Webinário debate riscos da contaminação das águas para a saúde humana e animal

O primeiro webinário da Iniciativa Nacional sobre Uma Só Saúde Azul reuniu, na manhã de 16 de setembro, quatro especialistas para discutir os riscos globais associados à degradação dos oceanos e dos recursos hídricos e à contaminação dos ambientes marinhos. Intitulado “Saúde animal, ambiental e humana”, o encontro foi apresentado por Andrei Polejack, diretor de pesquisa e inovação do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), e moderado por Priscila Lange, pesquisadora da UFRJ. A iniciativa é realizada pela Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030), pelo INPO e pela Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano/USP e prevê outros três webinários e um workshop.

No webinário, Carla Campos, assessora técnico-científica em Uma Só Saúde Azul na EFA 2030 e diretora-adjunta do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz), lembrou que a degradação dos oceanos e dos recursos hídricos amplia riscos à saúde, como o surgimento de zoonoses e a propagação de doenças como leptospirose e toxoplasmose. “A preservação ambiental e o saneamento básico são pilares essenciais para prevenir futuras pandemias e garantir a saúde planetária”, disse.

Carla Campos, assessora técnico-científica de Uma Só Saúde Azul na EFA 2030

Para reduzir esses riscos, Campos defendeu a integração entre saúde pública, saúde animal, conservação ambiental, saneamento e vigilância. Segundo ela, a abordagem Uma Só Saúde Azul (Blue One Health) ajuda a compreender as conexões entre terra, água, animais e pessoas e a orientar ações de prevenção. A pesquisadora também destacou a importância da biodiversidade marinha para o bem-estar social e a segurança sanitária. Essa abordagem é adotada no projeto de extensão e pesquisa “Estratégia de Uma Só Saúde na Ilha Furtada”, conhecida como Ilha dos Gatos, em Mangaratiba (RJ), na Costa Verde.

Segundo Campos, na Ilha dos Gatos vivem cerca de 700 gatos abandonados. A pesquisadora relatou a circulação do Toxoplasma gondii, agente causador da toxoplasmose, naquele habitat e apontou a possibilidade de que material contaminado chegue ao ambiente marinho pela água da chuva. Ela levantou ainda a hipótese de contaminação de botos da Baía de Sepetiba, mas mencionou que há outras possíveis fontes de contaminação na região, entre elas a falta de saneamento.

Várias razões para a contaminação das águas oceânicas

Os tipos de contaminação gerados pelos seres humanos nos meios marinho e terrestre fizeram parte da apresentação de Amanda Pontes Lopes, bióloga e pesquisadora do ICTB/Fiocruz na área de Uma Só Saúde. Segundo ela, todos, de certa forma, vão chegar no mar, como os fertilizantes utilizados na pecuária, lixo e esgoto não tratados, acarretando impactos e desequilíbrio no ecossistema. Isso, prossegue Lopes, reflete-se na subsistência dos animais e, consequentemente, quando consumidos pela população, na saúde pública, como no caso dos pescados. Dificuldades para quem vive da pesca são esperadas.

Amanda Pontes Lopes, pesquisadora do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz)

Entre as contaminações mencionadas por Lopes encontram-se:

Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPA)

  • São lançados na atmosfera por atividades naturais
  • Entre essas atividades estão os incêndios florestais ou erupções mecânicas, e ações humanas, como queima de combustível fóssil
  • Contaminam lençóis freáticos, solos e alimentos
  • São carcinogênicos, ou seja, causam câncer

Microplásticos e nanoplásticos

  • São materiais orgânicos poliméricos sintéticos
  • Causam poluição física das águas, e também impactam a dinâmica da flora e fauna marinhas
  • São facilmente ingeridos por animais marinhos
  • Acumulam muitos poluentes e toxinas em suas superfícies
  • Apenas 1,2% desse resíduo é reciclável

Pesticidas

  • O tempo de degradação depende da substância que é utilizada
  • Afeta a saúde humana e animal, e o meio ambiente, inclusive marinho
  • Alguns pesticidas proibidos são usados como antiencrustantes em embarcações, e acabam diluídos na água

