O fato mais impressionante nesta quinzena, no que se refere aos temas que cobrimos para o site da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030, é, sem sombra de dúvida, o colapso de uma encosta coberta por geleira ocorrido na quarta-feira (26/8), na fronteira entre o Nepal e o Tibete. O fenômeno desencadeou uma inundação de água, lama e rochas. No momento em que escrevo esta matéria, o site G1 contabiliza pelo menos 1.287 mortos e 5.083 desaparecidos no Nepal e 31 mortos e 531 desaparecidos adicionais na região do Tibete.
A contribuição exata das mudanças climáticas para esse colapso ainda está sendo investigada e pretendo examiná-la em uma matéria futura, a partir de informações provenientes da imprensa especializada. Por ora, é possível analisar as condições climáticas de fundo e os fatores que ampliaram as consequências do desastre a partir da representação que deles fazem a grande imprensa e a mídia especializada. E só.
Mas uma coisa é certa. Já há quem fale em uma inflexão importante na cobertura climática a partir desta tragédia. O site Covering Climate Now (CCNow), em matéria datada de 3/9 e intitulada “Is Nepal a Turning Point in Climate Coverage?” sugere que, “durante anos, as reportagens sobre desastres relacionados ao clima (…) raramente mencionavam o termo ‘mudanças climáticas'”, a despeito das robustas evidências científicas que ligavam tais fenômenos ao aquecimento global antropogênico (causado pelo homem).
O que as informações disponíveis permitem afirmar, por enquanto,
sobre a participação das mudanças climáticas
e dos demais fatores na dimensão do desastre?
Na semana seguinte à catástrofe, até veículos historicamente reticentes em estabelecer a conexão climática passaram a fazê-lo de maneira explícita. A mudança, segundo CCNow, é particularmente notável no sistema televisivo estadunidense, que vinha experimentando uma queda de 35% da cobertura jornalística sobre o clima no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump. As coberturas das emissoras NBC e CBS News, segundo a CCNow, seriam exemplos dessa mudança.
A possível mudança, entretanto, não significa que os veículos de imprensa estejam descrevendo a relação entre o clima e o desastre com o mesmo grau de certeza. É justamente nessa diferença que se concentra esta minha leitura preliminar.
Neste rescaldo informacional da tragédia que ora realizo acerca dos dramáticos acontecimentos, parece que ainda é cedo para se estabelecer o quanto as mudanças climáticas influíram em seu desfecho. A convergência que aparece nas matérias especializadas consultadas é que as mudanças climáticas podem ter contribuído, embora ainda seja cedo para determinar em que medida.
A revista britânica New Scientist é bem cautelosa. Discute mecanismos semelhantes aos apresentados pela Nature (retração glacial, perda de sustentação da encosta e degelo do permafrost), mas considera apenas plausível a influência climática sobre o colapso específico.
Para a revista Nature, por exemplo, o desastre começou com o colapso de gelo e rocha, que bloqueou temporariamente o rio, liberando uma enxurrada. Em sua perspectiva, o degelo de geleiras e do permafrost provavelmente contribuiu para a instabilidade observada, mas a extensão dessa influência ainda não teria sido determinada.
Nesse espectro, que vai do plausível, na New Scientist, passa pelo provável, na Nature, e chega ao categórico, destaca-se a interpretação de Michael Mann, publicada no The Guardian. Ele é enfático ao assegurar que a relação é incontestável: a inundação teria resultado diretamente de um colapso glacial induzido pelo aquecimento.
Detendo-se na explicação do mecanismo físico responsável pelo fenômeno, Mann não cita um estudo específico de atribuição deste colapso, o que não surpreende, dada a novidade do acontecimento. Ao concentrar-se no mecanismo climático, Mann deixa fora de seu recorte fatores que ajudam a explicar a dimensão do desastre. É nesse ponto que a perspectiva da saúde pública amplia o quadro: além do mecanismo climático, importa examinar exposição, vulnerabilidade, ocupação territorial, infraestrutura e sistemas de alerta.
É preciso ressaltar que “o espectro” a que me refiro descreve o grau de certeza adotado por cada texto jornalístico, não diferentes níveis de comprovação científica: até o momento, nenhum dos textos por mim analisados na mídia nacional e internacional apresenta um estudo específico de atribuição deste colapso.
Climacéticos e negacionistas talvez se animem cedo demais: diante do mesmo desastre, a New Scientist fala em possibilidade, a Nature em probabilidade e The Guardian em certeza. Mas os Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia ensinam que os fatos não chegam nus ao público: são traduzidos por fontes, gêneros jornalísticos e diferentes maneiras de as redações lidarem com a incerteza. A montanha caiu uma vez; a certeza sobre por que caiu chega aos leitores em três velocidades.
Cláudio Cordovil é jornalista especializado em Ciência e Saúde, um dos ganhadores do Prêmio José Reis de Jornalismo Científico, doutor em Comunicação e Cultura e pesquisador em Saúde Pública (Fiocruz)

