Da nascente ao oceano: a rota invisível dos microplásticos e o desafio de uma nova economia circular

Microplásticos coloridos espalhados pela areia de uma praia, com o mar desfocado ao fundo.

A poluição por microplásticos, considerada atualmente um dos maiores desafios das estratégias globais de preservação ambiental, foi tema de uma roda de conversa na quinta-feira (17/9), no âmbito do painel Ideias Azuis, durante a Rio Ocean Week, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, entre os dias 17 e 20 de setembro. Moderado pela jornalista Sabrina Neumann, o evento colocou lado a lado representantes da academia (Alexander Turra), da gestão pública (Ricardo Voivodic) e da iniciativa privada (Aline Sugano).

Um diagnóstico comum uniu os participantes da mesa: o resíduo no oceano representa um prejuízo ecológico para a biodiversidade, uma falha de política pública para o governo e um desperdício econômico e de carbono para o setor produtivo. “Ninguém quer plástico no mar. A indústria olha plástico no mar e fala: ‘Isso aí é energia, carbono, é dinheiro'”, resumiu Turra. Não se trata apenas de um problema ambiental isolado, mas de uma falha sistêmica de eficiência e governança a desafiar o planeta de forma global.

Contra a poluição dos oceanos, a transição do recolhimento de resíduos na costa para ações estruturantes de contenção, rastreabilidade e governança.

A anatomia dos microplásticos e a rota do resíduo

Os microplásticos são partículas menores que 5 milímetros, o tamanho de uma lentilha, e que se dividem em primários e secundários. Já fabricados em tamanho reduzido, os primários são matéria-prima plástica comercializada na forma de resinas (pellets), pós ou flakes, além de componentes adicionados a produtos como cosméticos, cremes dentais, esfoliantes e glitters. Na abertura do encontro, o biólogo Alexander Turra, coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, observou que a perda dessas partículas pode ocorrer durante a produção, a transformação ou o transporte (inclusive marítimo) e que, no uso doméstico, também impacta a natureza, quando, ao lavarmos o rosto ou removermos a maquiagem, tais resíduos, quando de plástico, são descartados diretamente na rede de esgoto.

Já os microplásticos secundários são aqueles derivados da degradação de objetos plásticos maiores expostos à luz do sol e às intempéries. Esse processo de fragmentação gera uma variedade de fibras e resíduos de diversos formatos, cores e tamanhos. Segundo Turra, a comunidade científica ainda busca compreender a dinâmica desse universo de partículas para avaliar seus impactos.

A novidade do tema pode ser constatada quando se leva em conta a polêmica suscitada por artigo intitulado “Bioaccumulation of microplastics in decedent human brains”, publicado na Nature Medicine, no início de fevereiro de 2025. O estudo analisou amostras de tecidos de cadáveres humanos e encontrou no cérebro concentrações de micro e nanoplásticos superiores às do fígado e do rim. Em declarações à imprensa, o autor sênior, o toxicologista Matthew Campen, comparou a quantidade encontrada ao equivalente a uma colher de plástico. O assunto rapidamente viralizou, gerando pânico e, logo em seguida, debates intensos na comunidade científica, sobre a pertinência destes achados, da metodologia empregada no estudo e da extensão do impacto dos microplásticos . Em novembro de 2025, um grupo de cientistas publicou na própria revista uma carta contestando os controles de contaminação e a validação dos métodos, e os autores responderam na edição de dezembro. 

Efeitos toxicológicos, biodiversidade e saúde humana 

Turra explicou que a capacidade dessas partículas de absorverem poluentes varia conforme o seu grau de degradação: em seu estado original (apolar), elas atraem compostos sem carga e, à medida que se fragmentam e ganham carga elétrica, passam a se ligar a outros tipos de substâncias. Essa dinâmica faz dos microplásticos verdadeiras “esponjas químicas” e vetores de contaminação para os organismos que os ingerem, afetando desde a meiofauna e o plâncton até animais de maior porte. “Quanto menores as partículas, maior a variedade de organismos que podem ingeri-las”, observou.

