Calor extremo impulsiona sedentarismo e pode provocar até 520 mil mortes até 2050

Está provado: o aquecimento global não mata apenas por insolação, enchentes ou desastres naturais. A crise climática pode empurrar milhões de pessoas para o sedentarismo. A idéia aqui é simples: com o aumento do calor, reduz-se a disposição para o desempenho de atividades corriqueiras, como caminhar, correr ou mesmo brincar ao ar livre. 

Ao induzir a um aumento do sedentarismo, o aquecimento global projeta seus efeitos sobre  mortalidade, doenças crônicas e perdas econômicas. É o que revela artigo publicado na The Lancet Global Health. Nele, também se lê que o aumento da inatividade física associado ao calor pode resultar em 470 mil a 520 mil mortes adicionais até 2050, com perdas anuais de produtividade entre US$ 2,4 bilhões e US$ 2,59 bilhões.

Para chegarem a suas conclusões, os pesquisadores desenvolveram um modelo baseado em pesquisas sobre atividade física e registros de temperatura de 156 países, no período de 2000 a 2022. Segundo seus achados, cada mês adicional em que a temperatura média ultrapassou cerca de 28ºC coincidiu com um aumento de 1,4 ponto percentual na inatividade física em nível global.

Já se prevê que o sedentarismo irá aumentar nas próximas décadas, dependendo de uma série de cenários climáticos potenciais — incluindo um aumento da temperatura média de 1,7% ou 2% em meados do século, em comparação com os níveis pré-industriais. Hoje, o mundo está a caminho de aquecer entre 2,7 e 3,1 graus Celsius até 2100, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

Os pesquisadores verificaram que o padrão de  aumento do calor e diminuição da atividade física concentrou-se em países de baixa e média renda. Já os países de alta renda não apresentaram mudanças estatisticamente significativas.

Christian Garcia-Witulski, autor principal do artigo, afirmou em um e-mail endereçado ao Washington Post que o calor pode tornar as caminhadas rotineiras para o trabalho, escola e compras mais cansativas. Além disso, pode desestimular a prática regular de exercícios físicos quando as pessoas não têm acesso a academias e dependem de atividades ao ar livre. Para ele, algumas mudanças são mais sutis. Christian explica que as pessoas não param de se movimentar abruptamente.  “O que acontece é que o calor gradualmente reduz as oportunidades seguras, confortáveis ​​e práticas que as pessoas têm para se manterem ativas no dia a dia.” . Um trabalhador que deixa de fazer uma longa caminhada para casa nos meses mais quentes, troca a bicicleta pelo carro para ir ao trabalho ou se sente muito exausto para se exercitar depois de passar horas exposto ao calor.

Há também disparidade entre gêneros na associação “temperaturas mais altas e inatividade física”. Tal associação foi mais acentuada no passado entre mulheres, com um aumento de 1,69% na inatividade entre as mulheres, comparado a 1.18 pontos percentuais entre homens. Os cientistas preveem que esta disparidade se manterá nas próximas décadas. 

O modelo apresenta limitações, incluindo o fato de a atividade física dos participantes ter sido autodeclarada e poder estar enviesada. Mas em uma pesquisa desta magnitude, envolvendo dezenas de países, com renda distinta, ao longo de décadas, fica inviável o emprego de Apple Watches para obter dados mais precisos.

“Tratar a atividade física como uma necessidade sensível ao clima — em vez de uma escolha de estilo de vida discricionária — será essencial para evitar uma transição para o sedentarismo impulsionada pelo calor e o consequente aumento de doenças cardiometabólicas e perdas econômicas”, escreveram os pesquisadores.


Fonte: Inactivity in a warming world could spur hundreds of thousands of deaths / The Washington Post