Foto EFA 2030/Fiocruz
Evento de aniversário de 110 anos da Academia Brasileira de Ciências (ABC) visibiliza ações no Brasil de Uma Só Saúde Azul, e Gadelha, coordenador da EFA 2030/Fiocruz, aproveitou em palestra, realizada ontem à tarde, para evidenciar que essa abordagem saiu do plano das ideias para a realidade
Quando começou as suas atividades em 13 de maio de 1916 ainda como Sociedade Brasileira de Ciências e com o cientista Oswaldo Cruz na vice-presidência, a ABC – mudou para o nome atual em 1922 – objetivava a valorização da ciência pura. Desde os anos 20, passou a ter grande importância no cenário nacional, caracterizada pela diversidade de ações em cada período e pela expansão nas últimas décadas. A entidade abriu na efeméride, dentro de sua tradicional Reunião Magna, espaço para apresentações do atualíssimo tema “Oceano do amanhã: ciência para um planeta em equilíbrio”, com dezenas de palestrantes, de 5 a 7 de maio, no Museu do Amanhã.
Até há bem pouco tempo excluído dos grandes debates, o oceano tem chamado atenção do mundo da ciência pelo papel vital na luta da humanidade pela própria sobrevivência, pelo equilíbrio no impacto para a saúde, nas mudanças e emergências climáticas, como meio de garantir a sobrevivência e com promissores rumos para a economia doméstica e em escala industrial, sobretudo na alimentação e saúde. Mais do que nunca, buscam-se soluções por meio da ciência, políticas públicas e saberes tradicionais para preservar o oceano e melhor aproveitá-lo.
Valorosos slides de Uma Só Saúde Azul
Dezenas de palestrantes e debatedores discorreram sobre o assunto no evento da ABC, entre os quais Paulo Gadelha, coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030/Fiocruz), que numa sessão especial, apresentada por Patricia Bozza, pesquisadora titular do Instituto Oswaldo Cruz, apresentou, com riqueza de detalhes por meio de slides, o valor e necessidade de Uma Só Saúde Azul.
A conexão profunda da saúde com o oceano e de ambos com a Agenda 2030 teve o maior destaque na busca de reflexão proposta inicialmente por Gadelha. A partir daí, ele avançou para evidências da Abordagem Holística sobre Saúde e Oceano – analisa os fenômenos como um todo, considerando as interações e a interdependência das partes, que teve destaque durante a Conferência das Partes (COP 30) realizada em novembro de 2025, em Belém. Para a busca de eficácia e equilíbrio, depende de um processo complexo: passa, sobretudo, pela integridade dos ecossistemas, por condições socioeconômicas, culturais, ambientais gerais e de saúde, estilo de vida dos indivíduos idade, sexo e fatores hereditários.

A abordagem de Uma Só Saúde busca suprir as necessidades de forma integrada e unificadora, e visa equilibrar e otimizar de forma sustentável a saúde de pessoas, animais e ecossistemas. Reconhece que a saúde humana, animal e ambiental são estreitamente interconectadas e interdependentes. E para o oceano, Uma Só Saúde Azul, a ferramenta reconhece a interdependência entre a saúde dele e a saúde dos seres humanos, animais, plantas e outras formas de vida, do ambiente e ecossistemas resultantes.
Vulnerabilidade social e ambiental
Garantir acesso equitativo a condições dignas de vida é o pilar central da estratégia de Uma Só Saúde Azul. As desigualdades são históricas e sempre apontam para sofrimentos maiores das pessoas em situações de vulnerabilidade social e ambiental, principalmente na erosão costeira e ocorrências de eventos extremos. Quase 3,5 bilhões da população mundial vive na linha de frente costeira. “As mudanças climáticas e a degradação oceânica não produzem impactos homogêneos. A Uma Só Saúde Azul só será efetiva se reconhecer que erosão costeira, eventos extremos, perda de biodiversidade e insegurança sanitária atingem primeiro os grupos historicamente mais vulnerabilizados”, ressaltou.
Iniciativas e realizações
Gadelha descortinou uma série de iniciativas nas quais a Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030 / Fiocruz) tem papel fundamental na linha de frente. Essas vão desde ações de base até solução de monitoramento contra emergências climáticas com base em tecnologias digitais.

A Fiocruz e parceiros buscam desenvolver um índex de Blue Health para o Brasil, novo indicador focado em integrar a saúde humana ao monitoramento dos oceanos. Atualmente, o país está pouco acima da média global de OHI – métrica composta global – em índices de saúde oceânica e ocupa a 62ª posição entre 220 regiões. Mas esses dados ainda não incorporam adequadamente a saúde humana. “No último Relatório Nacional Voluntário (RNV) tivemos muitas dificuldades com a área de oceanos, por falta de dados e métricas. É uma área que a gente precisa evoluir mais”, salientou.
