A roda de conversa “Nas Águas da Saúde”, realizada na manhã de 17 de setembro, no palco Mar Aberto da Rio Ocean Week (ROW), chamou a atenção para as relações entre a saúde humana, a saúde animal e o ambiente, especialmente no contexto das águas. O debate apresentou uma nova abordagem, denominada Uma Só Saúde Azul: perspectiva científica e de governança que reconhece os ambientes aquáticos como parte constitutiva da saúde.
Apresentado por Carla Campos, diretora-adjunta do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz), e moderado por Paulo Gadelha, coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030), o evento reuniu exposições sobre ciência oceânica, determinação social da saúde, direitos territoriais, capacidade de resposta do sistema de saúde e vigilância e prevenção relacionadas aos animais.
Ao mencionar a grande presença de jovens no evento, Gadelha lembrou que a saúde dos oceanos é um tema estratégico para as próximas gerações. Nesse contexto, apresentou a abordagem integrada de Uma Só Saúde Azul, que inclui as populações mais vulneráveis aos impactos socioambientais e articula o conhecimento científico aos saberes dos territórios na construção de novas respostas aos desafios relacionados à conservação do oceano.
“Vamos trabalhar aqui uma outra dimensão: de como o conhecimento da ciência se articula com o conhecimento da sabedoria dos territórios afetados por esse processo, para produzir conhecimento novo e atuar com as pessoas também”, anunciou.

Saúde do oceano e saúde humana estão interligadas
Alexander Turra, coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e organizador da ROW, também associou a saúde do oceano à saúde humana. Segundo o pesquisador, a poluição por resíduos e esgoto afeta os ecossistemas marinhos e pode gerar impactos sobre a segurança alimentar, as condições de vida e a regulação do clima.
Turra destacou a importância do monitoramento das mudanças nos oceanos e da integração entre instituições para compreender esses impactos. Nesse contexto, apresentou a perspectiva de Uma Só Saúde Azul, que amplia a abordagem de Uma Só Saúde ao considerar o papel dos ambientes aquáticos na saúde das populações.
“Na medida em que o oceano fica doente, a gente fica mais doente, porque nossa saúde depende do oceano”, explicou.
Gadelha abordou a relação dos oceanos com fenômenos climáticos como o El Niño e seus impactos sobre a saúde, a agricultura e os territórios. Como exemplo, citou a expedição realizada em agosto ao Baixo Tapajós (PA), na região Norte, que promoveu a troca de conhecimentos com comunidades ribeirinhas e povos tradicionais sobre saúde, ambiente e adaptação às mudanças climáticas.
Segundo ele, a estiagem associada ao fenômeno preocupa os povos indígenas locais, pois pode dificultar o acesso a serviços, como os de saúde, e exigir mudanças nas atividades agrícolas da região.
“Pensar o oceano é uma relação extensa, inclusive na saúde mental”, disse.
Território como unidade de produção da saúde
A integração entre ciência e conhecimentos tradicionais foi destacada por Edmondo Gallo, pesquisador ligado à Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) e ex-coordenador do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS).

Ele apresentou experiências da Rede Marangatu que combinam geoprocessamento, inteligência artificial, ciência cidadã, monitoramento participativo e cartografias sociais em territórios de povos e comunidades tradicionais. Segundo Gallo, a articulação entre diferentes saberes contribui para compreender as transformações dos territórios e desenvolver soluções relacionadas à saúde, ao clima e à sustentabilidade.
“Não há possibilidade de resolução de problemas, de permanência da vida, se não se aprender conhecimento tradicional e trazer a potência do lado bom da ciência para se associar a esse conhecimento, a fim de promover soluções que vão garantir a sustentabilidade do planeta, da humanidade futura”, afirmou.
Júlia Borges, coordenadora executiva da Rede Marangatu, citou os impactos da escassez de água sobre mulheres e meninas que, segundo dados da ONU mencionados por ela, dedicam cerca de 250 milhões de horas por dia à coleta de água em 53 países.
Ela também abordou a situação das pescadoras artesanais no Brasil e o projeto “Mulheres Pescadoras de Autonomia, Igualdade e Sustentabilidade Ambiental”, desenvolvido pela Rede Marangatu em parceria com a Ensp/Fiocruz. A iniciativa busca produzir conhecimento e contribuir para a formação e a autonomia social, ambiental e econômica dessas trabalhadoras. Ao final, Borges convidou crianças e jovens a se engajarem na preservação do oceano.

Tecnologia social permite colaborar com o monitoramento da fauna
Durante a ROW, o Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo), plataforma computacional do Centro de Informação em Saúde Silvestre (CISS), despertou a curiosidade de quem passava pelo estande da EFA 2030, onde havia um ponto de acesso ao sistema.
A tecnologia social permite que qualquer pessoa colabore com o monitoramento e a conservação da fauna brasileira, além de contribuir para a vigilância de zoonoses, especialmente da febre amarela.
De acordo com Márcia Chame, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora da Plataforma Institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre, responsável pelo desenvolvimento do SISS-Geo/Fiocruz e do CISS, o sistema busca subsidiar ações de vigilância e prevenção. Para isso, utiliza um mapeamento epidemiológico baseado em quase 30 mil fatores ambientais e urbanos, com o objetivo de correlacionar a ocorrência de patógenos aos registros de animais silvestres vivos, doentes ou mortos.
A inclusão de dados sobre animais saudáveis e doentes é apontada por Chame como indispensável para comparar cenários e identificar as condições que favorecem o surgimento de infecções em cada localidade.

O encontro “Nas Águas da Saúde” mostrou a crianças e jovens que cuidar da saúde também implica cuidar dos oceanos e das águas, articulando conhecimento científico, saberes tradicionais, conservação ambiental e políticas públicas.

