Um sol para cada um. O repórter britânico Graham Readfearn, colaborador do The Guardian radicado em Brisbane, na Austrália, e especializado em meio ambiente e sustentabilidade, resolveu testar, na própria pele, expressão idiomática tão cara aos cariocas, especialmente em dias de calor, quando o astro-rei é, para eles, ‘um maçarico’.
Dentro da câmara de calor
Graham participou de uma simulação no Laboratório de Ergonomia Térmica, do Centro de Pesquisa sobre Calor e Saúde da Universidade de Sydney, e descreveu os resultados. Nesta espécie de câmara climática do tamanho de um quarto grande, equipada com uma esteira ergométrica e lâmpadas de aquecimento, as variáveis “temperatura”, “umidade” e “esforço físico” podem ser rigorosamente controladas. Isso permite investigar a fisiologia do calor extremo em humanos e os limites da termorregulação, nas mais diversas circunstâncias.
Não dá mais para tapar o sol com a peneira. Ollie Jay, diretor do centro, traz para Graham uma informação divulgada pela revista The Lancet. “As ondas de calor extremas causaram cerca de 546 mil mortes por ano entre 2012 e 2021; um aumento de 63% em relação aos índices registrados na década de 1990.” Números um tanto abstratos, que Jay traduz em algo mais inquietante: um Boeing 747 lotado caindo a cada sete horas durante todo o ano, faça chuva ou faça sol. Não é trivial.
O experimento pelo qual Graham passou consistiu de duas etapas. Na primeira, a temperatura ambiente foi definida em 43°C e a umidade do ar em 18%. Segundo Jay, este é o tipo de condição que veremos com muito mais frequência, em locais como Sydney, Cidade do México e São Paulo, quando a temperatura média global aumentar em 2°C (o que está previsto para acontecer em algumas poucas décadas). Na segunda etapa, a temperatura foi a mesma, com a diferença de que a umidade do ar foi aumentada para 36%.
Findo o sufoco da primeira etapa do experimento, Jay explica a Graham o que ele acabara de vivenciar. Segundo Jay, quando pensamos em dias quentes, tendemos a focar apenas na temperatura, o que é um erro. Isto porque estas são medidas na sombra e não espelham a condição de alguém sob radiação solar direta, quando a quantidade de estresse térmico a que se é exposto é bem maior.
Quando o suor deixa de funcionar
Assim, para se aferir corretamente a sensação térmica, é necessário levar em conta também a umidade, que nada mais é do que a quantidade de vapor d’água presente no ar. Quando a umidade do ar está alta, o suor tem dificuldade de evaporar ; e é justamente a evaporação que resfria o corpo. É como tentar secar roupa num banheiro cheio de vapor: um processo demorado.
Funciona assim: Quando o ar está muito úmido, cheio de vapor d’água, o suor não consegue evaporar direito, fica grudado na pele, impedindo o corpo de resfriar.
Agora vem o xis da questão: Se a temperatura e a umidade estão altas, o corpo produz suor, mas este não evapora, fazendo o corpo perder seu principal ar-condicionado biológico. É por isso que, para Graham, a segunda etapa do experimento, com umidade mais alta, foi mais penosa que a primeira. “Nas condições que estou vivenciando, a sensação térmica está acima de 49°C”, revelou. Um calor de matar.
Muito além do desconforto
Para sorte de Graham, tudo não passou de uma experiência com hora para acabar. A permanecer nesta circunstância por longos períodos de tempo, como é o caso de muitos mortais ao sul do equador, sua temperatura interna subiria demais, os órgãos começariam a falhar e poderia ocorrer exaustão por calor ou insolação. Nessas condições, seu corpo não teria como compensar o calor e se resfriar, podendo levá-lo à morte em circunstâncias extremas. Desta realidade, nem pessoas jovens e/ou saudáveis escapam.
Mas os problemas com ondas de calor não se esgotam com o fato de serem muitas vezes letais. Elas estão associadas a um aumento do risco de natimortos e baixo peso ao nascer, e colocam bebês, idosos e pessoas com problemas de saúde preexistentes, como doenças cardíacas ou renais, em maior risco.
É preciso considerar também, como lembra Jay, na matéria do The Guardian, como o calor afeta a capacidade de as pessoas realizarem atividades diárias. “É um problema real para as pessoas no local de trabalho, principalmente se não conseguirem escapar dessas condições de calor extremo (…) Isso também afeta nossa capacidade de sermos produtivos e estarmos seguros no ambiente de trabalho, observa ele.
Quem mais sofre com o calor
Mas, se o sol nasce para todos, para alguns ele é mais inclemente. Já se fala em “desigualdade térmica”. Trabalhadores ao ar livre, idosos, pessoas com doenças crônicas e populações pobres sem acesso a resfriamento são as mais expostas, tendo sido exatamente aquelas que menos contribuíram para o aquecimento global.
Da matéria do The Guardian, podemos tirar algumas conclusões. Ela desloca o debate abstrato e subjetivo sobre o calor extremo para o limite humano mensurável, abordando especialmente a fisiologia humana, o desempenho físico sob calor e os limites da sobrevivência. Entretanto, as dimensões sistêmicas relacionadas às ondas de calor, de interesse para o campo da saúde pública, como a dinâmica urbana das ilhas de calor, o uso do solo, a poluição atmosférica e a interação com doenças infecciosas, não são o foco da matéria. E tudo bem. Mas, no nosso caso, em uma perspectiva de saúde pública, deveriam ser consideradas.
O que o experimento realmente nos ensina
O experimento relatado nos traz algumas lições proveitosas. Entre elas, o fato de existir um limite fisiológico real para a dissipação de calor humano. Isto faz cair por terra o argumento de que, se você beber água, o problema está resolvido. Num país tropical, desigual e urbanizado como o Brasil, essa evidência ganha peso ampliado, sobretudo para populações expostas e trabalhadores ao ar livre. Conclui-se também, através do experimento a nós apresentado, que a alta umidade agrava bastante o risco térmico; que ondas de calor já causam mortalidade importante; e que combater a desigualdade térmica é primordial, quando se considera que muitas mortes por calor são potencialmente evitáveis.
Leia a interessante matéria imersiva do The Guardian: Extreme heat lab: Enduring the climate of the future / The Guardian
Imagem de Franz Bachinger por Pixabay
