O Turismo de Base Comunitária (TBC) tem crescido no Brasil. Diferentemente do turismo de massa, opera com participação direta das comunidades no planejamento, gestão e acompanhamento das atividades turísticas, e possibilita a permanência delas em territórios, perspectivas de renda e conservação ambiental.
Atualmente, só no estado do Rio de Janeiro, há 29 experiências de TBC mapeadas, do final de 2025 até hoje, por meio de pesquisa, em andamento, coordenada por Monika Richter, professora do Curso de Geografia do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR), da Universidade Federal Fluminense (UFF). A base do estudo foram dados secundários pesquisados por meio de bibliografias na internet.
Um atlas de turismo, atualmente em elaboração pela Rede Internacional de Pesquisa Turismo e Dinâmicas Socioterritoriais Contemporâneas, e coordenado pela Universidade de São Paulo (USP), deverá ser concluído, segundo Ritcher, até o final deste ano. A publicação pretende reunir, entre outros dados, informações sobre as práticas de trabalho do turismo no Brasil, incluindo experiências de TBC. Cerca de 400 pesquisadores participam dos estudos relacionados aos assuntos.

Presente em todas as regiões do Brasil, o TBC tem experiências especialmente em áreas da Amazônia, do Cerrado e do litoral. Conforme dados do Mapa Brasileiro do Turismo Responsável, lançado em 2022, com base em pesquisa do Ministério do Turismo em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Sudeste concentrava 45% das iniciativas mapeadas, seguido pelo Nordeste, com 20%; Sul, 15%; Norte, 15%; e Centro-Oeste, 5%.
Foram identificadas na pesquisa 40 boas práticas de TBC em todas as regiões do país, principalmente de povos e comunidades tradicionais, assentados da reforma agrária, produtores da agricultura familiar e comunidades de favela. Esses moradores são, a princípio, protagonistas na produção e oferta de produtos e serviços turísticos em seus respectivos territórios, com base na cooperação e solidariedade, visando atingir objetivos comuns. O universo mapeado não compreende todas as atividades de TBC no Brasil.
O país conta com redes de TBC já estruturadas, como a Tucum, no Ceará; a Batuc, na Bahia; e a Rede Nhandereko, ligada ao Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), que abrange os litorais sul do Rio de Janeiro e norte de São Paulo, e reúne indígenas Guarani, quilombolas e caiçaras.
TBC aproxima turismo e conservação
Para Richter, há uma relação entre a presença de comunidades tradicionais e processos de regeneração da vegetação nativa em determinadas regiões. Nas comunidades caiçaras de pescadores da região de Angra dos Reis, onde a pesca historicamente ocupa papel importante na economia local, a pesquisadora observa uma transição para o turismo como fonte complementar de renda.
“Só que é aquele conflito: que tipo de turismo se quer? Porque a gente tem, na alta temporada, um turismo de massa que é extremamente predatório na sua forma de condução”, afirma.
Richter aponta o TBC como uma das alternativas a esse modelo, considerando diferentes formas de turismo praticadas na região da Bocaina. Ao analisar a distribuição espacial, Richter observa que a maioria dos TTs de grande número de comunidades aparecem sobrepostos a UCs e possuem boa regeneração da vegetação. “É uma relação que ajuda a evidenciar o papel das comunidades tradicionais na conservação da biodiversidade”, analisa.
A afirmação de Richter tem base numa pesquisa do IEAR/UFF, que coordena, e cuja geoinformação está relacionada aos dados do uso e cobertura da terra obtidos no MapBiomas (rede multi-institucional formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia, que produz mapeamentos anuais de cobertura e uso da terra) de 1985 até hoje, cruzados com os do geoportal do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) sobre UCs e os dos TTs passados pelo Observatório de Territórios Saudáveis e Sustentáveis (OTTS/Fiocruz).
Num contexto de Mata Atlântica dos municípios da Baía da Ilha Grande – Angra dos Reis e Paraty –, explica a professora, obtém-se no estudo a espacialização das áreas de vegetação, de floresta, e recuperadas ou não. Conforme números do OTTS/Fiocruz, há na região 64 comunidades tradicionais, sendo 48 caiçaras, seis indígenas Guarani e três quilombolas, além de outras categorias. Os territórios quilombolas não estão dentro de UCs, mas ficam contíguos ao Parque da Bocaina, e também têm, de acordo com Ritcher, restauração da cobertura vegetal.
A professora cita o trabalho do antropólogo Antônio Carlos Diegues, da USP, ao destacar a importância de considerar, além da biodiversidade associada à fauna e à flora, a chamada biodiversidade cultural. O conceito está relacionado aos modos de vida e às práticas desenvolvidas pelas comunidades ao longo do tempo, como técnicas de pesca, culinária, manejo do território, conhecimentos ambientais e formas comunitárias de organização.
“Essas práticas de vida permitiram que, em muitos lugares, a gente tivesse ou a conservação, ou a restauração da vegetação, como é o caso da Ilha Grande, bastante devastada na época do café”, afirma.
Renda pode favorecer permanência nos territórios
Leonardo Freitas, coordenador e pesquisador do OTSS/Fiocruz, destaca, entre os aspectos relacionados ao TBC, a articulação entre conhecimentos científicos e saberes tradicionais nos territórios. Segundo ele, a iniciativa favorece também as características culturais das comunidades e a conservação ecológica e da biodiversidade da Mata Atlântica.
“Cientificamente, dados de monitoramento (da pesquisa mencionada por Ritcher) confirmam que as áreas onde vivem as populações tradicionais possuem taxas de desmatamento significativamente menores e níveis de biodiversidade superiores aos de muitas unidades de conservação de proteção integral”, afirma.

