Pesquisa com participação do IOC/Fiocruz analisou amostras de 85 tubarões em Eleuthera, nas Bahamas; substâncias como cafeína, diclofenaco, paracetamol e cocaína foram detectadas em animais de três espécies
Amostras de sangue de tubarões nas Bahamas revelaram a presença de substâncias associadas ao consumo humano, como cafeína, medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios e até cocaína. O achado, publicado na revista científica Environmental Pollution, aponta que a poluição química decorrente de atividades humanas já alcança predadores marinhos de topo mesmo em regiões frequentemente descritas como ambientes preservados.
O estudo teve participação de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e de instituições parceiras. A investigação analisou 85 tubarões capturados em habitats costeiros próximos à ilha de Eleuthera, nas Bahamas, incluindo tubarões-tigre, tubarões-galha-preta, tubarões-recife-caribenhos, tubarões-lixa-do-atlântico e tubarões-limão.
Entre os animais avaliados, 28 apresentaram contaminantes de preocupação emergente. As substâncias detectadas foram diclofenaco, paracetamol, cafeína e cocaína, encontradas em tubarões-recife-caribenhos, tubarões-lixa-do-atlântico e tubarões-limão. A pesquisa também identificou alterações em marcadores fisiológicos, como triglicerídeos, ureia e lactato, em animais nos quais esses contaminantes foram detectados.
Poluição invisível no mar
Diferentemente do lixo plástico, que pode ser visto boiando ou acumulado em praias, os contaminantes químicos entram nos ecossistemas marinhos de forma menos perceptível. Medicamentos, estimulantes, resíduos de esgoto, descartes de embarcações e substâncias ilícitas podem chegar ao oceano por diferentes rotas, especialmente em áreas sob pressão de turismo, urbanização costeira e infraestrutura sanitária limitada.
Nas Bahamas, o achado chama atenção justamente porque o país é conhecido por águas claras, turismo marinho e medidas de conservação de tubarões. Em 2011, o arquipélago criou um santuário nacional para proteger esses animais da pesca comercial, tornando suas águas uma referência internacional para conservação de tubarões.
A nova pesquisa mostra, no entanto, que proteger uma espécie da captura direta não elimina outros riscos ambientais. Predadores de topo, como os tubarões, estão expostos ao que circula pela cadeia alimentar e pela água. Por isso, funcionam como sentinelas da saúde dos oceanos: quando substâncias humanas aparecem em seus organismos, o sinal é de que a contaminação já atravessou diferentes camadas do ecossistema.
O que os cientistas encontraram

As amostras de soro sanguíneo foram analisadas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas, técnica usada para identificar compostos químicos em baixas concentrações. Também foram avaliados marcadores fisiológicos por espectrofotometria, permitindo observar possíveis associações entre a presença dos contaminantes e alterações no funcionamento dos organismos dos animais.
A cafeína apareceu como um dos principais sinais da presença humana no ambiente. Embora seja uma substância legal e cotidiana, seu aparecimento em animais marinhos indica entrada contínua de resíduos de consumo humano no oceano. Já o diclofenaco e o paracetamol reforçam a presença de fármacos de uso comum em ambientes costeiros. A cocaína, ainda que detectada em menor número de animais, amplia a preocupação com a chegada de drogas ilícitas ao ambiente marinho.
Os pesquisadores destacam que os resultados não significam que os tubarões estejam “drogados” no sentido popular do termo, nem indicam aumento de risco direto para banhistas. O ponto central é ambiental: substâncias produzidas, consumidas ou descartadas por humanos estão alcançando animais selvagens em áreas marinhas de alto valor ecológico.
Efeitos ainda precisam ser investigados
A presença dos contaminantes foi acompanhada por mudanças em parâmetros ligados ao metabolismo dos tubarões. Entre os marcadores alterados estão lactato, ureia e triglicerídeos, indicadores que podem refletir respostas fisiológicas relacionadas a estresse, gasto energético e funcionamento sistêmico.
Ainda não é possível afirmar que cada uma dessas substâncias, isoladamente, tenha causado danos específicos aos animais. A exposição ambiental é complexa: os tubarões podem entrar em contato com múltiplos contaminantes ao mesmo tempo, em diferentes concentrações e por diferentes vias. O alerta, portanto, está no padrão: a contaminação química é mensurável e aparece associada a alterações biológicas.
Outro estudo recente, publicado na Marine Pollution Bulletin, reforça essa linha de investigação ao avaliar possíveis efeitos fisiológicos subletais da exposição a metais e metaloides em tubarões-recife-caribenhos. Em conjunto, os trabalhos ampliam a compreensão sobre como poluentes invisíveis podem afetar predadores marinhos antes mesmo de provocar sinais aparentes de doença ou mortalidade.
Um problema de saúde oceânica, uma só saúde azul
O caso das Bahamas se soma a uma agenda crescente de estudos sobre contaminantes emergentes no mar. Em 2024, pesquisadores já haviam relatado a presença de cocaína e benzoilecgonina, principal metabólito da cocaína, em tubarões no litoral brasileiro. Agora, a detecção em animais das Bahamas amplia o debate para regiões turísticas e recifais frequentemente percebidas como menos impactadas.
A contaminação por fármacos e drogas ilícitas ainda é pouco monitorada em ecossistemas marinhos quando comparada a problemas mais conhecidos, como óleo, esgoto visível, metais pesados e plásticos. Mas a presença dessas substâncias em tubarões mostra que a pegada humana no oceano também é química, difusa e de difícil percepção.
Para pesquisadores da área, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o tratamento de esgoto, melhorar a gestão de resíduos em áreas turísticas, monitorar contaminantes emergentes e incluir espécies marinhas de topo em programas de vigilância ambiental.
Em um cenário de mudanças climáticas, perda de biodiversidade e pressão crescente sobre zonas costeiras, os tubarões das Bahamas ajudam a contar uma história maior: mesmo os ambientes que parecem intocados já carregam sinais da ação humana.

