Alerta de cuidado frágil para o mental e social em caso de nova pandemia

Imagem gerada por IA – Gemini

O mundo está preparado para enfrentar mentalmente e socialmente o período pandêmico? Profissionais dedicados à saúde mental expõem suas percepções sobre isso

Existem fortes alertas de especialistas em clima e saúde de que o mundo está se expondo à nova pandemia não propriamente de Covid-19, sobretudo por carecer de mais investimentos, cooperação internacional e vigilância. O último, dado este mês em relatório ligado à OMS e ao Banco Mundial, atenta para retrocessos nos indicadores de reforma sanitária, sobretudo em vacinação, financiamento e cooperação internacional. Pensa-se bastante quanto até que ponto as pessoas conseguiriam suportar mentalmente nova pandemia, em um mundo onde mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais – dado da OMS de setembro de 2025.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 (ODS) – Saúde e Bem-Estar, da Agenda 2030 – plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade encabeçado pela ONU e apoiado no Brasil, dá base a esses alertas no item 3.4: “Até 2030, reduzir em 1/3 a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis via prevenção e tratamento, promover a saúde mental e o bem-estar, a saúde do trabalhador e da trabalhadora, e prevenir o suicídio, alterando significativamente a tendência do aumento”.

Desde o fim da pandemia de Covid-19, declarado em 2023, se aventa a possibilidade de nova pandemia com publicações na imprensa mundial, algo aumentado agora com o surto de Ebola no Congo e maiores registros de mpox e hantavírus. Na brasileira, chamou bastante atenção artigo assinado por Paulo Buss, ex-presidente da Fiocruz e professor emérito, junto de duas pesquisadoras e um pesquisador visitante, todos da Fiocruz, publicado em março deste ano no jornal “O Globo” e na revista “Radis” sobre a expectativa frustrada de o mundo responder com medidas efetivas para impedir novos processos pandêmicos. Segundo os articulistas, “o que se verifica é um apagamento ou uma negação da pandemia que varreu o mundo há cinco anos”, o que significa despreparo para uma próxima pandemia.

Questão de organização social

“O ponto crítico não é se o indivíduo suporta um novo trauma, mas o quanto a sociedade se organiza para permitir uma coesão social que sustente a adaptação saudável. Se olharmos apenas para o indivíduo, ele dirá que não aguenta, mas suportou. O risco maior é a piora da organização social. (…) Precisamos de diretrizes políticas públicas que permitam que a fraternidade exista no âmbito microssocial”, recomendou Orli Carvalho, pediatra e psiquiatra da infância e adolescência do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).

Foto Arquivo pessoal

Orli Carvalho, pediatra e psiquiatra do IFF/Fiocruz

Em situações de desastres coletivos, como pandemias, enchentes, guerras, rompimentos de barragens ou grandes acidentes, estudos em saúde mental mostram que parcela significativa da população exposta pode desenvolver manifestações psicopatológicas. A OMS destacou sobre emergências e crises humanitárias que:

● A maioria das pessoas apresenta sofrimento psicológico leve e transitório;

● Uma parcela desenvolve sofrimento moderado;

● Um grupo menor evolui para transtornos mentais mais graves.

Em muitos contextos de desastre, aproximadamente:

● 30% a 50% podem apresentar sofrimento psicológico significativo;

● Cerca de 5% a 10% desenvolvem transtornos mentais mais severos, dependendo da intensidade da exposição e da vulnerabilidade social.

O destaque à saúde mental desde o início da pandemia facilitou, conforme Carvalho, a divulgação de boas práticas, mas também nutriu mercado cruel de diagnósticos e formações duvidosas. Passados seis anos, foi, segundo ele, importante o reconhecimento coletivo de que, mesmo sendo uma doença respiratória sistêmica, muitos prejuízos foram no domínio mental, o que reduziu o preconceito sobre o tema – em 18 de março de 2020, a OMS emitiu nota técnica focada no bem-estar psicossocial, antecipando que a saúde mental dominaria as preocupações. “No início, incerteza e temor eram normais – uma adaptação normal diante de uma situação anormal. Mas vimos sintomas que foram além disso. Identificamos três grandes fatores de risco: a própria infecção, o suporte clínico e os efeitos das medidas de mitigação. Hoje, acrescentamos as perdas acumuladas e repercussões socioeconômicas como riscos adicionais”, explicou.

Essa perspectiva de trauma coletivo dimensiona o impacto. Carvalho rememorou que descrevíamos essa ‘quarta onda’ da pandemia como o crescimento exponencial de transtornos emocionais – atinge, conforme reportou, 1/3 da população mundial. Mais do que listar transtornos, entende Carvalho, devemos validar o caráter sindêmico da crise, no qual diferentes níveis de repercussões afetam a saúde mental, saindo de um modelo puramente biológico. O que categorizamos como transtorno mental, prosseguiu, foi muitas vezes um epifenômeno – fato secundário que ocorre ao mesmo tempo que um fenômeno principal de questões maiores. Ele defende essa ideia de prejuízo a partir de perspectiva sindêmica, dialogando com o texto de Paulo Buss e demais articulistas, focando em contextos que organizam a sociedade, como família, trabalho e escola, que foram subitamente desorganizados.

