Às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, a ONU lançou, em 19 de março, o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento da Água 2026 com um alerta contundente: a escassez de água e a falta de saneamento atingem de forma desproporcional mulheres e meninas em todo o mundo. Mais do que um problema ambiental ou de infraestrutura, a crise hídrica aprofunda desigualdades sociais, educacionais, econômicas e de saúde.
O relatório mostra que, nas áreas rurais sem abastecimento por rede, são mulheres e meninas que buscam água em mais de 70% dos domicílios. Somadas, elas gastam 250 milhões de horas por dia nessa tarefa. É um tempo arrancado do estudo, do trabalho remunerado, do descanso e da autonomia.
Os efeitos se espalham por toda a vida cotidiana. A falta de água compromete a saúde, reduz a frequência escolar, aumenta a sobrecarga do trabalho doméstico e limita a participação econômica feminina. Ainda assim, as mulheres seguem sub-representadas na governança e na gestão da água, o que ajuda a perpetuar soluções desenhadas sem levar em conta quem mais sofre com a escassez.
O peso dessa desigualdade também aparece nos impactos da crise climática. Segundo o relatório, um aumento de 1°C na temperatura reduz a renda de lares chefiados por mulheres em 34% a mais do que a de famílias chefiadas por homens. Além disso, amplia a jornada semanal de trabalho das mulheres em 55 minutos, em média, em relação à dos homens.
O saneamento precário agrava ainda mais esse quadro. Um estudo citado no relatório estima que 10 milhões de adolescentes em 40 países de baixa renda deixaram de frequentar escola, trabalho ou atividades sociais entre 2016 e 2022 por falta de banheiros adequados. Em 2024, último ano com dados disponíveis, mais de 2,1 bilhões de pessoas ainda não tinham acesso à água potável gerenciada com segurança, e 3,4 bilhões viviam sem saneamento confiável.
A desigualdade também aparece na estrutura do setor. Em 28 países em desenvolvimento, menos de uma em cada cinco pessoas empregadas em empresas de abastecimento de água era mulher. Ao mesmo tempo, a precariedade da água e do saneamento em unidades de saúde segue expondo mulheres a riscos evitáveis, inclusive durante o parto, além de aumentar a vulnerabilidade à violência de gênero em trajetos longos para coleta de água.
Mas o relatório também mostra que essa realidade pode mudar. Em Rumate, no Quênia rural, uma iniciativa apoiada pela World Vision perfurou um poço em uma comunidade em que mulheres caminhavam até quatro horas por dia para buscar água. Elas participaram da obra, ajudaram a organizar um comitê local, criaram grupos de poupança e passaram a tocar pequenos negócios. O impacto foi além do acesso à água: houve melhora na saúde das crianças e mais tempo disponível para cuidado, renda e organização comunitária.
A principal mensagem do relatório é clara: garantir água e saneamento é também enfrentar desigualdades de gênero. Quando o acesso à água melhora e as mulheres participam das decisões, o benefício não é individual nem setorial. Ele se espalha por toda a comunidade.
Fonte: Women and girls bearing brunt of water shortages globally, UN warns / The Guardian

