A Copa do Mundo de 2026 começou na quinta-feira (11) com 48 seleções, três países e um detalhe que nenhuma cláusula de regulamento resolve: o clima. Vendo a cobertura internacional se acumular nos últimos dias, dá pra perceber um padrão. Quase todo grande veículo tratou o torneio menos como festa e mais como como um experimento sobre até onde é possível jogar futebol em um planeta mais quente
O New York Times abriu sem rodeios: “O calor também deverá ser intenso para atletas e espectadores.”. Desde a última Copa nos EUA, em 1994, a temperatura média subiu cerca de 1,3°F, e o calor extremo em junho e julho triplicou nas 10 cidades-sede que já tinham recebido jogos antes. A seleção inglesa, aliás, foi treinar em Miami justamente para se acostumar com isso.
A medida que volta e meia aparece nas reportagens é a temperatura de bulbo úmido (um índice que junta calor, umidade, sol e vento pra estimar se o corpo ainda consegue se resfriar). Mike Tipton, da Universidade de Portsmouth, resumiu bem ao The New York Times (NYT): “As mudanças climáticas já estão afetando o espetáculo que você vê.” Em jogos muito quentes, segundo ele, tudo fica mais lento: menos sprints, menos distância percorrida, mais chance de decisão nos pênaltis.
Os números mudam de fonte para fonte, mas vão todos na mesma direção. O NYT, citando a World Weather Attribution (Imperial College London), fala em um quarto das 104 partidas em condições de risco, com cinco jogos acima dos 28°C de bulbo úmido, limite considerado “inseguro”. O Guardian foi mais longe: citando estudo da Dra. Madeleine Orr (Universidade de Toronto), diz que 14 das 16 cidades-sede podem passar de 28°C em junho e julho, patamar que a Fifpro (sindicato mundial e organização representativa global de mais de 70 mil jogadores e jogadoras profissionais de futebol) já considera suficiente para suspender uma partida.
Já a Reuters, em texto também publicado pela CNN Brasil, trouxe um dado que chama atenção: segundo a Climate Central, as mudanças climáticas aumentaram a chance de o calor prejudicar o desempenho em 97 das 104 partidas. O extremo seria Uruguai x Espanha, em Guadalajara, no dia 26 de junho: 70% de chance de o calor atrapalhar, 37 pontos percentuais a mais do que seria sem aquecimento global.
E não é exagero de cientista preocupado, não. Chris Minson, da Universidade de Oregon, lembrou à Reuters que atletas de elite já produzem um calor interno absurdo só de jogar, antes mesmo de entrar o clima na conta: “Setenta e cinco por cento de toda a energia que utilizamos durante o exercício é convertida em calor. Apenas cerca de 25% é usada para realizar o exercício em si.” E foi taxativo sobre o que fazer se alguém passar mal em campo: “Se você tiver um jogador que pareça estar delirando, que não esteja pensando direito ou que desmaie em campo, você precisa acalmá-lo imediatamente.”
Foi por causa de números assim que 21 cientistas (entre fisiologistas e especialistas em clima) mandaram carta à Fifa no mês passado, chamando as regras atuais de “impossíveis de justificar” e pedindo pausas mais longas e refrigeração “agressiva” nos vestiários. A entidade respondeu com um pacote de medidas: pausa obrigatória de três minutos para hidratação em cada tempo (inédito numa Copa), bancos climatizados para os reservas, jogos remarcados para a noite nas cidades mais quentes e bolsas de resfriamento pra atendimento médico na hora.
Só que, mesmo nos estádios com cobertura ou ar-condicionado (Atlanta, Dallas, Houston), o estudo da World Weather Attribution avisa que quem está do lado de fora continua exposto: torcedor em fila, área de telão ao ar livre, comemoração na rua. Joyce Kimutai, do Imperial College London, citou Miami, Kansas City e Filadélfia como pontos especialmente sensíveis.
