Fármacos no oceano: contaminação expõe lacunas no saneamento e no monitoramento

Pode parecer paradoxal, mas substâncias desenvolvidas para tratar pessoas têm chegado ao ambiente e exposto organismos que jamais deveriam recebê-las. De fato, a presença de medicamentos, hormônios e drogas ilícitas no ambiente marinho tem sido vista como um desafio emergente para a saúde dos ecossistemas, o saneamento e a saúde humana. Este foi o tema de uma roda de conversa na sexta-feira (18/9), no âmbito do painel Ideias Azuis, durante a Rio Ocean Week, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, entre os dias 17 e 20 de setembro. Moderado pela jornalista Sabrina Neumann, o evento colocou, lado a lado, Milena Ceccopieri (PUC Rio), Ana Paula de Castro Rodrigues (UFF) e José Lailson Brito Jr. (UERJ). 

Classificados como “contaminantes de preocupação emergente”, expressão que poderia sugerir uma eventual raridade, na verdade esta engloba analgésicos, anti-inflamatórios, antibióticos, anticonvulsivantes, medicamentos cardíacos e hormônios de uso humano, que passam a ser encontrados com mais frequência em organismos aquáticos. Drogas ilícitas, como a cocaína e seus metabólitos (produtos derivados de seu metabolismo pelo corpo humano), neles também são encontradas, em cenário de monitoramento científico ainda incipiente. 

O caminho do remédio até o mar

“A principal via [de disseminação destes contaminantes] somos nós, que somos consumidores destes medicamentos”, explicou a oceanógrafa, química ambiental e pesquisadora na PUC – Rio, Milena Ceccopieri. O traçado por ela desenhado e que vai alcançar baías, rios e oceanos não poderia ser mais elementar: uma pessoa consome determinados medicamentos; uma parte deles será metabolizada pelo organismo; o restante do fármaco (e/ou seus metabólitos) é excretado, alcançando a rede de esgotos e eventualmente passando pela estação de tratamento, onde não será tratados, chegando desta forma a poluir rios, bacias e oceanos. “É como se fosse uma banheira em que o ralo está aberto, mas a torneira também está aberta”, explicou Milena, sugerindo assim que o problema que representam tem menos a ver com uma eventual indestrutibilidade química do que com sua persistência no ambiente por entrada contínua .

Milena ressaltou que a detecção de fármacos em organismos aquáticos depende do que os estudos procuram e do tipo de amostra analisada. Como medicamentos podem ser transformados pelo organismo e excretados como metabólitos, pesquisas restritas a poucos compostos podem subestimar a contaminação. Por isso, defendeu análises combinadas de água, sedimento e biota para dimensionar melhor a presença desses contaminantes.

Quando o medicamento começa a agir em quem não precisa dele 

A professora do Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, Ana Paula de Castro Rodrigues, esclareceu os efeitos dos entorpecentes sobre alguns animais aquáticos, que podem ir desde estresse oxidativo a efeitos comportamentais nos animais. Há também, segundo ela, efeitos ligados à reprodução, porque muitas vezes seus hormônios são afetados também, e ao crescimento. “O organismo cresce mais em tamanho do que em engorda. É um organismo que acaba ficando mais magro, mais indefeso ao longo do tempo”, explicou.

A depender do grupo de fármacos ou drogas ilícitas envolvido, os efeitos sobre os organismos aquáticos podem variar. “O peixe acaba tendo uma natação muito mais rápida, gastando muito mais energia, dependendo, lógico, do medicamento presente ali e a que ele está exposto.” Ao gastar energia  em algo, deixa de gastar em outra coisa, seja no crescimento, na reprodução ou na sobrevivência.  “Quando falamos de mudança de comportamento, podemos estar afetando alimentação, a fuga de predador”, acrescentou.  

Esclarecendo que “este é um mundo novo em termos de pesquisa” e que sabemos relativamente muito pouco, o professor do Departamento de Oceanografia da UERJ, José Lailson Brito Jr., afirmou que os mamíferos marinhos são os receptores finais dessa linha que começa no consumo das pessoas e vai terminar no topo da cadeia alimentar dos oceanos. Segundo ele, os botos da Baía de Guanabara “são os animais mais contaminados do mundo”. Impossível não se inquietar com sua veemência: “Aquilo que a gente está encontrando neles é o que a sociedade está vomitando para o meio ambiente”, desabafou. Para ele, a Baía de Guanabara “é um espelho de nossa sociedade”. 

Do oceano de volta às pessoas? 

A ciência já demonstrou que os contaminantes que entram no ambiente marinho não permanecem apenas na água: podem ser incorporados por organismos e avançar pela cadeia alimentar. No topo dessa teia, golfinhos, botos e baleias funcionam como sentinelas da contaminação, porque acumulam sinais do que circula no ecossistema. Segundo Lailson, nesses mamíferos a principal porta de entrada é a via trófica — isto é, a exposição aos contaminantes por meio da alimentação, o que torna a cadeia alimentar central para entender como essas substâncias chegam ao organismo.

Mas encontrar fármacos em organismos aquáticos não significa que humanos recebam a mesma dose. E aqui neste ponto a ciência ainda patina. O risco irá depender de concentração, frequência, dieta e outras formas de exposição, mas ainda é cedo para se dimensionar adequadamente os efeitos crônicos sobre a saúde humana. Ana Paula resumiu bem o estado da arte de nosso conhecimento neste campo: “O receio é de você, ao longo do tempo, ter uma exposição crônica a esses medicamentos via alimento” Mas ainda é cedo para transformar preocupação em risco comprovado. 

Ciência ainda tenta medir o tamanho do problema 

José Lailson afirmou que o monitoramento desta contaminação ambiental ainda é muito caro. Recursos são necessários, tanto humanos como equipamentos. Mas as máquinas que detectam estes fenômenos são muito complexas e operadas por poucas pessoas no mundo, segundo ele. A Suécia monitora estes dados em bancos de leite humano, segundo Lailson. 

Milena destacou que já existem tecnologias capazes de reduzir a presença desses contaminantes, mas sua aplicação em larga escala ainda enfrenta limites de custo, energia e segurança dos subprodutos gerados. Por isso, uma alternativa mais viável no curto prazo seria adotar essas técnicas em pontos estratégicos e de menor escala, como efluentes hospitalares, industriais e outras fontes concentradas de contaminação.se detectar já é difícil, remover em larga escala também é. “A gente ainda está na fase de trazer informação sobre as concentrações desses fármacos no ambiente e o que essas concentrações estão causando na biota”, afirmou

Remover é possível; mas não existe uma única solução 

Os participantes do painel parecem concordar que, diante dos desafios impostos no presente, em termos de custos destas tecnologias, seria necessário voltar ao básico. Evitar que os fármacos cheguem ao oceano e, dentro do possível, retirá-los com mais eficiência do caminho. 

Usar medicamentos com critério, desestimular a automedicação, descartá-los de forma correta e ampliar a logística reversa em uma economia circular seriam algumas soluções na falta daquela bala de prata. Na melhor lógica, “small is beautiful”, defendem-se aplicações localizadas de técnicas que já são nossas velhas conhecidas: uso de carvão ativado, ozonização, luz ultravioleta e processos de filtragem por membrana, como nanofiltragem e osmose reversa. Políticas públicas, saneamento, educação ambiental e verbas para pesquisa e monitoramento também se afiguram como necessárias. 

Assista à integra do evento: < https://www.youtube.com/live/7CC-_5EjSVI?si=qS8J6MH4GE-b-hYb>

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