O Brasil conhecendo na saúde o Brasil das ondas de calor

Imagem gerada por IA

Reunir elementos para subsidiar o processo de construção do conhecimento no Brasil sobre ondas de calor com base em escalas mais locais foi a prática defendida por Eliane Lima e Silva, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (Cepedes/Fiocruz) e do Laboratório de Geografia, Ambiente e Saúde (Lagas), da Universidade de Brasília (UnB), durante a palestra “Ondas de Calor e Saúde: um olhar sobre as regiões metropolitanas brasileiras, no último dia 17,  organizada pela Centro de Estudos da Fiocruz Amazônia. Os avanços nesse sentido, segundo ela, se darão quando os sistemas de monitoramento e vigilância nos municípios avançarem. “A vigilância deve focar na dinâmica territorial, já que não é possível estabelecer parâmetro nacional único. As limitações incluem a falta de dados em tempo real”, afirmou a palestrante.

A base da apresentação de Lima e Silva é o projeto “GeoCalor –  Indicadores espaciais e sistema de alerta para ondas de calor para a saúde pública nas regiões metropolitanas brasileiras”, coordenado pelo Laboratório de Geografia, Ambiente e Saúde Lagas/UnB e realizado por uma espécie de consórcio de instituições de pesquisa brasileiras, entre as quais a Fiocruz, e do exterior, para compreender as altas temperaturas e seus efeitos na saúde do Brasil, e estabelecer indicadores espaciais a fim de subsidiar sistemas de alertas para ondas de calor e saúde em 15 regiões metropolitanas brasileiras: Manaus, Belém e Porto Velho (Norte), Fortaleza, Recife e Salvador (Nordeste), Cuibabá, Goiânia e a RID-DF (Centro-Oeste), Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo (Sudeste) e Porto Alegre, Curitiba e Florianópolis (Sul).

Até o início do projeto, em 2024, pouco se discutia em relação às ondas de calor no contexto brasileiro, pois focava-se mais em baixa umidade, queimadas e doenças respiratórias. O desafio, de acordo com a pesquisadora, é criar um sistema nacional em um país diverso, com dados muitas vezes fragmentados e vazios, e não interoperáveis. “Há necessidade de integrar o olhar entre clima, saúde e gestão pública”, disse Lima e Silva.

Os impactos do calor não ocorrem, segundo Lima e Silva, ao acaso, pois atingem quem vive em situação de maior vulnerabilidade. A pesquisa identificou que desigualdades de gênero, raça, renda, capacidade funcional e ocupação podem intensificar os riscos. Fatores ambientais e estruturais também aumentam o perigo, tais como:

  • Falta de saneamento e água adequada
  • Retirada de vegetação e impermeabilização do solo
  • Residências pouco ventiladas e falta de arborização nas cidades
  • Exposição laboral ao sol ou em locais fechados sem refrigeração

Lima e Silva acentuou a importância de se compreender qual é o comportamento nas exposições às altas temperaturas nas cidades e também nas comunidades rurais e ribeirinhas, porque existem singularidades. Além disso, curiosamente, para doenças cardíacas algumas regiões apresentaram um “efeito protetor” – capacidade de defesa do organismo, o que exige mais investigações locais. Também chama atenção o fato de a durabilidade do calor em um dia ter, no geral, mais efeitos contrários do que em dias seguidos. Esses impactos, conforme Lima e Silva, permeiam diversos tipos de doenças e agravos, e também o próprio funcionamento dos serviços de saúde. “Esses elementos têm que entrar como de atenção na hora que a gente está fazendo um trabalho de organização do sistema de saúde”, ressaltou.

A gestão de risco em relação à exposição ao calor, prosseguiu a pesquisadora, exige que os sistemas de saúde estejam focados na dinâmica do território, conheçam bem a realidade da localidade em que estão estabelecidos e que tenham olhar de equidade e justiça climática, uma vez que as pessoas ficam expostas ao mesmo tipo de evento, contudo, os impactos sobre elas são totalmente diferentes. “Quanto mais vulnerável, maior o impacto”.

Foto de arquivo pessoal

Eliane Lima e Silva é Doutora e Mestre em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB)

Cinco mensagens-chave do GeoCalor

  • Calor é problema de saúde pública
  • Impactos são regionais
  • Vulnerabilidade social aumenta o risco;
  • Limiares devem ser loco-regionais
  • Integração clima-saúde permite antecipação

Desafios futuros apontados

  • Uso de IA
  • Dados em tempo real
  • Adaptação do SUS

Evidências

Antes do projeto, se falava muito pouco da questão das ondas de calor e saúde no Brasil. Os assuntos referentes à clima eram mais voltados à questão da baixa umidade e a associações a queimadas e, com isso, à poluição atmosférica e aos impactos que tinha sobre as doenças respiratórias e, às vezes, a eventos associados.