Tem ainda a questão da altitude, que quase ninguém comenta: Ryan Calsbeek, do Dartmouth College, lembrou à Reuters que a Cidade do México fica a cerca de 2.240 metros, e isso pode pesar bastante para seleções que vêm de regiões baixas sem tempo de se aclimatar. A cidade recebe cinco jogos.
Se o calor é o problema mais visível, a pegada de carbono é o que mais incomoda a longo prazo. Uma avaliação da plataforma Greenly, divulgada semana passada e citada pela Reuters/G1, estima 7,8 milhões de toneladas de CO₂ para o torneio: mais que o dobro do Catar 2022 (3,8 milhões), equivalente às emissões anuais de Serra Leoa inteira. E cerca de 87% disso vem de viagens, principalmente de avião.
A explicação é meio óbvia quando se para e pensa: três países, 16 cidades, 48 seleções (eram 32 no Catar), distâncias enormes, avião praticamente obrigatório. David Gogishvili, geógrafo da Universidade de Lausanne, resumiu bem o paradoxo à Reuters: “Aumentar o número de seleções e colocá-las em um país onde é preciso primeiro fazer uma viagem significativa de avião para chegar lá e, depois, viagens significativas entre os locais-sede, tudo bem, estamos eliminando uma fonte de impacto ambiental negativo, mas, ao mesmo tempo, estamos aumentando outra.” Madeleine Orr foi na mesma linha, mas mais direta: “Acho que a Copa do Mundo, em teoria, é realmente divertida para o esporte e para a visibilidade, mas ruim do ponto de vista climático.”
A Fifa disse à Reuters que está implementando “iniciativas ambientais”: uso de estádios já existentes, incentivo a transporte público, menos gerador a diesel, reciclagem. O que ela não fez foi colocar uma meta de carbono específica para esta Copa, mesmo tendo prometido na COP26 cortar emissões pela metade até 2030.
E é exatamente esse ponto que o The Guardian explorou com mais vigor. Em artigo de opinião, Jules Boykoff chamou o torneio de possível “catástrofe climática” e citou projeções de até 9 milhões de toneladas de CO₂ (podendo chegar a 13,7 milhões no pior cenário), só de avião. Para ilustrar, ele lista rotas quase cômicas de tão ruins: a Bósnia e Herzegovina vai rodar mais de 5 mil quilômetros entre Toronto, Los Angeles e Seattle, com base de treino em Salt Lake City; a Argélia faz cerca de 4.800 quilômetros entre Kansas City e São Francisco, ida e volta; a República Tcheca emenda Guadalajara, Atlanta e Cidade do México, mais de 4.500 quilômetros.
Tem também a polêmica do patrocínio: em 2024 a Fifa fechou parceria de quatro anos com a Aramco, estatal saudita de petróleo e maior emissora corporativa de gases-estufa do mundo. Mais de 100 jogadoras profissionais assinaram carta contra o acordo. A capitã canadense Jessie Fleming não poupou palavras: “Aramco é um dos maiores poluidores do planeta que todos chamamos de lar. Ao aceitar o patrocínio da Aramco, a Fifa está priorizando o lucro em detrimento da segurança das mulheres e do planeta.”
Resumindo com a frase da própria Reuters/CNN Brasil: para a Fifa, essa Copa é uma vitrine logística. Para cientistas, jogadores e técnicos, é também um teste de quanto o futebol (e quem assiste) suportam um mundo cada vez mais quente.
Crédito de imagem: Foto de Johannes Hübner na Unsplash
Fontes:
- Also Expected to Take the Field at the World Cup: Hazardous Heat / New York Times
- Copa do Mundo de 2026 pode ser a mais poluente da história, apontam especialistas / G1
- Clima instável do verão ameaça transformar Copa do Mundo em teste de calor / CNN Brasil
- ‘Green card for the planet’? Fifa’s World Cup is on pace to be a climate catastrophe / The Guardian

