Com dois ODS no caminho certo e oito estagnados, Brasil é 53º no índice global de desenvolvimento sustentável 

Com menos de quatro anos para o prazo final da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o mundo caminha para cumprir apenas 16,5% de suas metas: menos de um em cada seis objetivos concretos estabelecidos pelos países membros da ONU. O diagnóstico é da 11ª edição do Relatório de Desenvolvimento Sustentável (SDR 2026), divulgada na última terça-feira (23/6) pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDSN).

No que se refere ao Brasil, o país ocupa a 53ª posição entre 169 nações no Índice SDG 2026, com 74,2 pontos numa escala de 0 a 100,  onde zero representa o pior desempenho global e 100 equivale ao cumprimento integral das metas de cada indicador. O resultado coloca o Brasil acima da média regional da América Latina e Caribe, fixada em 70,5 pontos, e representa um avanço de 4,3 pontos percentuais desde 2015, quando a Agenda 2030 foi adotada. O relatório, porém, adverte que esse avanço não foi linear e inclui períodos de queda.

A pontuação sintetiza o desempenho do país nos indicadores associados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Mas, como o próprio relatório adverte, resumir 11 anos de trajetória em um único número exige leitura cuidadosa: por baixo da média, o Brasil que avança e o Brasil que estagna coexistem no mesmo índice.

O relatório descreve a trajetória do Brasil como de “curva em U”: posição relativamente alta em 2015, queda progressiva por oito anos e tendência de recuperação no período mais recente coberto pelo relatório. Entre as grandes economias, a “curva em U” brasileira é única. Para os autores do relatório, o Brasil demonstra capacidade institucional, mas carece de consistência ao longo do tempo e contrasta tanto com trajetórias de queda contínua (como é o caso dos EUA e Nigéria) quanto com trajetórias de ascensão consistente (caso da Índia, Etiópia, Indonésia e China. Só a título de comparação com o Brasil (e sua curva em U), a Índia subiu 18 posições em 10 anos; Indonésia e Etiópia, 15. 

Muita burocracia, pouca transformação

O SDR 2026 revela que o Brasil é o país que mais monitora os ODS localmente no mundo. O dado, porém, não se traduz em cumprimento de metas. O Brasil segue estagnado em oito dos 17 ODS. Estados e municípios produziram 72 Revisões Locais Voluntárias (RLV) entre 2016 e 2026. É um primeiro lugar mundial, representando quase metade do total de RLVs de quatro países somados (Brasil, Malásia, México e Argentina). Também foram realizadas no período três Revisões Nacionais Voluntárias (RNV). 

Na classificação adotada pelo relatório, em se tratando de Brasil, apenas os ODS 4 (Educação de Qualidade) e 7 (Energia Limpa e Acessível) estão “no caminho certo”, indicador adotado pelo relatório para sinalizar que avançam na velocidade necessária para atingir a meta até 2030 ou já a superaram. Por “meta” aqui, entendam-se limiares quantitativos específicos (“thresholds”), definidos pela própria equipe da SDSN por meio de consultas com especialistas, literatura científica e dados dos melhores desempenhos mundiais. 

Já com relação a “Saúde e bem-estar” (ODS 3); “Igualdade de gênero” (ODS 5); “Água potável e saneamento” (ODS 6); “Trabalho decente e crescimento econômico” (ODS 8); “Indústria, inovação e infraestrutura” (ODS 9); “Cidades e comunidades sustentáveis” (ODS 11) e “Consumo e produção responsáveis”, estamos “melhorando moderadamente”. Isto pode ser traduzido da seguinte forma: a pontuação avança a mais de 50% da velocidade necessária, mas de forma ainda insuficiente para atingir a meta até 2030.  

Na categoria “estagnado”, ODS para os quais a pontuação não muda, ou avança a menos de 50% da velocidade que seria necessária para atingir a meta até 2030, aparecem o ODS 1 (“Erradicação da pobreza”) , ODS 2 (“Fome zero e agricultura sustentável”), ODS 10 (“Redução das desigualdades”), ODS 13 (“Ação contra a mudança global do clima”), ODS 14 (“Vida na água”), ODS 15 (“Vida terrestre”), ODS 16 (“Paz, justiça e instituições eficazes”) e ODS 17 (“Parcerias e meios de implementação”). 

Nenhum dos ODS do Brasil apresentou tendência de “piora agregada”, algo que diferencia o país em relação a seus vizinhos regionais. Estagnação houve, mas não retrocesso declarado. 

Desigualdade inalterável: o ODS que ‘contamina’ todos os demais.

Na versão de 2026 do SDR, nenhum marcador é mais revelador do caráter estrutural das mazelas brasileiras do que o ODS 10 (“Redução das desigualdades”). Com apenas dois indicadores a lhe amparar (o coeficiente de Gini e a Razão de Palma), o ODS 10 é o que mais pesa sobre todos os demais. Isto porque, em saúde pública, a desigualdade de renda se traduz em desigualdade em saúde. 