O biólogo explicou que, após ingerido, o microplástico pode ser tanto eliminado pelo aparelho digestivo, ou, no caso daqueles de dimensões menores, ser transportado para a corrente sanguínea e para tecidos de órgãos internos. Sua presença no organismo, associada a aditivos químicos, desencadeia processos inflamatórios pontuais ou sistêmicos, prejudicando o comportamento, a reprodução, o crescimento e a sobrevivência das espécies.

Como vimos, sua presença já foi detectada em tecidos do cérebro humano, músculo, coração e placenta. No entanto, ainda persiste uma grande lacuna no conhecimento: a ausência de um limite seguro para a ingestão humana involuntária de microplásticos. “A ciência mundial não sabe dizer qual é a quantidade segura de microplásticos que um ser humano pode ingerir”, afirmou Turra.

Um dos principais atores nacionais visando reduzir tais lacunas, e mencionado por Turra no evento, é o Centro de Referência para a Quantificação e Caracterização do Lixo Marinho (CeLMar), laboratório multiusuário localizado no Instituto Oceanográfico da USP (IOUSP), que tem como principal objetivo padronizar as metodologias de monitoramento, coleta e análise de microplásticos na costa brasileira. Ainda hoje, diferentes centros de pesquisa utilizam métodos distintos para tal, o que dificulta a comparação direta de dados ecológicos e de poluição em escala nacional. “Sem harmonizar, cada um mede com uma régua, cada um mede de um jeito, e a gente mistura alhos com bugalhos”, disse Turra.

A visão da indústria: prevenção, pellets e a batalha da circularidade. 

Indagada por Sabrina Neumann sobre circularidade e logística reversa, a engenheira de materiais Aline Sugano, que atua com Economia Circular, Inovação e Sustentabilidade na Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), explicou que, conceitualmente, a economia circular atua de forma direta sobre o descarte e o desgaste de produtos plásticos pós-consumo e tem como objetivo central a reincorporação contínua do material à cadeia produtiva para evitar sua fragmentação no meio ambiente.

No caso da indústria química, a representante da Abiquim argumentou que essa circularidade, na origem, se manifesta por meio do design circular, que consiste no desenvolvimento de matérias-primas, resinas e aditivos que tornem os produtos mais adequados à reciclagem e aptos a absorverem conteúdo reciclado com alto desempenho. “Não basta eu desenvolver um produto que pode ser reciclado. Ele tem que voltar para a cadeia produtiva”, ressalvou.

Com base em sua experiência no setor, Aline apontou o que considera os quatro gargalos da economia circular no país (Quadro 1): estruturação regional (superação das “ilhas” de gestão); garantia de demanda de mercado para reciclados; rastreabilidade e dados confiáveis; inclusão e valorização social de catadores e cooperativas. “A economia circular não funciona se eu tiver realidades e tecnologias diferentes em ilhas de gestão”, afirmou. Sobre o mercado, completou: “Ele voltar para a reciclagem, voltar para a coleta, não garante que vai ser incorporado em um novo produto e usado”.

QUADRO 1

Os quatro gargalos da economia circular

Infraestrutura e logística reversaA disparidade estrutural e tecnológica entre as regiões do Brasil cria “ilhas” isoladas de gestão de resíduos, o que compromete a integração necessária para uma economia circular em escala nacional.
Demanda e sustentabilidade econômica do mercadoA garantia de coleta não assegura o aproveitamento do material. É indispensável estruturar um mercado consumidor viável para o plástico reciclado — avanço impulsionado pelo Decreto de Logística Reversa de Embalagens Plásticas, que passou a exigir metas de incorporação de conteúdo pós-consumo.
Rastreabilidade e dadosA carência de mecanismos precisos de monitoramento e de dados sobre o fluxo dos materiais dificulta o diagnóstico das falhas e a priorização de ações estratégicas.
Inclusão da dimensão socialA estruturação da logística reversa precisa integrar formalmente os catadores e as cooperativas de reciclagem, reconhecendo-os como atores centrais na etapa primária de recolhimento dos resíduos.

Ao abordar as iniciativas do setor industrial para mitigar a poluição por microplásticos, a representante da Abiquim esclareceu que, dada a complexidade do tema, a implementação de soluções tecnológicas para tal mitigação depende intrinsecamente do monitoramento contínuo e da produção de dados em parceria com a academia e o poder público. Não existe uma bala de prata que dê conta do problema, mas sim um conjunto de estratégias específicas para cada fonte e via de dispersão das partículas (Ver Quadro 2). “Ninguém vai fazer sozinho”, resumiu.

