Cerrado ameaçado: Fiocruz e UFG defendem nova vigilância ambiental

A fim de propor modelo de vigilância ativa, integrada, intersetorial, multiescalar, multitemporal e participativa nos territórios dos povos e comunidades originários e tradicionais do Cerrado, o Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal de Goiás (CIAMB/UFG) realiza o seminário, “Vigilância Integrada no Cerrado: Ciência, Território e Tomada de Decisão para a Biodiversidade”.

O evento, que tem coordenação compartilhada com a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz, começou ontem, dia 14 de outubro, e termina hoje. A participação de público é presencial no Auditório da Biblioteca da UFG, Campus Samambaia, e on-line.

No seu espectro mais amplo, a proposta alinha-se à Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, especialmente no que se refere ao combate à pobreza (ODS 1), fome zero e agricultura familiar (ODS 2), saúde e bem-estar (ODS 3), água de qualidade (ODS 6), redução das desigualdades (ODS 10), ação contra a mudança global do clima (ODS 13), proteção dos ecossistemas terrestres (ODS 15) e, adotada voluntariamente pelo Brasil, a igualdade étnico-racial (ODS 18).

Biodiversidade no Cerrado tem sido muito afetada

Para levar adiante a proposta, o seminário pretende integrar dados ambientais, epidemiológicos, sociais e produtivos com o intuito de fortalecer políticas públicas a favor da defesa e promoção da sociobiodiversidade no Cerrado. 

O evento conta com a participação de pesquisadores, muitos da Fiocruz, especialistas, estudantes, movimentos sociais e demais interessados na proteção e promoção da sociobiodiversidade do Cerrado.

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, ocupa cerca de 2 milhões de km² – aproximadamente 22% do território nacional –  e considerado a savana mais biodiversa do mundo. Abriga cerca de 5% das espécies do planeta, incluindo espécies endêmicas, e tem papel importante na regulação do clima, na conservação dos recursos hídricos e na manutenção da biodiversidade.

Apesar de sua relevância ecológica, o bioma enfrenta intensa pressão das atividades humanas. Nas últimas décadas, aproximadamente metade de sua vegetação nativa foi convertida para atividades agropecuárias, segundo dados do Mapbiomas.

Ecocídio e ecogenocídio

Participando da mesa de abertura, Guilherme Franco Netto, da Coordenação de Saúde e Ambiente na Vice-Presidência Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) e integrante da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030), mencionou a parceria da Fiocruz com a UFG e a criação pela Fiocruz do programa Cerrado em Rede, para a integração de iniciativas e instituições.

“É necessário ampliar o conceito de vigilância, superando a análise de dados e incorporando as dimensões sociais, ambientais e culturais dos territórios, em uma perspectiva de inteligência territorial”, disse Franco.

O pesquisador relembrou também a participação da Fiocruz no Tribunal Permanente dos Povos, criado em 1979, que analisou denúncias de ecocídio – destruição em larga escala, deliberada ou negligente, de ecossistemas e recursos naturais essenciais à vida no planeta – e ecogenocídio no bioma – usado para descrever a destruição de um ecossistema associada à ameaça à sobrevivência dos povos e das comunidades que dependem dele, de seus recursos naturais e de seus territórios. A experiência motivou o desenvolvimento de pesquisas da Fiocruz para aprofundar o conhecimento sobre os impactos socioambientais na região.

Também participaram da mesa de abertura, Daniela Melo, vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação Ambientais da UFG, Luana Ribeiro, pró-reitora de extensão da UFG, Laura Vilela Rodrigues Rezende, pró-reitora de Pós-Graduação da UFG, e Carla Maria Silva de Faria, coordenadora do Programa de Ciências Ambientais da universidade.

Em Conferência Magna, Marcelo Mendonça, especialista em Geografia do Trabalho, Questão Agrária, Agrohidronegócio, Agroecologia, Povos Cerradeiros e (Re)Existências, do Laboratório de Estudos e Pesquisas das Dinâmicas Territoriais (Laboter) do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da UFG, discorreu sobre o desafio não só para a geografia, mas para as ciências ambientais que dialogam com essa temática. Ele citou quatro pontos centrais:

  • Leitura integrada e escuta territorial para que a academia supere visões fragmentadas e aprenda com os povos tradicionais.
  • Tratar do avanço predatório nas fronteiras, devido, sobretudo, ao avanço do agrohidronegócio e da mineração sobre o nordeste goiano e a Matopiba–região formada por áreas majoritariamente de cerrado em quatro estados.
  • Restauração ambiental inclusiva.
  • Justiça socioambiental e financiamento.
Conferência Magna com Marcelo Mendonça, especialista em Geografia do Trabalho, do Laboter/Iesa/UFG

A mesa-redonda “Aspectos Teóricos da Vigilância Integrada” contou com a participação de três pesquisadores da Fiocruz.

