Especialistas discorrem sobre as ondas de calor na saúde e situações climáticas provocadas pelo fenômeno
Há pouco mais de um mês, no dia 9 de julho, o Centro de Previsão Climática dos EUA, vinculado à agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA), que monitora as temperaturas na água no Oceano Pacífico na Região Equatorial, informou que existe a probabilidade de 81% do fenômeno El Niño ser muito forte, entre outubro e dezembro deste ano, com aquecimento em torno de 3ºC, classificação de “muito forte intensidade”, e duração até abril de 2027. Pode ser o mais intenso desde 1950.
Devido a isso, no último dia 5 de agosto, foi realizado, com transmissão on-line, o painel técnico-científico “El Niño, ondas de calor e saúde: o que sabemos e o que precisamos fazer”, organizado pelo projeto de cooperação técnica e internacional Ciência&Clima, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, para esclarecer à sociedade quanto aos impactos socioambientais desse fenômeno na saúde humana no Brasil.
Os painelistas foram Gilvan Sampaio, especialista em El Niño e pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Cptec/Inpe), e Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz Piauí e autora de estudo sobre o assunto. Sávio Raeder, supervisor da componente de impacto, vulnerabilidade e adaptação no Ciência&Clima, conduziu o painel.
Ondas de calor e saúde
Os efeitos das ondas de calor na saúde foram abordados por Oliveira com base no estudo “Saúde e ondas de calor do Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS”. Por meio de mapas de novembro de 2023 e de setembro de 2024, ela mostrou os impactos das temperaturas mais extremas na mortalidade e morbidade, e também nos serviços de saúde.

Segundo ela, o efeito direto do calor humano no corpo humano está relacionado ao chamado “estresse por calor”, ou seja, quando estamos expostos a temperaturas elevadas, tem-se que fazer a troca de calor interna e externa. É preciso perder e manter essa balança equilibrada, prosseguiu, e o estresse por calor acontece quando o seu corpo não consegue mais mantê-la equilibrada. “Aí, você acaba ganhando mais calor do que aquilo que você consegue dissipar”, explicou.

O estudo, feito em duas etapas – “Clima e Síntese”, e “Efeitos e Impactos” – com o Ciência e Clima e o ProAdapta, da Rede pelo Clima, e relacionado à grande parte dos municípios brasileiros, procura vincular alguns sistemas do corpo que poderiam atuar na termorregulação. Entre eles, os sistemas cardiovascular e respiratório, e o renal, mas também com influência em outros sistemas, como o mental. Por isso, conforme Oliveira, fica-se muito mais irritado, a produtividade baixa e a capacidade de conseguir se concentrar diminui, além de fatores metabólicos. “A gente consegue medir esse impacto em algumas características, desde manifestações leves até de maior gravidade”, salientou.
Reflexos das ondas de calor na saúde baseados no estudo
- Oitenta por cento vão ficar nas manifestações leves
- Em praticamente todo o país, aumento de internações por doenças respiratórias – 15% de mortalidade em quase todo território brasileiro – e urinárias
- Aumento do risco de morte por doenças cardiovasculares, não necessariamente com internações, em todas as regiões do país
- Na duração mínima de dois dias, já se observa efeito na mortalidade
- Em termos de duração (dias), observou-se mais efeitos negativos à saúde nas regiões Centro-Oeste e Norte
- De intensidade, nas regiões Sudeste e, principalmente, na Sul
- Alguns grupos estão mais sujeitos à internação hospitalar e a óbitos: idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores ao ar livre, principalmente com tarefas pesadas, e a população em situação de vulnerabilidade, por falta de acesso à hidratação e climatização
- Para crianças, exceto na região Norte, onde prevaleceram as doenças muito relacionadas ao sistema respiratório, observou-se tendência a todas as outras enfermidades
- Aumento de gastroenterites, sobretudo na Centro-Oeste, com cerca de quase 28% de internação Nos idosos, tendência muito similar à população em geral e também para doenças endócrinas e metabólicas, com exceção da região Norte, incluídas as diabetes mellitus
- As mulheres apresentaram maior risco de óbito
- Quanto maior o grau de escolaridade, menor o risco de óbito
- Primeiro sinal clínico é a desidratação.
Alarde sobre o El Niño
O aquecimento anômalo do Pacífico que altera o clima global foi detalhado por Sampaio, e entre as previsões, estão secas intensas na Amazônia e no Nordeste, e chuvas extremas na região Sul. Segundo ele, é um equívoco dizer que o El Niño muda o volume de chuvas no Sudeste ou Centro-Oeste, onde o impacto principal é o aumento das temperaturas. Ele fez comparação com a incidência do El Niño em outros períodos, e disse que ainda não dá para saber se terá os mesmos impactos dos ocorridos em 2023 e 2024. Criticou as notícias que têm saído sobre o assunto nos últimos meses. “Tem havido muito alarde em relação ao fenômeno”, disse.

Alguns dados do El Niño apresentados por Sampaio:
- Ocorre em média a cada dois a sete anos
- Dura de 12 a 18 meses
- Em 2023, a temperatura média do planeta foi recorde, atingindo 1.45ºC acima dos níveis pré-industriais
- No El Niño de 1997-98, a temperatura chegou a 5,5ºC acima da média em algumas regiões
- Estudos do Inpe indicam aumento da duração de períodos quentes persistentes nos últimos 60 anos
- Enorme área de aquecimento: cerca de 11 mil quilômetros de extensão por 3 mil quilômetros de largura
- Atinge até 300 metros de profundidade

No Brasil
- As previsões indicam o auge do El Niño entre outubro e dezembro de 2026, com aquecimento em torno de 3ºC (intensidade muito forte). Isso tem base no boletim conjunto (Inpe, Instituto Nacional de Metereologia – Inmet e Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico – ANA, entre outros)
- Os impactos no Brasil variam por região
- Tendência de chuvas cada vez mais escassas no Norte e Nordeste e mais abundantes no Sul, com temperaturas extremas
- No verão, continua quente, com chuvas acima da média no Sul e risco de secas no Norte e Nordeste
- Tendência é de chuvas cada vez mais escassas no Norte e Nordeste e mais abundantes no Sul, com temperaturas extremas