A iniciativa de desenvolver o índex busca, segundo Gadelha, superar as limitações dos modelos atuais, como a escassez de dados confiáveis, a necessidade de diálogo transdisciplinar e a adaptação de métricas globais para realidades de contextos regionais. O projeto busca unir elementos de biotecnologia, territórios locais e integridade ecológica. A proposta enfatiza a necessidade de diálogo transdisciplinar e de metodologias que considerem múltiplas escalas geográficas. “Um índice de saúde dos oceanos que não incorpora a saúde humana permanece incompleto. A proposta de Uma Só Saúde Azul é avançar para métricas capazes de relacionar integridade ecológica, serviços ecossistêmicos e bem-estar humano, com variáveis diretamente associadas à vida das populações”, explicou Gadelha.
Potencial da Biotecnologia Azul
A exploração sustentável dos oceanos pode gerar produtos farmacêuticos inovadores, como fármacos que podem ir de novos analgésicos a medicamentos oncológicos e antiviróticos, cosméticos, enzimas industriais e aplicações biotecnológicas em saúde, veterinária, meio ambiente, biorremediação e agricultura. Um potencial econômico e terapêutico da biotecnologia que pode chegar a US$ 8,74 bilhões no mercado global de 2026, mas ainda existem obstáculos significativos relacionados a normas regulatórias e à distribuição justa de lucros. Gadelha ressaltou que tais avanços acontecem com apenas 5% do ambiente marinho explorado até hoje. “O oceano é a última grande fronteira para a inovação científica e farmacêutica”, salientou.
Nesse campo, destacou também aplicações avançadas como a Bioprospecção Avançada – descoberta de extremófilos e micro-organismos para o desenvolvimento de antibióticos e fármacos de nova geração; Aplicações Clínicas – mais de 1.500 moléculas em ensaios clínicos, com foco em tratamentos oncológicos e doenças degenerativas; Metodologias Ômicas – Uso de Genômica, Metagenômica e Bioactivity Screening para identificar enzimas e compostos bioativos inovadores e Biorremediação – desenvolvimento de processos industriais e ambientais para restauração de habitats e controle de poluentes.
Fioantar
O vultoso projeto Fioantar, criado em 2018 na Antártica e que faz parte do projeto estratégico Proantar (MCTI/CNPq/SECIRM), foi mencionado por Gadelha. Com o Fioantar são possíveis a vigilância patogênica, o monitoramento dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas virais, bacterianos e parasitários, e a descoberta de enzimas biológicas e moléculas inéditas.
Participação do público
A parte destinada à Justiça Ambiental e Tecnologias de Integração na Gestão Costeira foi a que mais teve perguntas e comentários do público presente no final da apresentação, principalmente quanto à sustentabilidade de projetos em comunidades tradicionais. Gêmeos Digitais – representações virtuais altamente precisas de objetos, sistemas ou processos do mundo real – e dados, impactos de turbinas eólicas na saúde mental, não exatidão dos índices de saúde oceânica numa realidade tropical, acidentes com animas marinhos principalmente com pescadores, e surgimento de novos patógenos decorrentes das mudanças climáticas também resultaram em indagações ou posicionamentos da plateia.

Gadelha descreveu a importância de integrar a justiça ambiental e a equidade nas discussões sobre o futuro da Agenda 2030, com prioridade para as comunidades costeiras. Passou como bons exemplos do trabalho feito nesse sentido a Rede Marangatu, na qual a Fiocruz participa com parcerias – concebida com o objetivo de implantar na região costeira marinha uma rede de pesquisa cidadã e desenvolver estudos integrados em biodiversidade com foco no Polígono Piloto da Bocaina, uma área de 3.000 km2 entre Angra dos Reis (RJ) e Ubatuba (SP), estendendo-se a uma universidade do Chile e duas de Portugal, e o Projeto Bocaina – iniciativa da Fiocruz voltada para o desenvolvimento na região do Mosaico da Bocaina, área localizada entre os estados do Rio de Janeiro e São Paulo com 323.906 habitantes e 200 comunidades tradicionais. A Bocaina tem governança horizontal, atuando junto a comunidades tradicionais, principalmente caiçaras, quilombolas e indígenas, além de pescadores artesanais.