A imobilidade desses dois índices não é fato isolado. Ela aparece em praticamente todos os ODS em que o Brasil emperra. Uma mortalidade materna de 66,9 por 100 mil nascidos vivos num país onde 98,4% dos partos têm assistência qualificada não faz sentido. A menos que se leia pelo filtro da desigualdade.

A cobertura chega. A qualidade do cuidado, não. Não alcança da mesma forma todas as mulheres, de todas as cores, em todos os territórios. Tuberculose em 49 casos por 100 mil é doença de pobreza e aglomeração. O Gini de 51,6 perpetua essas condições. A taxa de pobreza estagnada em 3,9% abaixo de três dólares por dia e o bem-estar subjetivo parado em 6,6 (numa escala que vai até 10) são mais do mesmo: números que deveriam se mover e não se movem.

No entanto, esta não é uma peculiaridade brasileira. No painel regional do SDR 2026, o ODS 10 aparece como estagnado na esmagadora maioria dos países da região. O problema é que o Brasil combina essa estagnação com uma pontuação de Gini que o coloca entre os mais desiguais do grupo de países de renda média-alta (51,6; dados de 2023), ou seja, aqueles países que, em tese, já teriam capacidade fiscal e institucional para avançar. 

Tome-se agora o caso da Razão de Palma, cujo limiar ideal definido pelo SDR 2026 é 1.0, alcançado somente por países escandinavos, segundo o mesmo relatório. O Brasil situa-se a 2,5 pontos acima desse limiar e não se move. Em tempo: a razão de Palma compara quanto ganha o grupo dos 10% mais ricos com quanto ganha o grupo dos 40% mais pobres. Trocando em miúdos, no Brasil, os 10% mais ricos têm 3,5 vezes mais renda que os 40% mais pobres.  

Algumas ressalvas

Os dados e classificações deste post vêm do Sustainable Development Report 2026 (SDR 2026) e o próprio documento recomenda cautela antes de qualquer conclusão apressada. O índice mede distância em relação a metas, não esforço nem política recente. Uma reforma implementada ano passado pode perfeitamente não aparecer aqui: o relatório usa a média de progresso desde 2015, não a variação do último ano. Quem espera ver o presente, vai encontrar um retrato com alguns anos de atraso.

O SDR 2026 admite também que, por defasagens nas estatísticas internacionais, pode deixar de capturar o impacto das guerras em curso e de outras crises recentes, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Além disso, cerca de 20% dos indicadores brasileiros não têm dados disponíveis. E os próprios autores recomendam não levar muito a sério pequenas diferenças de pontuação e ranking. Os resultados são sensíveis ao esquema de ponderação adotado. 

Algumas curiosidades do SDR 2026

  • A liderança global com relação ao desempenho dos ODS continua sendo fortemente nórdica. Os cinco primeiros países no SDG Index 2026 são Finlândia (87,4); Suécia (86,3); Dinamarca (85,7); Noruega (84,1) e Alemanha (84,0)
  • Nenhum país zerou os ODS. A Agenda 2030, portanto, não aparece como “cumprida”, nem nos países mais bem colocados.
  • O ODS 9 (Indústria, inovação e infraestrutura) é o maior gargalo global, com média de 52,3
  • A Coréia do Sul lidera três ODS setoriais: Erradicação da pobreza (ODS 1) ; Fome zero e agricultura sustentável (ODS 2); e Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9)
  • A pior posição geral é do Sudão do Sul, 169º lugar, com score de 39,9
  • A maior melhora de ranking desde 2015 se deu no Golfo e na Ásia: entre 2015 e 2025, os maiores saltos foram dadps por Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, ambos subindo 22 posições; Omã, 21 ; Filipinas, 21; Índia, 18

Indicadores que chamam atenção

  • Expectativa de vida: Japão lidera, com 85,0 anos; Nigéria tem o menor valor, 54,8 anos
  • Cobertura universal da saúde: Canadá lidera, com 92/100; Chade tem 26/100
  • Homicídios: Qatar tem 0,07 por 100 mil habitantes; Haiti tem 64,34 por 100 mil
  • Mulheres no Parlamento: Ruanda lidera, com 63,8%; Omã e Iêmen aparecem com 0%
  • Internet: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein e Kuwait aparecem com 100% da população usuária; Sudão do Sul tem 6,7%
  • Energia renovável: Islândia lidera, com 82, 2% da energia final; Brunei, Trinidade e Tobago e Turcomenistão aparecem com 0%.

Cláudio Cordovil Oliveira é pesquisador em saúde pública (Fiocruz) e jornalista profissional.