Ao falar sobre “Pedagogia do território e vigilância integrada”, Maurício Monken, geógrafo, pesquisador e professor vinculado à Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), destacou que o território é construído por relações de poder, conflitos, apropriação de recursos e vínculos sociais que influenciam as condições de saúde.Monken defendeu que a vigilância em saúde e a Atenção Primária reconheçam as redes de solidariedade comunitárias, formais e informais como fundamentais para o cuidado. O pesquisador sugeriu a estratégia de diagnósticos participativos e caminhadas exploratórias para conhecer as condições de vida das populações.

“A saúde deve considerar as dinâmicas sociais dos territórios, priorizando a vida e não apenas a doença”, comentou.

Maurício Monken, geógrafo, pesquisador e professor vinculado à Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)

Marcelo Firpo, pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), discutiu as relações entre saúde, sociedade e ambiente, destacando a necessidade de considerar os saberes indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais na pesquisa científica. Também falou da articulação entre justiça social, sanitária, ambiental e cognitiva, além dos desafios da descolonização do conhecimento acadêmico. Ao abordar os conflitos socioambientais, discutiu os impactos do neoextrativismo e dos modelos de exploração dos recursos naturais.

Urgência da abordagem “Uma Só Saúde“

A importância da abordagem Uma Só Saúde na governança dos territórios ocupou boa parte da apresentação de Ricardo Moratelli, pesquisador da Fiocruz, tecnologista em Saúde Pública e biólogo especializado em zoologia e biodiversidade. Para exprimir a necessidade urgente dessa abordagem, o pesquisador lembrou as transformações antrópicas globais – ações provocadas direta ou indiretamente pelos seres humanos que modificam elementos naturais – que têm ocasionado o colapso acelerado da biodiversidade:

  • Declínios populacionais de 25% a 45% em inúmeras espécies de vertebrados e invertebrados, disrupção de redes ecológicas e desfiguração de serviços ecossistêmicos fundamentais.
  • No último meio século, 80% dos episódios de doenças infecciosas emergentes decorreram da invasão e perturbação de ecossistemas naturais pelo ser humano.

Moratelli detalhou a epidemiologia dessas crises sanitárias:

  • As zoonoses respondem por 60% das patologias infecciosas emergentes.
  • 72% deste grupo provêm diretamente do contato com a fauna silvestre.
  • Patologias transmitidas por vetores e microrganismos multirresistentes a antimicrobianos somam outros 20% cada.
  • Alertas epidemiológicos foram ignorados desde meados do século XX.

Metodologias para a vigilância integrada em territórios

Durante a mesa-redonda “Aspectos Metodológicos da Vigilância Integrada”, foi passado por Juliana Villardi, pesquisadora da VPAAS / Fiocruz, especializada em saúde ambiental, vigilância em saúde e mudanças climáticas, o conhecimento sobre determinantes ambientais da saúde (mudanças do clima, poluição e biodiversidade) por meio do Centro de Síntese/Fiocruz. Instituída em 2025, a iniciativa visa o fortalecimento da inovação do SUS e a melhoria da qualidade de vida. Após explicar que a ciência de síntese articula resultados de pesquisas de diferentes áreas para compreender problemas complexos e subsidiar decisões, Villardi apresentou os nove projetos do Centro, cujos eixos são a saúde pública, a determinação social e o território.

Fernanda Savicki, pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz Ceará na área de Saúde e Ambiente, disse que a pesquisa participativa exige que a academia saia do seu ambiente tradicional e se desloque para o território, ao mesmo tempo em que as lideranças comunitárias passam a compor a academia.

“O território deixa de ser ‘objeto de estudo’ para se tornar sujeito produtor de conhecimento e respostas às suas próprias vulnerabilidades”.

Prosseguimento do seminário

Dado o adiantado da hora, o painel “Elementos Práticos e Operacionais da Vigilância Integrada”, a última atividade do seminário de ontem, ficou para ser complementado hoje, quando haverá mais duas mesas-redondas e dois painéis.


Legenda da imagem em destaque: Guilherme Franco Netto, da Coordenação de Saúde e Ambiente da VPAAPS, participou da mesa de abertura do seminário

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