Ingredientes farmacêuticos e medicamentos

  • Os ingredientes variam de nicotina a hormônios
  • Podem gerar, por exemplo, resistência a antimicrobianos quando o consumo é oriundo de antibióticos
  • Podem vir a provocar novas pandemias, por gerar resistência muito maior aos antimicrobianos
  • Hormônios anticoncepcionais podem causar esterilização ou mudança sexual de animal

Toxinas bioacumuláveis

  • Toxinas que podem bioacumular nos animais aquáticos
  • Podem gerar diversos problemas de saúde que levam à paralisia e destruição súbita dos músculos

Metais e metaloides

  • Possuem persistência ambiental
  • Tendência de se acumularem em um indivíduo
  • Podem levar a efeitos tóxicos à saúde
  • Podem ficar no ambiente durante muitos anos, sofrendo assoreamento e ficando no substrato marinho
  • Podem biomagnificar, fenômeno que ocorre quando há acúmulo progressivo de substâncias ou compostos químicos ao longo de uma teia alimentar
Arte ICTB

Florações de algas nocivas e resistência aos antimicrobianos

Na palestra de abertura do webinário, Silvia Nascimento, professora e coordenadora do Laboratório de Microalgas Marinhas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), abordou o panorama das Florações de Algas Nocivas (FAN) no litoral brasileiro. Das cerca de 300 espécies de microalgas capazes de formar grande biomassa e alterar a cor da água, cerca de 100 produzem toxinas potentes. Entre os principais impactos e síndromes destacados na palestra estão:  

● Ciguatera – Doença provocada por toxinas dos microrganismos dinoflagelados bentônicos (Gambierdiscus), que passou a ter casos endêmicos no arquipélago de Fernando de Noronha e surtos com quatro óbitos no Rio Grande do Norte. Consiste em intoxicação alimentar causada pelo consumo de peixes, mariscos e outros organismos marinhos. 

Doença de Haff – Conhecida como ‘doença da urina preta’, causa mialgia severa e rigidez muscular associadas ao consumo de pescados marinhos e de água doce, mantendo agente etiológico ainda desconhecido. Desde 2008, o Brasil soma 775 casos notificados, concentrados em Pernambuco, na Bahia e na região Amazônica.

Veneno Diarreico por Moluscos (DSP) – Causado pelo acúmulo de ácido ocadaico produzido por Dinophysis acuminata em moluscos filtradores. Em 2024, inundações no Rio Grande do Sul deslocaram uma pluma de água doce até o litoral de Santa Catarina e do Paraná, desencadeando uma floração atípica que interditou a extração e comercialização de moluscos por três meses.

Marinella Laport, professora e coordenadora das atividades de pesquisa no Laboratório de Bacteriologia Molecular e Marinha do Instituto de Microbiologia da UFRJ, apresentou o diagnóstico sobre a Resistência aos Antimicrobianos (RAM) em microbiomas aquáticos e a busca por soluções biotecnológicas.

Os principais achados apresentados englobaram:

  • Baía de Guanabara (RJ) – Bactérias isoladas da água e de resíduos plásticos na Enseada do Bom Jesus demonstraram resistência ao antibiótico colistina (genes MCR) e corresistência aos antibióticos quinolonas, betalactâmicos e sulfonamidas.
  • Arraial do Cabo (RJ) –Em pontos de intenso turismo de mergulho, espécimes doentes da esponja Aplysina fulva continham a bactéria oportunista Staphylococcus saprophyticus [associada a infecções urinárias humanas]. Também foram identificadas cepas do gênero Vibrio (60% com resistência ou não suscetibilidade a antibióticos clínicos) e Acinetobacter (gênero de bactéria Gram-negativa que pode causar infecções graves).
  • Fernando de Noronha – Análises em pontos de drenagem de água que chegam ao mar revelaram bactérias e fungos (Candida) com capacidade de crescimento em presença de antibióticos carbapenêmicos de uso hospitalar.

Criação de agenda nacional de Saúde Única Azul

Esse primeiro webinário da série reuniu especialistas brasileiras para discutir a implementação de um sistema de monitoramento integrado focado na Saúde Única Azul, em busca da conexão para preservação dos oceanos à saúde humana e animal.   É a primeira etapa para, por meio de diferentes áreas do conhecimento, estabelecer as bases para uma agenda nacional de pesquisa em Saúde Única Azul, principal objetivo da iniciativa.

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