Todos os anos, a população da região de Congonhas (MG) se inquieta com a ‘invasão’ de nuvens de poeira, sobretudo no período de maio a agosto. Além do solo e superfícies mais secos, por pouca chuva, e da ressuspensão de partículas, provocada por ventos, existem fatores que pioram a situação. O Inventário de Emissões Atmosféricas da Região de Congonhas (MG), referente ao ano-base de 2023 e cuja última atualização ocorreu em novembro de 2025, identificou que cerca de 70% das emissões de material particulado no município têm origem em fontes industriais, como os setores minerador e siderúrgico.
“As empresas precisam incorporar a adaptação climática às estratégias de controle das emissões, e considerar as condições meteorológicas no planejamento das medidas adotadas”, observa Taciana Toledo, professora do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Escola de Engenharia da UFMG e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Poluição do Ar e Meteorologia Aplicada (GPAMA), responsável pelo levantamento.

O Projeto de Pesquisa Atmosfera Congonhas está sendo realizado por equipe multidisciplinar de pesquisadores nacionais e internacionais, e tem como objetivo transformar dados sobre emissões e qualidade do ar em subsídios técnicos para a definição de medidas de prevenção, controle e redução dos impactos da poluição sobre a população e o meio ambiente. Estão incluídos o diagnóstico das estações, a atualização do inventário de emissões, estudos de dispersão atmosférica para identificar as áreas mais impactadas e uma avaliação da própria rede de monitoramento, que existe há nove anos.
A elaboração do inventário foi realizada por empresa privada, sob a coordenação do Projeto Atmosfera Congonhas, da UFMG, e mais especialistas de cinco universidades públicas nacionais. A Prefeitura Municipal de Congonhas, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, atuou no alinhamento técnico e como provedora de informações essenciais.
Origem da poeira nas ruas ainda não pode ser determinada
O foco principal refere-se ao município de Congonhas e contempla uma abrangência territorial ampliada, incluindo os municípios limítrofes de Belo Vale, Conselheiro Lafaiete, São Brás do Suaçuí, Jeceaba, Ouro Branco, Ouro Preto e Itabirito. É o segundo inventário municipal realizado na região, com o objetivo de compreender sistematicamente as fontes emissoras e de subsidiar a gestão da qualidade do ar. O primeiro teve como ano-base 2012. A atualização, conforme o documento publicado, revelou volume de emissões de poluentes superior ao identificado no estudo anterior e ampliou o diagnóstico ao considerar diferentes fontes, entre elas atividades industriais e urbanas, queimadas e fontes biogênicas.

No caso da poeira presente nas ruas, 30% estão nas vias de tráfego; no entanto, o inventário não permite determinar sua origem específica. Em sua conclusão, o relatório técnico do inventário aponta para “expressiva disponibilidade de matéria passível de ressuspensão, associada às características de uso e ocupação do solo e às atividades desenvolvidas no entorno das vias”. A ressuspensão ocorre quando partículas depositadas nas vias voltam à atmosfera com a passagem de veículos ou pela ação de outros fatores. Para identificar a composição e a origem desse material, segundo a professora Taciana Toledo, seria necessário realizar a coleta das partículas e levar as amostras para análises químicas.
O inventário reuniu mais de 14 tipos de fontes emissoras, incluindo postos de combustíveis, ferrovias, residências, estabelecimentos comerciais e queimadas. A participação de cada fonte varia conforme o poluente analisado. Para o material particulado, as emissões industriais e a ressuspensão de poeira das vias aparecem entre os principais fatores.

Partículas finas representam maior risco à saúde
Foram estimadas as emissões de material particulado (MP, MP10 e MP2,5) e de poluentes gasosos (NOx, SO2, CO, COV e NH3), com base em metodologias alinhadas a diretrizes internacionais, como as da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). Quatro empreendimentos concentram 90,9% da carga total emitida de material particulado. O inventário contempla quatro categorias principais de fontes emissoras: urbanas, industriais, biogênicas e queimadas.
A mineração e a siderurgia, porém, apresentam perfis de emissão distintos. Segundo a pesquisadora, a mineração apresenta maior influência sobre as partículas mais grossas, em razão, por exemplo, da exposição de pilhas de minério e outras áreas à ação dos ventos. Já a siderurgia tem participação relevante na emissão de partículas mais finas e de gases. O material particulado fino, conhecido como MP2,5, é apontado na literatura internacional como o mais nocivo à saúde humana.
As queimadas constituem outro fator importante, especialmente durante os meses mais secos do ano. A professora Taciana Toledo destaca que esse tipo de ocorrência tem caráter sazonal e pode elevar as concentrações de poluentes, principalmente de partículas finas. As condições de seca, a baixa umidade e a ação humana podem contribuir para o agravamento do problema.

Municípios vizinhos podem receber poluição sem monitoramento
Os estudos de dispersão também indicam a necessidade de ampliar o conhecimento sobre municípios vizinhos que podem ser afetados pela poluição, mas não dispõem de monitoramento. Segundo a professora, as estações existentes em Minas Gerais estão concentradas, em grande parte, nos municípios onde se localizam empreendimentos potencialmente poluidores, enquanto cidades situadas no entorno podem receber os impactos sem saber em que intensidade.
O desafio, afirmou a pesquisadora, não deve ser tratado como uma oposição entre mineração e desenvolvimento, pois considera a importância econômica dela para Congonhas e o país. Mas, entende ser necessário discutir os custos ambientais e quem arca com eles. Na avaliação da pesquisadora, os dados produzidos pelo inventário podem ajudar a orientar medidas de controle e políticas de compensação, além de subsidiar a atuação do poder público e de outros órgãos responsáveis.