QUADRO 2

Estratégias de mitigação da poluição por microplásticos

Partículas adicionadas intencionalmenteDesenvolvimento de novos materiais e matérias-primas capazes de conferir as propriedades desejadas aos produtos sem o uso de microplásticos na sua formulação.
Perdas na cadeia produtiva (como pellets)Implementação de programas de diagnóstico, monitoramento rigoroso e contenção nas instalações e no transporte para zerar o risco de vazamentos acidentais de insumos.
Desgaste e abrasão (como pneus e têxteis)Pesquisa de matérias-primas de maior durabilidade que minimizem o desprendimento de resíduos pelo atrito e avanço em tecnologias de filtragem para reter microfibras, por exemplo, durante a lavagem de tecidos.
Fragmentação de plásticos pós-consumoFortalecimento da logística reversa e da reciclabilidade para garantir valor econômico aos resíduos e evitar que o descarte inadequado no meio ambiente resulte na quebra e degradação desses materiais.

O Programa Pellet Zero – OCS® foi também destacado por Aline, que chamou Alexander Turra, em tom bem-humorado, de “pai” da iniciativa no país. Trata-se de uma ação da indústria para evitar a perda e a dispersão de pellets (pequenas esferas de resina plástica) nos oceanos, rios e meio ambiente. O programa segue o padrão internacional Operation Clean Sweep e é adaptado para o Brasil por entidades como a Abiquim e a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast). “Se a gente conhece a fonte, o caminho, ele não pode vazar de maneira alguma”, afirmou.

Segundo Aline, a iniciativa abrange o controle rigoroso de toda a cadeia de custódia (desde a produção e armazenamento dos pellets até seu transporte e a logística), prevendo o diagnóstico de pontos vulneráveis, a capacitação de equipes, a aplicação de tecnologias de contenção e o monitoramento contínuo para zerar qualquer possibilidade de perda de resina. Turra destacou a contribuição brasileira ao programa. Fruto da colaboração entre o setor privado, entidades setoriais e mais de 16 instituições, o modelo brasileiro introduziu inovações pioneiras para adaptar o protocolo à realidade nacional, entre elas a realização de auditorias externas. “A auditoria não existia fora do Brasil, e daí a gente colocou auditoria aqui. Por quê? Porque você tem que checar. Não basta assinar um papel e falar ‘joinha'”, disse Turra. Segundo ele, a medida garantiu a efetividade do cumprimento das boas práticas de contenção e acabou servindo de inspiração para tornar os parâmetros do programa globalmente mais rigorosos e auditáveis.

A resposta do Estado: a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico (ENOP)

Documento central na gestão do problema é a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico (ENOP), instituída pelo Governo Federal por meio do Decreto nº 12.644/2025. Uma de suas diretrizes, apontada por Ricardo Voivodic como o pilar central da estratégia, dá conta do conceito “da fonte ao mar”. Ele estabelece que o combate à poluição marinha deve começar em terra firme, intervindo em todo o ciclo de vida do plástico antes que o resíduo chegue ao ecossistema marinho. Como o oceano não começa na praia, a estratégia conecta as ações humanas nas cidades com os impactos no ambiente marinho. “A maior parte dos problemas que estão no litoral não nascem ali, elas chegam ali”, resumiu Voivodic. “A ENOP foge um pouco da lógica do ‘vamos retirar o lixo do mar’ para uma lógica ‘vamos impedir que ele chegue lá’.”

Liderada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, sua coordenação une estados, municípios e setor privado, e o decreto reconhece o papel dos catadores de recicláveis. Com 25 anos de experiência no gerenciamento costeiro, o geógrafo Ricardo Voivodic, à frente da ENOP parece ser o homem certo no lugar certo. No entanto, segundo ele, aqui também sobram desafios: embora o país conte com uma produção científica de ponta sobre o tema, a ausência de métodos e protocolos padronizados impede, no momento, a consolidação de um mapa nacional unificado sobre a dispersão dessas partículas. Para dar conta desta situação, a ENOP incide sobre a comunidade científica, buscando uniformizar dados e subsidiar políticas públicas assertivas. “O oceano não pode ser um repositório, um destino final dos nossos padrões de consumo”, afirmou.

