Do rio ao mar, poluição ameaça água e alimentos, alertam pesquisadores no 2º seminário Fiocruz-INPO

ILustração de divulgação do seminário Fiocruz-INPO

Encontro mostrou como esgoto, metais e microplásticos afetam os ambientes aquáticos e discutiu caminhos para proteger a saúde da população.

Viver cercado por rios não garante água segura para beber. Na Amazônia, comunidades enfrentam dificuldades de abastecimento e convivem com a contaminação das águas. No litoral, pesquisadores investigam como a poluição afeta peixes, ostras e mexilhões. São problemas que conectam a saúde dos ambientes aquáticos à alimentação e às condições de vida da população.

Essa relação esteve no centro do 2º Seminário Virtual da Iniciativa Nacional sobre Uma Só Saúde Azul, realizado em 30 de setembro. O encontro reuniu especialistas de diferentes regiões do Brasil para discutir os efeitos do esgoto, dos metais e dos microplásticos, além do agravamento de problemas ambientais pelas mudanças climáticas.

A proposta de Uma Só Saúde Azul parte de uma ideia: a saúde das pessoas, dos animais e dos rios e oceanos está interligada. Proteger esses ambientes significa também cuidar da água, dos alimentos e das comunidades que dependem deles.

O seminário teve mediação de Priscila Lange, coordenadora de Pesquisa e Inovação do INPO, e participação, na abertura, de Paulo Gadelha, coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030).

Na Amazônia, água em abundância não significa água potável

Para populações ribeirinhas e indígenas, os rios são caminhos para chegar à escola, aos serviços de saúde e aos locais de trabalho. As cheias e as secas também organizam a pesca, o abastecimento e a rotina das comunidades.

Alessandra Nava, pesquisadora do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), explicou que essa dependência exige políticas públicas adaptadas ao ritmo das águas.

Segundo ela, famílias cercadas por rios recorrem a poços rudimentares, que podem estar contaminados por bactérias. A pesquisadora apontou dificuldades para ampliar o uso de soluções como equipamentos que adicionam cloro à água dos poços para desinfetá-la. Também destacou a necessidade de orientação contínua às comunidades sobre o tratamento da água.

O despejo de esgoto nos rios e igarapés, pequenos cursos d’água da região, agrava o problema. Nava chamou atenção para a presença de bactérias resistentes a antibióticos nesses ambientes. São os microrganismos, e não os animais que os carregam, que podem resistir aos medicamentos usados para combater infecções.

O calor extremo acrescenta outra pressão. A pesquisadora relembrou a mortandade de peixes e botos no Lago Tefé, em 2023, em um cenário de seca e aquecimento das águas.

Metais acumulados no ambiente podem voltar a circular

Reduzir o lançamento de poluentes é essencial, mas não elimina a contaminação que já se acumulou no ambiente. Esse foi o alerta de Luiz Drude de Lacerda, professor da Universidade Federal do Ceará e presidente do conselho científico do INPO.

Metais como mercúrio, chumbo e cádmio podem permanecer por longos períodos no solo e nos sedimentos, o material depositado no fundo de rios e mares. A erosão e outras mudanças ambientais podem fazer esses contaminantes voltar a circular.

No caso do mercúrio, microrganismos podem transformá-lo em metilmercúrio, uma forma que se acumula nos organismos e passa de uma espécie para outra pela alimentação.

O processo ajuda a explicar por que peixes predadores podem apresentar concentrações elevadas: ao longo da vida, eles consomem outros animais que já carregam o contaminante.

Lacerda defendeu medidas locais para reduzir a exposição da população, incluindo orientações sobre o consumo de pescado e informações acessíveis nos pontos de venda.

Ostras e mexilhões ajudam a detectar a poluição

Em Santa Catarina, pesquisas com ostras e mexilhões ajudam a identificar sinais de contaminação antes que os danos se tornem mais graves. Esses animais filtram a água para se alimentar e podem acumular substâncias presentes no ambiente.

Afonso Bainy, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina, apresentou estudos que investigam como o organismo desses moluscos reage ao esgoto e a outros contaminantes.

Os cientistas procuram alterações no funcionamento das células e em mecanismos de defesa dos animais. Esses sinais, chamados de biomarcadores, funcionam como alertas de exposição à poluição.

O trabalho também envolve análises de aves, tartarugas e mamíferos marinhos. Os resultados ajudam a avaliar riscos ambientais e a orientar ações de conservação e segurança dos alimentos.

Microplásticos se somam a outras pressões

Pequenas partículas de plástico também preocupam os pesquisadores. Alexander Turra, professor da USP e coordenador da Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, destacou que essa poluição se soma a outras pressões sobre os ambientes aquáticos.

Compreender como esses fatores interagem é um dos desafios da pesquisa. Outro é melhorar a capacidade de identificar e analisar as partículas em laboratório.

“O país precisa ampliar a capacidade de análise, investir na formação de profissionais e harmonizar metodologias para produzir dados comparáveis”, afirmou. Na prática, isso significa adotar procedimentos que permitam comparar os resultados de diferentes estudos.

Turra também apresentou ações ligadas à Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico, voltadas ao fortalecimento da pesquisa e à redução da chegada de resíduos ao mar.

Uma agenda para aproximar pesquisa e soluções

A iniciativa reúne a EFA 2030/Fiocruz, o INPO e a Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano. A programação prevê mais dois seminários virtuais e um encontro presencial em dezembro, na Fiocruz.

O objetivo é construir uma agenda nacional de pesquisa, tecnologia e inovação em Uma Só Saúde Azul, aproximando o conhecimento científico das decisões necessárias para proteger os ambientes aquáticos e a população.

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