Por: Marcelo Moreira – ICTB
Entrevista Paulo Gadelha
Conceito defendido pelo ex-presidente da Fiocruz e atual coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, Paulo Gadelha, amplia a abordagem de “Uma Só Saúde” ao incorporar o papel dos oceanos na saúde humana, na biodiversidade, na segurança alimentar e no enfrentamento das desigualdades socioambientais
Os oceanos regulam o clima, garantem parte significativa da biodiversidade do planeta, influenciam a segurança alimentar de bilhões de pessoas e desempenham papel decisivo na qualidade de vida das populações. Apesar disso, durante muito tempo a relação entre saúde e oceanos foi analisada de forma fragmentada, concentrando-se principalmente nos impactos da poluição marinha, dos eventos extremos e da degradação ambiental sobre a saúde humana.
É justamente para superar essa visão limitada que ganha força o conceito de Uma Só Saúde Azul (One Blue Health), abordagem que amplia os princípios da “Uma Só Saúde”ao incorporar de forma integrada a saúde dos oceanos, dos ecossistemas, dos animais e das populações humanas. A proposta vem sendo desenvolvida por pesquisadores e instituições internacionais e tem encontrado espaço crescente no debate científico, ambiental e sanitário.
Para o pesquisador da Fiocruz e ex-presidente da instituição, Paulo Gadelha, a ideia surgiu da necessidade de compreender de maneira mais ampla as múltiplas conexões entre saúde e oceano. Segundo ele, durante décadas predominou uma percepção de mão única, na qual os problemas ambientais marinhos eram observados apenas pelos danos que causavam às pessoas.
“Tradicionalmente se via mais os efeitos da questão do oceano sobre a saúde humana, seja pela poluição, pela redução da segurança alimentar ou pelas catástrofes relacionadas ao mar. Mas essa era uma via quase única”, afirma.
Uma abordagem integrada para desafios complexos
A “Uma Só Saúde” já havia consolidado a compreensão de que a saúde humana está profundamente ligada à saúde animal e ambiental. A proposta da Uma Só Saúde Azul aprofunda esse olhar ao reconhecer o papel central dos oceanos nos grandes desafios do século XXI.
Segundo Gadelha, a inspiração para essa ampliação também está presente na tradição da Saúde Coletiva brasileira, que há décadas trabalha com a ideia dos determinantes sociais e ambientais da saúde. Nesse entendimento, condições de trabalho, alimentação, moradia, renda, gênero e território influenciam diretamente a saúde das populações.
“A partir dessa referência, percebemos que um dos referenciais para compreender a conexão entre saúde e oceano era justamente o conceito de “Uma Só Saúde”, porque ele se dirige a essa interação e permite integrar produção de conhecimento, tecnologias e mobilização social”, explica.
A abordagem também promove a aproximação entre diferentes áreas do conhecimento, reunindo profissionais da saúde, pesquisadores ambientais, oceanógrafos, veterinários, gestores públicos e comunidades locais em torno de objetivos comuns.
O oceano está presente na saúde de todos
Embora frequentemente associada às populações costeiras, a saúde dos oceanos afeta pessoas em todas as regiões do planeta.
Os impactos mais visíveis incluem a contaminação ambiental, a redução da oferta de alimentos provenientes do mar e o aumento da vulnerabilidade a eventos extremos. No entanto, os efeitos vão muito além dessas consequências imediatas.
O oceano exerce papel fundamental na regulação climática global, absorvendo calor e contribuindo para o equilíbrio dos sistemas ambientais. Alterações nesse funcionamento repercutem diretamente na saúde pública, na produção de alimentos, na disponibilidade de água e nas condições de vida das populações.
“Além disso, os ambientes marinhos concentram enorme diversidade biológica, que representa oportunidades para pesquisa científica, desenvolvimento de medicamentos, inovação tecnológica e geração de conhecimento. O oceano tem um efeito multidimensional sobre a saúde do planeta e, consequentemente, sobre a saúde das pessoas”, destaca Gadelha.
Desigualdades sociais no centro da discussão
Um dos pilares da Uma Só Saúde Azul é a equidade. A proposta reconhece que os impactos da degradação ambiental não atingem todos da mesma forma e que as populações mais vulnerabilizadas costumam sofrer as consequências mais severas.
Essa perspectiva dialoga diretamente com os princípios da Agenda 2030 das Nações Unidas, especialmente o compromisso de “não deixar ninguém para trás”.
Segundo Gadelha, qualquer estratégia voltada à sustentabilidade precisa identificar quem são os grupos mais afetados pelos processos de exclusão social, degradação ambiental e insegurança alimentar.
“Quando pensamos em saúde, ambiente e desenvolvimento, precisamos perguntar para quem e com que finalidade estamos produzindo esses efeitos. Eles precisam reduzir desigualdades e melhorar as condições de vida das populações”, afirma.
O pesquisador cita o saneamento como exemplo de interdependência. Problemas sanitários em territórios vulnerabilizados não permanecem restritos a esses espaços. Seus impactos alcançam rios, praias, ecossistemas e toda a sociedade.
Economia, ambiente e saúde não podem ser tratados separadamente
Outro aspecto central da Uma Só Saúde Azul é a rejeição da fragmentação entre desenvolvimento econômico, proteção ambiental e bem-estar social.
Para Gadelha, um dos principais avanços da Agenda 2030 foi justamente integrar essas dimensões em uma mesma agenda global. Segundo ele, indicadores isolados de crescimento econômico não são suficientes para medir o desenvolvimento quando coexistem com aumento das desigualdades, destruição ambiental e perda de biodiversidade.
“Não podemos tratar as dimensões econômica, ambiental e social isoladamente. Elas precisam compor um conjunto de determinações voltadas à proteção das pessoas, do planeta e da prosperidade”, defende.
O papel do Brasil na Década dos Oceanos
O Brasil ocupa posição estratégica nesse debate. Com uma das maiores áreas costeiras do planeta e extensa biodiversidade marinha, o país reúne condições únicas para contribuir com pesquisas, inovação e formulação de políticas públicas voltadas aos oceanos.
Nos últimos anos, diferentes iniciativas passaram a conectar pesquisa científica, proteção ambiental e participação social. Entre elas estão projetos voltados à preservação da biodiversidade, monitoramento ambiental, fortalecimento de comunidades costeiras e desenvolvimento de tecnologias para adaptação às mudanças climáticas.
Gadelha destaca ainda a importância da articulação entre instituições científicas, governos, movimentos sociais e populações tradicionais para enfrentar desafios complexos como a degradação marinha, a perda de biodiversidade e os impactos climáticos.
“Há muita coisa acontecendo. O desafio agora é dar organicidade a essas experiências e transformá-las em políticas públicas capazes de produzir impactos mais amplos”, afirma.
Uma agenda para o futuro
À medida que se aproxima o prazo final da Agenda 2030, cresce o debate internacional sobre os caminhos do desenvolvimento sustentável nas próximas décadas. Nesse cenário, temas como mudanças climáticas, biodiversidade e proteção dos oceanos tendem a ganhar ainda mais relevância.
Para Paulo Gadelha, a crise climática já atravessa praticamente todos os grandes desafios contemporâneos, desde a segurança alimentar até os processos migratórios, as desigualdades sociais e a saúde pública.
Nesse contexto, a Uma Só Saúde Azul surge como uma abordagem capaz de integrar conhecimentos, fortalecer políticas públicas e ampliar a compreensão sobre as relações entre seres humanos, natureza e desenvolvimento. E que proteger o mar é, ao mesmo tempo, proteger o futuro da vida no planeta.