Iniciou-se com o GeoCalor a geração de evidências que orientam políticas públicas e apoiam o sistema de saúde na prevenção dos impactos de calor extremo, com o desafio de construir bases e subsídios para elaboração de um sistema nacional de vigilância de alerta para ondas de calor no Brasil. Informações climáticas, ambientais e de saúde aparecem integradas para identificar a relação entre a ocorrência de ondas de calor e o aumento de internação e mortes. Ademais, investiga-se como fatores socioespaciais, entre os quais, desigualdade social, urbanização e vulnerabilidade das populações, influenciam esses impactos.

O GeoCalor tem como principais produtos:

  • Desenvolvimento de indicadores espaciais de risco
  • Análise do comportamento das ondas de calor nas diferentes regiões do país
  • Elaboração de um sistema de alerta para apoiar gestores de sistema de saúde na adoção de medidas preventivas durante eventos de calor extremo
  • Dashboard interativo

 

Etapas do GeoCalor

Primeiro, realizou-se levantamento e análise dos capítulos da CID10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – com base em artigos científicos publicados, sem recorte da data inicial e até 2023, para saber quais os capítulos do CID que estavam, de alguma forma, relacionados aos impactos da exposição às ondas de calor. De 23, 11 compreendiam doenças graves associadas ao calor.

Um outro aspecto do trabalho foi o levantamento dos sistemas de alerta e saúde, a fim de verificar quais eram os parâmetros, os recortes territoriais, as escalas que eram estabelecidas e as medidas que estavam sendo trabalhadas em sistemas de alerta em todo o mundo. Chegou-se a 302 estudos localizados, e 22 foram incluídos porque tratavam especificamente de saúde, os demais, muitas vezes, eram mais generalistas de mudança do clima, de adaptação à mudança do clima, mas sem saúde como objeto específico. A abrangência identificada foi Europa, América do Norte, Ásia e Oceania, com importantes lacunas, assim como nas análises para a América do Sul e a África.

As categorias analíticas que mais apareciam eram as projeções de mudança do clima, os modelos operacionais estabelecidos, os critérios e métodos que estavam elencados para identificar o que seria em determinado local uma onda de calor, os impactos sobre a saúde e a integração com políticas públicas de saúde. Outro desafio apresentado na maioria dos artigos era a fragilidade da articulação com os serviços de saúde. No Brasil, foi identificada a urgência de uma estratégica nacional integrada, protocolos loco-regionais devido às próprias características brasileiras – as pesquisas apresentavam contextos muito sub-representados. O contexto brasileiro não apareceu em praticamente quase nenhuma pesquisa, e as métricas apropriadas ao contexto nacional teriam que ser analisadas de forma mais aprofundada.

Foi realizada também uma revisão de estudos identificando quais eram os indicadores mais trabalhados quando se tratava de olhar o impacto na saúde devido à exposição a ondas de calor. Ao todo foram analisadas 413 referências, e 17 estudos eram específicos sobre saúde – apenas 10 estudos foram classificados como realmente representativos para essa análise. As principais categorias dos indicadores de saúde identificados tinham a ver com as doenças cardiorrespiratórias, cardiovasculares, respiratórias, mortalidade por calor extremo, atendimentos de emergências e internações. Alguns apontaram situações de saúde mental, gestação, período perinatal e doenças infecciosas e ambientais.

A atualização da revisão sobre protocolos foi feita em relação a 2023, mas foi em 2024 que houve um boom de preocupação e de estudos com foco em exposição ao calor extremo. Por isso, em 2025, realizou-se atualização desses protocolos, e pelo fato de em 2024 ter havido mais protocolos publicados do que em todo o histórico anteriormente analisado, deduziu-se que o mundo passou a ver o calor como um problema real de saúde pública.

Os indicadores foram adaptados ao contexto brasileiro para que se tivesse um hall de cenário estabelecido. As investigações do GeoCalor prosseguem, com atualizações no dashboard, lançado em março de 2026, por meio de dados de caracterização climática, ondas de calor, perfil epidemiológico e sistemas de alerta. Dá para acessá-lo nos sites do Lagas, do Observatório do Clima/Fiocruz e do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icit/Fiocruz), cuja página do dashboad está no link abaixo:

https://geocalor.icict.fiocruz.br/