Segundo Freitas, o TBC também movimenta as economias locais ao envolver restaurantes comunitários, pescadores e agricultores. Na avaliação do pesquisador, a geração de renda pode contribuir para a permanência das novas gerações nos territórios, favorecendo a continuidade de saberes e práticas tradicionais.
A experiência de formação inicial em TBC, iniciada em Paraty no primeiro semestre e que acontece em Angra dos Reis, é mencionada pelo pesquisador como uma das iniciativas de capacitação de comunidades da região da Bocaina.
Roteiros também revelam problemas ambientais
Anna Vecchia, pesquisadora do OTSS/Fiocruz, observa que o TBC pode levar visitantes a estarem em lugares que nem sempre são considerados turísticos pelos próprios moradores, além de propiciar o contato com histórias, práticas e modos de vida locais. Um dos aspectos associados ao modelo, segundo a pesquisadora, é a relação estabelecida pelas comunidades tradicionais com o meio ambiente.
“O respeito ao bem viver, por exemplo, é apresentado como um dos valores associados ao TBC, e envolve compreensão integrada da relação entre as pessoas e o ambiente em que vivem”, analisa.

Os roteiros turísticos, segundo Vecchia, também podem contribuir para dar visibilidade a problemas ambientais enfrentados pelas comunidades. Em algumas visitas, por exemplo, foram vistos rios contaminados e problemas relacionados ao saneamento básico.
“Dessa forma, os roteiros turísticos não se limitam a apresentar os aspectos positivos do território, mas também podem possibilitar reflexão sobre os impactos ambientais que afetam o cotidiano das populações locais”, salienta.
Para Liliane Becari, professora de Educação Básica, Técnica e Tecnológica (EBTT) do Colégio Pedro II e integrante do Núcleo de Extensão e Pesquisa em Educação Diferenciada (NEPEdif), da instituição, onde tem experiências em TBC, a formação profissional e a educação também fazem parte das demandas apresentadas pelas comunidades.
“A comunidade traz a importância de se pensar um turismo que valorize os saberes locais, a cultura local, que faça a renda circular nela, e possibilite a permanência dos seus meios de vida, dos seus modos de produzir, das suas culturas”, comenta.

Algumas comunidades já possuem e realizam seus próprios roteiros de TBC. Becari cita experiências assim em Trindade, no Quilombo do Campinho e em São Gonçalo, localidades situadas no município de Paraty.
Segundo a professora, esses roteiros possibilitam aos visitantes conhecer aspectos da história e da cultura que nem sempre são abordados em modelos convencionais de turismo.
“Você tem o contato com a culinária, conhece a história local, como foi a ocupação daquele lugar, o histórico de lutas, a cultura e a forma de vida”, menciona.
Breve histórico
As primeiras experiências organizadas de TBC, conforme dados do estudo “Turismo de Base Comunitária no Brasil e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030”, publicado pelo Ministério do Turismo, em 2023, começaram a surgir no Brasil na década de 1990, impulsionadas, principalmente, por movimentos sociais e comunidades tradicionais em busca de alternativas de geração de renda e desenvolvimento local.
A partir dos anos 2000, o modelo ganhou espaço nos campos acadêmico e institucional, segundo o editorial “Turismo de base comunitária”, publicado, em 2016, no “Caderno Virtual de Turismo” e assinado por Roberto Bartholo, Ivan Bursztin, Aguinaldo César Fratucci e Luís Tadeu Assad.
O TBC também tem se expandido no mundo, algo apontado por empresas de pesquisa de mercado e consultorias especializadas em inteligência de mercado, como Market Glass, Inc., Allied Market Research, 6Wresearch e The Business Research Company, e desponta como uma das iniciativas de conscientização frente às severas mudanças climáticas no planeta.
“Esse intercâmbio direto de saberes entre visitantes, universidades e moradores constrói formas coletivas de pensar e soluções concretas frente a desafios contemporâneos da humanidade, como as mudanças climáticas”, observa Freitas.

