Em setembro de 2025, agentes comunitários de saúde britânicos e brasileiros, ao lado de pesquisadores do ResiliSUS/CEE e do Imperial College de Londres, reuniram-se no Centro
Por Eliane Bardanachvili
A importância dos agentes comunitários de saúde do SUS na reforma da atenção primária na Inglaterra é destacada no texto publicado em 3 de fevereiro
Pesquisadores do CEE-Fiocruz são autores, com colegas, de artigo publicado hoje na revista Nature Health. O texto, Agentes comunitários de saúde do Brasil contribuem para as reformas da atenção primária à saúde na Inglaterra (Brazil’s community health workers inform primary care reforms in England), aborda a adoção pelos ingleses do modelo brasileiro de agentes comunitários de saúde (ACS) do SUS, um caso de inovação reversa – em que um país de alta renda incorpora uma política pública originada em um país de baixa e média renda –, no combate às desigualdades no acesso ao cuidado.
Pelo CEE-Fiocruz, assinam o artigo o pesquisador Alessandro Jatobá, coordenador-adjunto do Centro e à frente do laboratório ResiliSUS do CEE, e integrantes desse projeto de pesquisa, Paulo Victor Paulo de Carvalho, Hugo Bellas, Raquel Leal, Jaqueline Viana, Paloma Palmieri, Cleo Baskin e Patrícia Passos Simões, ao lado de Cornélia Junghans Minton, Marcelle Costa Marinho, Anne-Sophie Jung e Matthew Harris. Este último, vinculado ao Imperial College de Londres, que vem levando à frente as pesquisas voltadas a adaptar ao NHS o trabalho realizado no Brasil, e responsável por promover a iniciativa de o sistema inglês inspirar-se no modelo do SUS, tendo sido médico de família no Brasil, entre 1999 e 2003. Pelo lado brasileiro, Jatobá e o laboratório ResiliSUS do CEE estão à frente do processo.
Os autores analisam a experiência dos ACS, parte essencial da Estratégia Saúde da Família (ESF) brasileira, e discutem suas lições para a atenção primária na Inglaterra. Conforme escrevem, países de baixa e média renda, como o Brasil, desenvolvem “soluções inovadoras em contextos de escassez de recursos e desigualdades sociais, resultando em modelos de cuidado comunitário com foco em resultados essenciais”. A publicação na Nature ealthsHealth e o tema abordado foram alvo de reportagem no jornal Folha de S. Paulo, veiculada no mesmo dia.
Conforme aponta o artigo e destaca o jornal, famílias visitadas pelos agentes comunitários ingleses, a partir da iniciativa, que começou em 2023, apresentaram aumento de 40% no uso de serviços preventivos, com alta de 47% na vacinação e de 82% na realização de exames de rastreamento e check-ups. Houve queda de 7,4% em atendimentos médicos não programados.
O Programa dos agentes comunitários de saúde teve início em 1991 e foi incorporado à ESF em 2006, com expansão expressiva da cobertura, que passou de 3,4 agentes por mil habitantes, em 2008, para 13,5 por mil habitantes em 2024. Estudos citados no texto indicam associações entre a expansão dos ACS e a redução de internações por condições sensíveis à atenção primária, como hipertensão e diabetes, além de melhorias na saúde materna e no acesso ao pré-natal. O artigo destaca, ainda, o papel dos ACS na identificação de casos não diagnosticados, no acompanhamento de doenças crônicas, na promoção da adesão ao tratamento e na superação de barreiras geográficas, sociais e culturais.
No contexto inglês, foram apresentados os desafios enfrentados pelo NHS – como pressões financeiras, envelhecimento populacional, aumento da demanda por serviços, escassez de recursos humanos, longas listas de espera e baixas coberturas vacinais e de rastreamento preventivo em populações vulneráveis. Em resposta, o governo britânico lançou o Plano de Saúde de Dez Anos, com foco na reorientação do cuidado para a comunidade, no uso de tecnologias e na prevenção de doenças.
O artigo destaca que domicílios visitados por ACS tiveram maior utilização de serviços preventivos, com aumentos na vacinação, nos rastreamentos de câncer e nos check-ups de saúde, além de redução em consultas médicas não programadas. O texto atribui esses resultados à “abordagem proativa, universal e personalizada dos ACS”, baseada em visitas domiciliares regulares, construção de vínculos de confiança e articulação entre serviços de saúde e assistência social.
Os autores fazem uma ressalva: sem integração sistêmica, os ACS correm o risco de se tornarem iniciativas fragmentadas e de curto prazo. Conforme analisa Alessandro Jatobá na reportagem da Folha de S. Paulo, não é só a visita domiciliar do agente comunitário que conta, mas sim todo um modelo de organização do cuidado, que inclui mapeamento do território e compreensão de quais são as barreiras físicas e socioeconômicas de acesso daquela pessoa.
“Existe uma dimensão muito forte de vínculo”, diz Jatobá. “O agente comunitário conhece o território, entende as barreiras físicas e socioeconômicas que aquela família enfrenta e, a partir dessa relação de confiança, consegue promover saúde de forma contínua”, considera.
Com base na experiência brasileira e nos primeiros resultados da experiência na Inglaterra, o artigo apresenta recomendações de políticas e conclui que o aprendizado entre Brasil e Inglaterra “desafia a noção de que países de alta renda não têm a aprender com países de baixa e média renda”

