Na conclusão do seminário “Vigilância Integrada no Cerrado: Ciência, Território e Tomada de Decisão para a Biodiversidade”, ocorrido nos dias 14 e 15 de outubro na Universidade Federal de Goiás (UFG), com o apoio da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), da Fiocruz, na organização, definiu-se como essencial haver iniciativas para a vigilância integrada, principalmente por existirem áreas altamente agredidas e conflituosas. Questões de violência no Cerrado foram mencionadas em muitas das colocações do evento.
Uma ideia geral no seminário foi da integração dos meios científico e acadêmico com os povos originários (indígenas) e tradicionais (como os quilombolas), ambos chamados de guardiões do Cerrado, e, ao mesmo tempo, mais vulneráveis à degradação de condições de vida, ambientais e climáticas.
Em sua Conferência Magna no dia 14 de outubro, Marcelo Mendonça, especialista em Geografia do Trabalho, Questão Agrária, Agrohidronegócio, Agroecologia, Povos Cerradeiros e (Re)Existências, do Laboratório de Estudos e Pesquisas das Dinâmicas Territoriais do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG, mencionou os territórios do Cerrado e as pessoas que os habitam como talvez sendo vítimas das maiores desigualdades no planeta.
Cerrados em Rede, conselho e instituto nacional
Algumas iniciativas para mudanças no atual modelo de vigilância territorial foram lembradas por Guilherme Franco Netto, da Coordenação de Saúde e Ambiente na VPAAPS e integrante da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030). Entre as quais, estão o atual processo de instituição do chamado programa Fiocruz Cerrados em Rede, dentro da perspectiva do trabalho que a instituição já vinha fazendo no Cerrado, além do caminho feito junto com o Instituto Nacional do Cerrado (INC), criado por 19 instituições de ensino superior e pesquisa ligadas ao bioma, em dezembro de 2025.

De acordo com Franco, Mario Moreira, presidente da Fiocruz, já manifestou interesse em conversar com os responsáveis pelo instituto para integrá-lo ao traballho da instituição na defesa dos territórios do Cerrado.
Após o primeiro painel de ontem, Franco propôs se pensar na possibilidade de se criar um conselho de Vigilância Integrada para o Cerrado, no qual os responsáveis pelas políticas públicas e também os movimentos sociais e a sociedade possam estar se vendo dentro do INC.
“Eu acho que isso fortaleceria muito. Seriam vozes múltiplas falando na mesma direção, e penso que daria potencialidade a essa ideia de caminho que está sendo feito com a associação ao Instituto Nacional do Cerrado”, disse Franco.
Defesa do Instituto Nacional do Cerrado
A ideia teve a concordância de Daniela Melo, vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da UFG, que lembrou da fala de Angelita Pereira de Lima, ex-reitora da UFG, durante a mesa-redonda “Políticas Públicas a Considerar para a Vigilância Integrada no Cerrado”, de se lutar pelo INC.
Melo externou que centros de excelência locais citados no evento podem colaborar, como os de Recursos Hídricos, Monitoramento do Clima e de Uma Só Saúde, onde ela atua na área de ecotoxicologia (estuda os efeitos das substâncias químicas naturais ou artificiais sobre os organismos vivos).
Os desafios e as estratégias da gestão pública para a implementação da Política Nacional de Vigilâncias em Saúde (PNVS) foram comentados por Guilherme Werneck, diretor do Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.
Entre as principais iniciativas desenvolvidas, destacou as oficinas regionais de implementação da PNVS, iniciadas, há dois anos, em estados e municípios, e a Vigilância Popular em Saúde. A PNVS ainda não está instituída em todos os territórios.
“A operacionalização prática e consolidação da PNVS dependem do fortalecimento contínuo do SUS”, observou.
Pesquisador fala sobre importância da vigilância popular
Alguns “aprendizados” em pesquisas de campo obtidos pelo Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes, da Fiocruz Ceará, foram passados por Fernando Carneiro, pesquisador em Saúde Pública. Trata-se de um grupo de pesquisa-ação que articula instituições públicas de saúde, pesquisadores, movimentos sociais, organizações populares e comunidades para desenvolver ações de Vigilância Popular em Saúde.
“A gente deu a ideia de criar um participatório para dizer assim: ‘não basta observar, temos que se transformar’”, lembrou Carneiro.

Ao relatar as experiências do projeto Vigia Povo, que articulou ações de base comunitária frente à pandemia de Covid-19 e às emergências climáticas, Carneiro enfatizou a coprodução científica com lideranças e pesquisadores populares. Ele criticou o que chama de “extrativismo acadêmico tradicional”, sustentando que a ciência não pode se limitar a produzir artigos para o meio universitário, e sim garantir um retorno prático e estruturante, transformando a pesquisa em compromisso ético e contínuo com a defesa dos territórios.
Agrotóxicos e carência de água no Cerrado
Valéria Santos, representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da coordenação executiva e da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, repassou duas experiências que foram desenvolvidas a partir de demandas de comunidades e participação delas em metodologias e pesquisas: os mapeamentos dos agrotóxicos nas águas do Cerrado, e o feito a partir das ‘águas mortas’ na região Oeste da Bahia.

Na primeira experiência, dedicada à qualidade da água, foram investigados 93 pontos e 184 amostras, com 13 tipos de agrotóxicos identificados nas águas consumidas pelas comunidades, 100% com resíduos do produto, e algumas amostras onde havia agrotóxicos proibidos pela União Europeia.
Os dados foram obtidos na campanha, em parceria com a Prospecção Fiocruz Cerrados. Culminou com o dossiê “Vivendo em Territórios Contaminados”, de 2023, baseado num processo iniciado em 2018.
A pesquisa investigou sete comunidades em sete estados do Cerrado: Maranhão, Piauí, Bahia, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
O primeiro passo, segundo Santos, foi a formação com as comunidades sobre coleta, armazenamento, transporte das amostras de água e biossegurança. Depois, prosseguiu a pesquisadora, houve a realização de duas análises: uma nos laboratórios da Fiocruz, com cada ponto georreferenciado pela própria comunidade, e outra de leitura coletiva sobre os dados laboratoriais cruzados com os relatos das comunidades e a literatura da área.
Na segunda experiência ao longo de 2023 e 2024, voltada para a escassez da água, houve mapeamento no qual se identificou 3.050 trechos secos de rios, córregos e nascentes, totalizando 7.120 km de águas mortas na região Oeste da Bahia.
No processo de mapeamento que abrangeu as sub-bacias hidrográficas dos rios Corrente e Carinhanha, participaram a CPT, a Pastoral do Meio Ambiente (PMA), pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia e diversas organizações da região e comunidades.
Pescadora sente falta de maior participação das comunidades
No último painel do seminário, “Governança do modelo de vigilância integrada no Cerrado”, coordenado por Pedro Novaes, geógrafo, cientista ambiental, cineasta e pesquisador da Prospecção Fiocruz Cerrados, Ana Ilda Pavão, pescadora do Movimento de Pescadoras e Pescadores Artesanais do Brasil (MPP), questionou qual é o retorno de todas as falas do seminário para as comunidades, com as muitas pesquisas apresentadas.
“Como nós, povos e comunidades tradicionais, como nós pescadores do Cerrado, como é que a gente está ajudando nesse processo?”, indagou.

Propostas finais
No encerramento, Franco sugeriu a criação de documento analítico robusto para sistematizar a riqueza dos debates e orientar os desdobramentos práticos. E, novamente, reforçou a ideia de uma rede articulada permanente, para se ‘pensar junto e construir com”.

