Como está a reciclagem nacional

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Somente latas de alumínio, papel e papelão ultrapassam em reciclagem mecânica a metade do total de material descartado

A reciclagem é algo emergente em um mundo às voltas com problemas de clima e saúde, e econômicos. Mas, segundo Luiz Augusto Galvão, conhecido como Guto Galvão, pesquisador ligado à Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030/Fiocruz), “o Brasil convive com um paradoxo: coleta quase todo o lixo que produz, porém recicla apenas uma fração mínima dele”. A meta legal da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) de reciclar 20% do lixo até 2025 não foi cumprida, e o país joga fora todos os anos algo em torno de R$ 14 bilhões, por enterrar recicláveis, de acordo com os dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrelpe), baseados em estudos da Fundação Dom Cabral (FDC), uma escola de negócios. “Reciclar é o que faz a economia circular sair do discurso. Sem triagem e reaproveitamento, metas de clima e de consumo responsável não saem do papel”, salientou Guto Galvão.

Foto arquivo pessoal

Guto Galvão, pesquisador da EFA 2030

A indústria brasileira de reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas por ano e movimenta cerca de US$ 15 bilhões – R$ 80,7 bilhões, segundo levantamento da Mastersenso – consultoria para impulsionar resultados sustentáveis –, envolvendo triagem, beneficiamento, logística, siderurgia, indústria de resina, tecnologia e certificação. Só a reciclagem mecânica de plástico faturou cerca de R$ 4 bilhões, gerou mais de 20 mil empregos diretos, em 2024, e superou 1,01 milhão de toneladas, levantamento do Movimento Plástico Transforma.

A Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Especificamente, trata-se do art. 9º, que estabelece a hierarquia para a gestão e o gerenciamento de resíduos sólidos com uma ordem clara: primeiro não gerar, depois reduzir, reutilizar, reciclar, tratar e só então mandar o rejeito para o aterro. Cada tonelada desviada do aterro é menos poluição do solo e menos gás de efeito estufa, e muito do que vira rejeito ainda pode gerar energia, seja por incineração, gaseificação ou captação de biogás.

Panorama resumido da reciclagem no Brasil

● Mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos geradas em 2025, conforme o relatório da FDC, em parceria com o Instituto Atmos, associação civil sem fins lucrativos

40% tiveram destinação inadequada, dado divulgado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), em 2025

● Taxa de reciclagem: 4,5% pela coleta formal, e 8,7% incluindo o trabalho de catadores, em 2025 (Abrema)  

● A meta legal de 20% de reciclagem até 2025 não foi alcançada

● Cerca de R$ 14 bilhões por ano em materiais recicláveis são descartados em aterros (FDC)

Comparação internacional, baseada em dados da International Solid Waste Association (ISWA)

● Brasil: cerca de 4% a 8,7% de reciclagem

● Países de renda semelhante: cerca de 16%

● Alemanha: aproximadamente 67%

Segundo Galvão, os países ricos contam com instrumentos econômicos consolidados, como a taxação do aterro, os sistemas de depósito-retorno de embalagens e a responsabilidade estendida do produtor, com metas realistas que tornam reciclar mais barato do que aterrar. Nos emergentes que avançaram, continuou, houve a universalização da coleta seletiva e a formalização do setor.  “No Brasil, aterrar ainda é barato, a coleta seletiva minoritária e o financiamento da cadeia produtiva frágil”, comentou.

Projeções

● A geração de lixo no Brasil deve crescer em mais de 50% até 2050, podendo atingir 120 milhões de toneladas por ano, segundo o relatório da Assembleia da ONU para o Meio Ambiente, de 2024

● A taxa mundial de reciclagem de lixo eletrônico (e-lixo) deve cair de 22,3% para 20% até 2030, se nada mudar, e a geração deve chegar a 82 Mt (ONU).

Na ponta da cadeia de reciclagem, está o consumidor que decide o destino de tudo: separar o seco do úmido, manter o reciclável limpo e levá-lo a ecopontos e Pontos de Entregas Voluntárias (PEVs), o que viabiliza a triagem. Nas centrais, o material é separado por tipo, cor e composição, prensado em fardos e vendido, algo já feito automaticamente por robôs em alguns países e que começa a chegar no Brasil.

Existem, no entender de Galvão, cinco gargalos que impedem a intensificação da reciclagem no Brasil:

● A falta de educação ambiental, pois 70% dos brasileiros não separam o lixo, conforme apontou pesquisa do Ibope, em parceira com a Abrelpe e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Cada brasileiro gera, em média, 384 kg de resíduos por ano, de acordo com a Abrema.

● Cerca de 1.400 municípios (25%) não têm coleta seletiva, em 4.145 o serviço é limitado (Ibope, Abrelpe e Ipea)

● Infraestrutura insuficiente, com alta taxa de rejeitos, devido à contaminação

● Faltam incentivos fiscais e a matéria-prima virgem sai, muitas vezes, mais barata do que a reciclada (Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Fundação Getúlio Vargas e iCS)

● Dependência do sistema informal de coleta: mais da metade do que é reciclado vem dos catadores, não de sistemas públicos estruturados

A base principal da economia circular – modelo sustentável que busca maximizar o uso de recursos, reduzindo desperdícios – está na reciclagem, relacionada diretamente à mitigação das mudanças climáticas, à saúde pública e à geração de emprego e renda, e consequentemente, a seis Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030:

Pouca divulgação

Para Jorge Cariuz, educador ambiental e especialista em gerenciamento de resíduos de serviços de saúde na Coordenação Geral de Infraestrutura dos Campi (Cogic/Fiocruz), há necessidade de maior incentivo de políticas públicas e mais investimento em educação ambiental e sensibilização. Muitos municípios, prosseguiu, não investem na coleta seletiva separada, como nos PEVs, e faltam investimentos em outros tipos de infraestrutura, uma cobrança efetiva da legislação e trabalho de educação ambiental. Também acha que é preciso estimular hábitos sustentáveis na população, como o tratamento de resíduos orgânicos. “Até nos veículos de comunicação vemos pouco investimento no tema reciclagem. Raramente se fala disso em horário nobre”, criticou.

