Por Isabelle Resende (VPPCB/Fiocruz)
A construção de agenda político-estratégica entre as parceiras, cujo alvo são as doenças negligenciadas, foi tratada em encontro na Fiocruz
A Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB) participou, no dia 11 de fevereiro, do encontro entre a Fiocruz e a Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi), realizado na Residência Oficial da instituição, em Manguinhos, no Rio de Janeiro. Na pauta, a Aliança Estratégica entre as instituições, com foco na consolidação de uma agenda político-estratégica e no fortalecimento de ações conjuntas em pesquisa, desenvolvimento e acesso a medicamentos para doenças negligenciadas.
O encontro, realizado de forma híbrida, contou com a participação do presidente da Fundação, Mario Moreira, do diretor para América Latina do DNDi, Sergio Sosa Stani, do Líder de Descoberta e Parcerias de P&D para a América Latina, Jadel Kratz, além do pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), André Périssé, e representantes da Vice-Presidência de Produção e Inovação em Saúde VPPIS), Biomanguinhos, Farmanguinhos.
O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, enfatizou que a Aliança Estratégica com a DNDi vai além da cooperação técnico-científica, consolidando-se como um instrumento político-institucional fundamental para enfrentar o cenário global adverso do financiamento em saúde. Moreira ressaltou que, diante da retração de investimentos da indústria farmacêutica e das pressões orçamentárias na saúde global, torna-se ainda mais estratégico fortalecer parcerias que articulem inovação, produção local e acesso equitativo a medicamentos, especialmente para doenças negligenciadas do “road map” da Organização Mundial da Saúde (OMS) — historicamente não priorizadas pelo mercado.
Ele também destacou a importância de alinhar a agenda da Aliança às prioridades da saúde pública brasileira, reforçando o papel da Fiocruz como instituição estratégica de Estado comprometida com o Sistema Único da Saúde (SUS), com a soberania científica e tecnológica e com a cooperação internacional solidária. Para o presidente, a consolidação de uma agenda político-estratégica comum fortalece a capacidade institucional de incidência em fóruns globais e amplia a sustentabilidade das iniciativas voltadas ao desenvolvimento e acesso a tecnologias em saúde.
A vice-presidente, Alda Cruz, destacou que promover reuniões de alinhamento fortalece e gera possibilidades.
“A programação da reunião com representantes de várias áreas da Fiocruz foi estruturada em três blocos temáticos. Foi possível discutir as expectativas em relação à Aliança, com reflexões sobre as dimensões em que a DNDi é mais estratégica para a Fiocruz no contexto atual.”
Também foram debatidos o papel do Comitê de Acompanhamento (Joint Steering Committee/JSC), oportunidades de aprimoramento da governança da parceria e estratégias para ampliar a visibilidade e o entendimento da Aliança no âmbito da comunidade Fiocruz.
O segundo bloco se concentrou na construção de uma agenda político-estratégica mais ampla e transversal. Sob a liderança da vice-presidente da VPPCB, Alda Cruz, e de Jadel Kratz (DNDi), o debate abordou os impactos do cenário global de financiamento em saúde, incluindo a retração de investimentos da indústria farmacêutica e as pressões orçamentárias na saúde global. Também foram discutidos o papel da Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, a cooperação internacional em fóruns como Mercosul, OPAS, BRICS e redes como a Pasteur Network, além do fortalecimento de capacidades institucionais e da promoção da ciência aberta e do compartilhamento de dados. 
A agenda incluiu ainda discussões estratégicas sobre financiamento, destacando a importância do alinhamento institucional para submissão de propostas a grandes linhas de fomento, o papel da Fiotec e das chamadas da Finep, bem como o cenário atual de investimentos no país.
No terceiro bloco, foram tratados temas específicos que demandam encaminhamentos e decisões, o registro e a transferência de tecnologia do ravidasvir, perspectivas para outros produtos estratégicos, como miltefosina e nifurtimox, e propostas relacionadas à Aliança Dengue, incluindo articulações com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e o planejamento de novos encontros. O diretor da DNDi para América Latina, Sergio Sosa Stani , salientou que a entidade está empenhada em contribuir para o processo de internacionalização da Fiocruz.
“A DNDi tem muito a contribuir nesse processo de internacionalização da Fiocruz. Somos uma organização ágil, presente em vários países e apoiada por uma rede internacional de parceiros. Temos condições reais de avançar em frentes estratégicas, como o desenvolvimento de novos tratamentos para doenças negligenciadas, melhorias em diagnóstico e a coordenação de propostas para grandes linhas de financiamento. O próximo passo é definir, com clareza e estratégia, o tema que melhor responda às prioridades de ambas as instituições — e concentrar esforços nele”, afirmou o diretor da DNDi para a América Latina.
Atualmente, a organização internacional trabalha com a Fiocruz nos projetos de dengue, doença de Chagas, hepatite C, leishmaniose e esquistossomose. A reunião reforçou o compromisso da Fiocruz e da DNDi com uma cooperação estruturante, orientada por princípios de inovação, produção local e acesso equitativo a tecnologias em saúde, em consonância com as prioridades da saúde pública brasileira e da saúde global.

Fotos: Plínio Sousa