Transição justa, “plástico seguro” e cidadania ampliada

Com o plástico de tal modo na berlinda nesta roda de conversa tão informativa, ficamos inclinados a imaginar que se trata de um vilão que merece ser erradicado da face da Terra. Nada mais equivocado. “A gente não está falando de uma economia ou de uma sociedade sem plásticos”, disse Turra, citando Patricia Ricard, presidente do Instituto Oceanográfico Paul Ricard e uma das mais importantes ativistas ambientais da França, que usa o termo “plastifobia” para criticar a rejeição sumária do material. Na verdade, ela defende o que chama de “Quadrado Mágico” (reunir ciência, mundo econômico, sociedade civil e instituições) para criar soluções reais de transição ecológica, lançando mão da biomimética (buscar na própria natureza as respostas para criar novos materiais sustentáveis que substituam o plástico) .

Especulando sobre o futuro da cadeia produtiva, Turra defendeu a necessidade de conciliar urgência ambiental e viabilidade econômica. Para ele, a substituição pura e simples do plástico por outros insumos não necessariamente se traduzirá em menor impacto quando se avalia a pegada ambiental ao longo de todo o ciclo de vida do produto. Em sua perspectiva, o nosso maior desafio é estruturar uma transição gradual e responsável que leve em consideração aspectos socioeconômicos do setor, que, segundo ele, reúne cerca de 13 mil empresas e gera centenas de milhares de empregos. “É sim para plásticos, mas para plásticos seguros. Não é zero ou um de uma hora para outra, não é uma ruptura”, afirmou.

Avesso à plastifobia, Turra defende a busca por uma “nova economia do plástico” que se apoie no conceito de “plástico seguro” e em nossa soberania tecnológica. Segundo ele, o Brasil possui capacidade científica para liderar a criação de novas resinas, aditivos menos tóxicos e patentes sustentáveis (como o polietileno derivado da cana-de-açúcar), transformando a agenda de sustentabilidade em vetor de inovação e exportação.

Como a provar que um outro mundo é possível, o biólogo assinou o editorial de uma edição especial recente do portal Neo Mondo, com nada menos do que 33 reportagens e entrevistas, com diferentes perspectivas sobre inovação, taxas, tributação e incentivos para a transição produtiva que se fará necessária. Por outro lado, em uma provocação que ele mesmo chamou de “reflexão forçada”, questionou a sustentabilidade de se comercializar plásticos em municípios desprovidos de coleta seletiva e aterros controlados, conclamando a indústria a atuar como parceira no controle social e no fortalecimento da infraestrutura local de gestão de resíduos.

Complementando a dimensão social da transição, o representante do Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Voivodic, defendeu que superássemos a visão que transfere a responsabilidade do problema exclusivamente para o consumo consciente do indivíduo. Para ele, a cidadania ambiental vai muito além do descarte correto do lixo doméstico, exigindo a compreensão dos impactos invisíveis gerados por novos hábitos de consumo (pense no desgaste de vestuário sintético de alta performance) e a mobilização da sociedade civil organizada de forma a cobrar de governos transformações estruturais, transparência industrial e políticas públicas efetivas. “O mercado rapidamente capta esse espírito do momento e fala: ‘Compre meia de poliamida, é melhor para você correr’. E, pronto, lá vai microplástico para o planeta”, ironizou. “Nós não somos só indivíduos, nós somos consumidores, eleitores, pais, filhos, educadores.” E concluiu: “O microplástico é um problema invisível, mas a solução dele não pode ser invisível”.

O enfrentamento da poluição por microplásticos exige superar a mera remoção de resíduos na costa em favor de uma transformação profunda na origem da produção e do consumo. Ao integrar ciência rigorosa, políticas públicas da fonte ao mar e circularidade industrial, o país avança para deixar de tratar o oceano como depósito de lixo e reconhecê-lo como regulador climático e fonte de vida, tornando o engajamento coletivo o único caminho para assegurar o nosso próprio amanhã.

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