Durante a pandemia, Carvalho era plantonista de uma semi-intensiva pediátrica e trabalhava no ambulatório de adolescentes, e por causa dela, participou de grupos de suporte para trabalhadores. Desde 2021, está integralmente no Ambulatório de Adolescentes do IFF/Fiocruz. Ele comentou que reflexos na pandemia foram iguais a uma bomba se instalar na dupla família-escola, pois as famílias se desestruturaram e os adolescentes perderam o suporte escolar e a sociabilidade, o que deflagrou sintomas depressivos e ansiosos. Muitos, recordou, sofreram com a perda de segurança alimentar e maior exposição à violência familiar.  “As repercussões vão até hoje: “Atrasos no desenvolvimento, “gaps acadêmicos e perda de habilidades sociais. Em contrapartida, houve o crescimento do uso de telas e redes sociais. O que foi sobrevivência tornou-se um problema, com muitos jovens tornando-se reféns e dependentes tecnológicos”, enfatizou.

Dados de setembro de 2025 da OMS sobre saúde mental

● Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais

● Houve uma alta ligeira, mas significativa, em relação à última recolha em 2000

● O custo indireto da depressão e da ansiedade é de cerda de US$ 1 trilhão por  ano

● Ansiedade e depressão são as condições mais prevalentes

● Mulheres são as mais afetadas

● Em países de baixa renda, menos de 10% dos que precisam recebem atendimento

Vulneráveis emocionalmente para nova pandemia

Marcello Rezende, psicólogo do Núcleo de Psicologia e Serviço Social (Nupps/Fiocruz), da Coordenação de Saúde do Trabalhador, em Brasília, avalia que as pessoas estão menos preparadas emocionalmente para enfrentar a pandemia, pois essa não serviu como preparo e virou um trauma ou um gatilho. As consequências, segundo ele, são percebidas até hoje nos atendimentos, com pessoas mais adoecidas e solitárias, e dados da Previdência Social mostram recordes anuais de afastamentos de trabalhadores por transtornos mentais, como depressão e ansiedade. Indagado se passou a haver busca intensa por felicidade depois da pandemia, Rezende respondeu: “Isso acontece e gera reflexões sobre o sentido da existência, mas em termos estatísticos e populacionais o que vemos é uma piora do quadro de saúde mental, devido aos efeitos negativos e deletérios do período”, ressaltou.

Foto Arquivo pessoal

Marcello Rezende, psicólogo do Nupps/Fiocruz

De acordo com o Ministério da Previdência, 472.328 licenças médicas concedidas representam um aumento de 68% em 10 anos. Veja quadro abaixo:

Esperava-se, no entender de Rezende, uma lição para relações mais fraternas e cuidado com a natureza, mas foi o contrário. Segundo ele, grandes corporações aproveitam para fragilizar direitos e acelerar tecnologias de algoritmização e economia da atenção, como a inteligência artificial. Recordou também o negacionismo, que faz com que as pessoas se coloquem em risco por questões ideológicas, não confiando na ciência. “Isso gerou tragédias familiares e muitos conflitos. Conheço casos de famílias que se dissolveram porque um membro negacionista passou a doença para outros”, lamentou.

Quando ‘estourou’ a pandemia, Rezende já era coordenador do Núcleo, cuja missão é olhar para as questões relacionadas ao trabalho – sofrimentos, conflitos e insatisfações, mas com a pandemia isso virou questão de vida e trabalho para todos. Teve mudança no padrão de funcionamento, com muito home office e trabalho virtual, lembrou, prejuízos na saúde mental e consequências, com impactos imediatos de distanciamento, isolamento social, alteração brusca de projetos pessoais e de trabalho sem previsão de retorno. “Gerou muita angústia e ansiedade, agravadas pelo excesso de informações e notícias contraditórias. Além disso, prosseguiu, ocorreram instabilidade financeira, perda de empregos e o alerta constante com a própria saúde e dos familiares. Houve um boom na procura por psicólogos e pediatras”, reviveu.

Dificuldades acentuadas de lidar com o próprio eu

Maria Augusta Fischer, mestre em psicologia na PUC-Rio e psicóloga clínica e jurídica, que à época da pandemia trabalhava no Centro Integrado de Atendimento à Mulher Márcia Lyra, do Governo do Estado do Rio de Janeiro, acha que a pandemia de Covid-19 trouxe à tona questões inconscientes da saúde mental que as pessoas não se davam conta, e a pandemia e o confinamento fizeram com que elas tivessem que conviver com esse eu. Segundo ela, o eu vulnerável apareceu, e o que a gente vê na pós-pandemia é um adoecimento. “As pessoas estão muito mais adoecidas mentalmente no sentido de ter dificuldades de lidar com o próximo, de ter alguma dificuldade, algum tipo de neurose que não tratava, um pânico, uma ansiedade. A pandemia, de alguma forma, potencializou esses sintomas que poderiam estar disfarçados ou escondidos e os trouxe à tona”, analisou.

Foto Arquivo pessoal

Maria Augusta Fischer, psicóloga clínica e jurídica

A nível de Brasil, mas que a gente pode pensar a nível de mundo, continuou, há angústias, ansiedades, uma busca por medicações, felicidade, tratamentos mágicos muito maior, por imediatismo de melhora nos sintomas, e isso não existe. Fischer considera que em caso de nova pandemia, as pessoas que estão nessa situação de vulnerabilidade podem ficar com problemas muito mais crônicos. “É muito difícil fazer previsão, porque eu não sou de previsões, mas vejo que, pela cronificação de demandas à saúde mental, a gente pode imaginar que uma nova pandemia poderia trazer também adoecimento psíquico maior nas pessoas, mas tudo é hipótese”, opinou.