Foto captada em plataforma on-line de conferências

Jorge Cariuz, gestor e educador ambiental na Cogic/Fiocruz

A reciclagem não só na Fiocruz com a gestão de resíduos, mas para a política do Brasil todo, é, segundo, Cariuz, um dos principais instrumentos para promover o desenvolvimento sustentável, reduzir impactos ambientais e impulsionar a economia circular. No Brasil, os resíduos que têm maior valorização na reciclagem são as latas de alumínio e os metais. Ele considera um pilar para isso os catadores, assim como nas coletas de papel e papelão, mesmo assim, observou, são pouco valorizados. No Brasil, correspondem a 90% dos que fazem a retirada de materiais, estimativa de 800 mil trabalhadores, dos quais cerca de 70% são mulheres. “Na Fiocruz, grande parte da reciclagem é para papel e papelão, principalmente das fábricas de vacinas. Fazemos campanhas educativas para redução de consumo, mas o volume de papelão que chega é muito grande”, ressaltou.

O alumínio lidera o índice geral de reciclagem no Brasil porque a sucata tem alto valor de mercado e paga pela coleta. Já vidro e plástico ficam na base do índice, pelo baixo valor da sucata, e o índice acompanha a economia do material.

Cobiçado alumínio

97,3% das latas de alumínio foram recicladas mecanicamente em 2024: 33,9 bilhões de unidades, ou 417,7 mil toneladas. Durante 16 anos consecutivos, acima de 96%, dados da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas) e Recicla Latas

● As latas de aço ficaram em 47,1%, segundo a Associação Brasileira de Embalagem de Aço (Abeaço) – distância de mais de 50 pontos explicada pelo valor da sucata: a tonelada de latinha de alumínio vale muito mais do que a de aço, o que estrutura a cadeia de coleta em torno dela

● A reciclagem do alumínio consome até 95% menos energia que a produção do metal primário

57% do alumínio consumido no país já vem de material reciclado

Imagem gerada por IA / Gemini

Números de outros materiais reciclados mecanicamente

Papel e papelão – taxa de recuperação em torno de 66,9%, percentual da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), em 2024

Plástico geral – taxa pós-consumo de aproximadamente 25,6%, em 2022 (com variações por polímero e forte dependência de metas de economia circular), consoante a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast)

● Vidro – 25%, limitada pelos custos logísticos de transporte do caco, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), em 2024

● Embalagens Longa Vida (Tetra Pack) – 35,9%, pelo acompanhamento da Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre)

‍● PET – 37%, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet)

Resíduos e destinações, pelos dados da Abrema

Resíduos sólidos urbanos (RSU) – 81,6 milhões de toneladas

Resíduos secos enviados para reciclagem – 7,1 milhões de toneladas (8,7%)

Destinação ambientalmente adequada (aterros sanitários) – 59,7%

Destinação inadequada (lixões e aterros controlados) – 40,3%

Lixo eletrônico

● Brasil gera 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, consoante a Green Eletron e Painel TIC

● 5º maior gerador mundial (Green Eletron e Painel TIC)

● Apenas 3% são reciclados adequadamente, com base em dados da ONU

Benefícios climáticos

O estudo de 2025 “Impactos da Reciclagem na Emissão de Carbono”, da Planton, empresa de tecnologia voltada para a sustentabilidade, com o eureciclo, negócio de impacto social e ambiental que certifica a logística reversa de embalagens pós-consumo, calculou que substituir uma tonelada de material virgem por material reciclado evita, em média, 2,059 toneladas de CO₂ equivalente. Há ainda a comparação de rotas: a reciclagem reduz emissões 25 vezes mais do que a incineração.

Reciclagem para a saúde pública

A destinação correta de lixo pode, de forma indireta, mas robusta, contribuir, de forma geral, para a saúde, segundo Galvão, com a redução de lixões que contaminam o solo e o lençol freático com chorume, e concentram vetores de doenças (ratos, moscas e o Aedes) em recipientes descartados. Mesmo após 11 anos da PNRS ter determinado que o fim dos lixões deveria ocorrer até 2020, a estimativa do IBGE é de que existam cerca de 3 mil lixões ainda ativos.  O Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (SNIS) tem registrado 1.572 lixões e 598 aterros irregulares.

A reciclagem, recordou Galvão, reduz a queima a céu aberto, fonte de material particulado associado a doenças respiratórias, e diminui as emissões de metano dos aterros, com repercussão climática e como questão de saúde pública.

Há ainda, conforme Galvão, a dimensão ocupacional: formalizar e equipar as cooperativas de catadores os tira da exposição direta a resíduos perigosos.

Fome e resíduos orgânicos

Os restos de alimentos correspondem a pouco mais de 40% dos resíduos urbanos gerados no Brasil, e o país descarta cerca de 30% dos alimentos produzidos, segundo a ONU. Galvão salientou que a conexão tem dois braços: a colheita urbana desvia alimentos ainda próprios para consumo de feiras, Ceasa’s e supermercados para bancos de alimentos, e a compostagem e a biodigestão transformam o que não é comestível em adubo e em biogás. Hoje, apenas 0,4% dos resíduos brasileiros vão para compostagem.

  

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