As comunidades tradicionais nesses locais possuem o mesmo poder de decisão que instituições científicas. Um ponto central, segundo Gadelha, é a superação da barreira entre tecnologias sociais ancestrais e tecnologias de ponta, como os Gêmeos Digitais, para fortalecer a proteção dos ecossistemas. Essa abordagem promove uma ecologia dos saberes, unindo conhecimentos locais à ciência avançada para não deixar ninguém para trás na gestão do oceano. Através de parcerias amplas e internacionais, busca-se criar modelos de gestão integrada que valorizem o custo humano e a sustentabilidade dos territórios.
Integração de tecnologias sociais e de ponta
Mesmo ainda em fase final de avaliação, o projeto Global Coast, parte do programa Coedict da ONU, foi apresentado por Gadelha, porque ele o considera extremamente importante, dadas as perspectivas de integração entre as tecnologias sociais e as de ponta com grande possibilidade de documentação para o polígono. Os pontos centrais do modelo incluem a conexão entre tecnologias ancestrais e digitais, a gestão integrada e amplas parcerias. Algo que, de acordo com Gadelha, é desejado pela Fiocruz há muito tempo.
Mais projetos inovadores no estado do Rio de Janeiro
Outros projetos de Uma Só Saúde Azul no estado do Rio de Janeiro tiveram destaque na palestra: o da Lagoa de Araruama para monitoramento ambiental integrado (biológico, químico e físico), modelagem oceânica e desenvolvimento de índice específico para a saúde humana e ecossistêmica, e na Ilha Furtada, no município de Mangaratiba, uma ação internacional, fruto de parceria entre a Fiocruz, Secretaria de Meio Ambiente local e universidades para mitigar o adoecimento de mamíferos marinhos e restaurar o equilíbrio ecológico. “Essa ilha tem uma história muito interessante: as pessoas se viam livres de seus animais, principalmente gatos, jogando-os na ilha. Não tem cadeia alimentar. Começou um processo de doenças”, contou Gadelha – há grande incidência de toxoplasmose.
Brasil e o mundo
No cenário internacional, Gadelha destacou algumas iniciativas e decisões importantes que fortificam Uma Só Saúde Azul. O One Health Festival, apoiado pelo presidente da França Emmanuel Macron, acontece desde 16 de março e vai até 15 de maio, com 200 eventos na França e no mundo, incluindo cinco no Brasil e com a participação da EFA 2030/Fiocruz, a fim de demonstrar a importância da abordagem Uma Só Saúde Azul. Em atividades realizadas no próprio Brasil, o horizonte da conexão nacional e internacional tem solidez nas parcerias desenvolvidas pela EFA 2030/Fiocruz, na reconhecida importância do Ministério da Saúde pela adoção do conceito e planejamento oceânico, e na Conferência da Década do Oceano da ONU, prevista para acontecer em 2027 no Brasil. “Vai ser a grande oportunidade de a gente ter aqui no Brasil muitas das questões para ter o impacto e o peso da experiência brasileira (…) e também na consolidação de alguns avanços em ferramentas”, ressaltou Gadelha.
Mais alicerces
Decisões recentes na esfera internacional solidificam ainda mais Uma Só Saúde Azul. Dois acordos são considerados vitais: o Tratado BBNJ, que, a partir de 17 de janeiro de 2026, estabelece o primeiro marco legal para conservar biodiversidade em alto mar, e o Pacto Oceânico Europeu, de junho de 2025, marco unificado para políticas oceânicas da União Europeia com seis prioridades: saúde oceânica, economia azul sustentável, comunidades costeiras, pesquisa e inovação, segurança marítima e governança global.
Em um plano geral, o conceito de Uma Só Saúde Azul se consolida com a convergência das ferramentas ROVs, sensores avançados, IA e mapeamento de alta resolução; na vontade política: tratados globais (BBNJ, WTO, compromissos nacionais e Década do Oceano; instrumentos de política: financiamento azul, regulamentações, MPAs em alto mar. “Pela primeira vez, temos uma convergência concreta entre ferramentas tecnológicas, vontade política e instrumentos de governança. Por isso, Blue One Health deixa de ser apenas uma visão conceitual e passa a ser uma agenda realizável para 2026-2030”, frisou.

Propostas e evocação
A pedido dos organizadores da sessão especial, Gadelha deixou três propostas: incrementar o protagonismo da saúde no tema oceano a exemplo das fortes conexões entre saúde, Agenda 2030 e mudança climática; superar a visão tradicional da conexão saúde e oceano centrada nos riscos para a saúde humana e consolidar a abordagem de Uma Só Saúde; desenvolver projetos, parcerias, tecnologias e metodologias de monitoramento para o conceito, e construir visibilidade e legitimidade para incorporação nas referências internacionais sobre oceano.
No final da apresentação, Gadelha evocou a mobilização nacional dos cidadãos para a Conferência Nacional ODS, de 29 de junho a 2 de julho de 2026, em Brasília.

