, mesmo em pequenas concentrações.

A investigação, encabeçada pela OMS, foi divulgada, em março de 2024, com publicação na revista científica “Environmentnal Chemistry Letters”. Nela, há reunião de dados referentes a 55 países de 130 estudos de monitoramento, entre 2013 e 2024. As coletas feitas apenas em praias mais populares no Brasil encontraram densidades de guimbas que chegaram a pico de 8,85 bitucas por metro quadrado em pontos do litoral. As três praias brasileiras com maior índice de bitucas, conforme o levantamento, são Boa Viagem, em Recife – 8,85/m², Perequê, no Guarujá (SP) e Porto de Galinhas, em Ipojuca (PE).

Algumas ações contra as bitucas

A partir de 2004, uma universidade de Brasília passou a desenvolver tecnologia de reciclagem das bitucas para transformá-las em polpa de celulose e em derivados, como o xantato de celulose (Rayon), por meio da parceria, existente desde 2005, com empresa paulista.

Tudo começou com a reciclagem para produção de papel artesanal para arte visual, e, atualmente, utiliza-se de diversas formas. Isso, em consoante com o trabalho, possibilita a reinserção de materiais no ciclo produtivo, reduzindo o consumo de recursos naturais e evitando a deposição inadequada de resíduos, além de resultar na economia circular, por causa da coleta de matéria-prima espalhada.

A ideia veio do aluno Marco Antônio Barbosa, em agosto de 2002, no trabalho final da disciplina ‘Materiais em Arte’, com a supervisão de Thérèse Hofmann, professora do Departamento de Artes Visuais da universidade, desde 1991, e especializada em desenvolvimento sustentável, com foco na produção de papel com resíduos agrícolas. Segundo ela, Barbosa fez a sugestão “por haver muito lixo”. O trabalho com a pesquisa durou quase três anos até ser registrada a patente, com a transformação do conceito de ‘lixo’ em uma ‘cadeia de celulose’, desenvolvido na universidade até hoje. “Se até bituca pode ser reciclada, o que não pode? Para nós, faz sentido reciclar porque as bitucas acabam indo para o mar em nossa vasta área costeira”, disse a professora, após salientar que “no Brasil ainda há muitos descartes incorretos, diferente do Japão onde o material é queimado para gerar energia”, disse.

Thérèse Hofmann, professora de artes visuais em universidade de Brasília

O destino comum dos resíduos de bitucas costuma ser aterros ou queimas, por isso mesmo, Suarez, que tem alguns artigos publicados sobre o assunto, justifica a importância de se fazer a reciclagem delas, lembrando que a bituca já foi celulose um dia: no filtro de acetato e no papel. “Nós apenas a trazemos de volta para o mercado de celulose. Se temos tecnologia para reciclar algo poluente, por que não usar? Precisamos dar um jeito no resíduo”, defendeu.

Catas a bitucas na Fiocruz

Em 2018, no Campus Manguinhos-Maré, da Fiocruz, foi realizada coleta de bitucas, numa parceria do Cetab, equipe de jardinagem da então Diretoria de Administração do Campus (Dirac/Fiocruz), atual Coordenação-Geral de Infraestrutura dos Campi (Cogic/Fiocruz), e VideoSaúde/Fiocruz. Além de recolher as guimbas, a proposta era também de chamar a atenção para um problema de saúde pública e quanto aos impactos ambientais provocados por esse tipo de descarte, além de estimular reflexão dentro da própria instituição. Entendia-se que também era importante avançar na construção de iniciativas capazes de transformar os campi da fundação em espaços livres de tabaco. Essa iniciativa foi uma primeira aproximação do Cetab com o tema do descarte das guimbas de cigarro no ambiente. “Naquele momento, o objetivo principal era ampliar o conhecimento da comunidade da Fiocruz sobre a quantidade de pontas de cigarro descartadas de forma inadequada no Campus de Manguinhos, e sobre como esse resíduo poderia comprometer o ambiente da instituição”, memorou Moreno.

Na Fiocruz, que é uma minicidade, conforme Jorge Cariuz, gestor, educador ambiental e especialista em gerenciamento de resíduos de serviços de saúde na Cogic/Fiocruz, o volume de bitucas é grande. Por isso, há um trabalho de sensibilização na Fiocruz quanto ao problema das bitucas, que contêm produtos perigosos de contaminação do solo e água, além de entupirem redes de drenagem, baseado na Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P), proposta em 1999 com o objetivo de rever os padrões de consumo e adotar novas referências na busca da sustentabilidade socioambiental. “Hoje, as bitucas que coletamos ainda vão para o resíduo comum”, observou.

No Brasil e exterior, há outras iniciativas de empresas, universidades e organizações não governamentais baseadas em programas de coleta de bitucas e transformação de seus resíduos, entre as quais a de empresa paranaense para hidrossemeadura e recomposição de áreas degradadas. Existe também projeto universitário, no Estado do Rio, para a produção de tijolos de cerâmica. Recentemente, teve destaque a estratégia de startup sueca de treinar corvos para recolhimento de bitucas.