Baixo Tapajós transforma saber comunitário em soluções para saúde e clima

Entre 24 e 27 de agosto de 2026, uma expedição reunindo gestores do Ministério da Saúde, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e representantes do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) percorreu Santarém, Alter do Chão e comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no Pará. O objetivo era conhecer experiências de saúde fluvial, saneamento ecológico, energia renovável e adaptação climática construídas por comunidades ribeirinhas e povos tradicionais. Juntas, essas iniciativas formam o que o Projeto Saúde e Alegria (PSA) descreve como “corredor de tecnologias sociais adaptadas à Amazônia”.

A programação foi organizada pelo PSA por meio do Centro de Estudos Avançados de Promoção Social e Ambiental (CEAPS) e partiu de Alter do Chão. Ao longo de cinco dias, o grupo transitou entre a cidade e comunidades da reserva, combinando visitas de campo, escuta de lideranças e oficinas de trabalho.

Saúde fluvial e dados climáticos orientam ações em Santarém

No primeiro dia, o grupo visitou o Ecocentro de Sociobioeconomia, gerido pela cooperativa Acosper, que reúne 139 comunidades cooperadas e produz um mel premiado no 25º Congresso Nacional de Apicultura. Em seguida, conheceu a Unidade Básica de Saúde (UBS) Fluvial Abaré II, que atende 43 comunidades ribeirinhas ao longo do ano, com equipe embarcada em ciclos de 15 dias a cada 30.

A visita ao Centro Integrado de Saúde e Clima (CICS), instalado na Secretaria Municipal de Saúde, apresentou uma iniciativa da Fiocruz em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, voltada ao desenvolvimento de protocolos locais de resposta a eventos climáticos extremos. O CICS funciona com cinco pessoas, e foi criado há menos de dois meses. A primeira entrega, um protocolo de calor inspirado em experiências do Rio de Janeiro, está em desenvolvimento, e a fragilidade de dados meteorológicos obriga a equipe a validar bases alternativas como NASA POWER e Copernicus.

À tarde, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), o grupo conheceu o FioAres, rede de cinco estações de monitoramento de poluição atmosférica. Há pelo menos um caso de uso preditivo: a identificação antecipada de fumaça de queimada em direção a Manaus. O dia encerrou na sede do PSA, com escuta de lideranças e integrantes do grupo de trabalho (GT) Emergência Climática Tapajós.

Comunidades integram saúde, energia e saneamento na reserva

O dia 25 foi o mais imersivo. O grupo embarcou em traslados fluviais para Anumã, onde fica o Centro Experimental Floresta Ativa (Cefa), espaço de referência do PSA que reúne experiências em saneamento ecológico, energia renovável, agroecologia e bioeconomia. Na sequência, visitou a Comunidade de Carão, com iniciativas de produção de mel, saneamento ecológico e eletrificação comunitária.

Em Anã, um dos principais polos das tecnologias sociais do PSA, 86 famílias são atendidas pela UBS da Floresta. O modelo soma 26 unidades na região, incluindo oito no Rio Arapiuns, conectadas a duas UBS Fluviais. O sistema de energia solar sustentou, sem falhas, um mutirão com 18 profissionais de saúde operando simultaneamente dois ultrassons e um eletrocardiógrafo.

A programação em Anã incluiu visita à criação de peixes e fábrica de ração da associação Musas (Mulheres Unidas Sonhadoras da Amazônia), à Brigada Comunitária de Prevenção e Combate ao Fogo, ao sistema de reciclagem de resíduos (Espaço Motirô), à entrega de filtros de nanotecnologia para tratamento de água e ao projeto FarmaFittos, de fitoterápicos da Ufopa em parceria com a Secretaria de Saúde e a Arquidiocese de Santarém.

Oficinas definem prioridades de cooperação

Os dias 26 e 27 foram dedicados a oficinas de trabalho na sede do PSA. Equipes da Fiocruz, do Ministério da Saúde e do PSA detalharam planos de trabalho, definiram prioridades da cooperação institucional e encaminharam ações conjuntas. Foi também a continuação da escuta com lideranças iniciada no dia 24.

André Bonifácio Carvalho, diretor do Departamento de Gestão Interfederativa e Participativa (DGIP) do Ministério da Saúde, afirma que os relatos das comunidades ajudam a compreender como as mudanças climáticas afetam diferentes dimensões da vida no território. “Ouvir quem vive no território é fundamental para compreender os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde. Eles têm uma consciência ecológica muito grande, conhecem como ninguém o curso das águas, dos rios e como a questão climática afeta a vida dos animais. Precisamos estar cada vez mais próximos dessas comunidades.”

Os impactos relatados não se restringem à saúde das pessoas. Atingem a produção, a alimentação, a renda, os animais e a floresta. Quem observa o nível do rio, acompanha a mudança no comportamento dos animais ou percebe a piora da qualidade do ar antes de um alerta oficial, também produz conhecimento em saúde. Essa leitura do território pelas comunidades foi o ponto de partida da expedição.

Iniciativas locais ainda enfrentam barreiras para chegar ao SUS

Transformar essas experiências em política pública é complexo. O medicamento quelante DMSA, usado no tratamento de intoxicação por mercúrio, foi incorporado ao SUS por recomendação da Conitec. A modalidade de UBS Fluvial é reconhecida pela Política Nacional de Atenção Básica, mas, das seis unidades existentes no Brasil, apenas uma opera fora da Amazônia, no Pantanal.

A UBS da Floresta segue como projeto do PSA, sem status de política pública formal, embora tenha sido citada como referência para a atenção primária em áreas remotas. Rodrigo Tobias, pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), descreveu a lógica de “nexo” entre água, alimento e energia como um conceito ampliado de saúde, aplicável a áreas rurais remotas. Para ele, a tecnologia social nasce na sociedade civil, tem potencial de inspirar política pública, mas não se confunde com ela.

Guilherme Franco Netto, coordenador de Saúde, Ambiente e Sustentabilidade da VPAAPS da Fiocruz, contextualizou a mudança de status institucional das tecnologias sociais durante a visita ao CICS. “Há dez anos, esse tema era um tema de uma área técnica. Hoje não há uma reunião do colegiado do ministério e da presidência da Fiocruz em que esse tema não seja tratado.”

Diálogo com os territórios orienta conceito de tecnologia social

Ex-presidente da Fiocruz (2009 a 2016) e atual coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030) desde 2020, Paulo Gadelha também coordena a Estratégia Fiocruz para Clima e Saúde, criada como desdobramento da EFA 2030.

Na visita ao CICS, disse que o FioAres contextualiza a expansão da presença da Fiocruz na Amazônia. Foi na Oficina El Niño e Água, no Cefa, que sua fala abordou a experiência do PSA como um caso de recriação de tecnologia social para uma situação específica da Amazônia.

“Não há solução sem estar em diálogo muito próximo e aprendendo com quem está no território, com quem tem saber, com quem tem experiência.” . Para a Fiocruz, tecnologia social é uma solução construída em diálogo direto com o território, que integra múltiplas dimensões da vida e tem potencial de subsidiar política pública, sem ser ela mesma política pública formal.

O que a viagem revelou é que, no Baixo Tapajós, a adaptação climática envolve transporte fluvial, comunicação, abastecimento de água, saneamento, energia solar e a manutenção do atendimento de saúde quando o ambiente muda rapidamente. O Espaço Motirô, projeto de reciclagem com meta de escalar para 104 comunidades, ainda não é financeiramente autossuficiente após dois anos de operação.

A UBS da Floresta, por sua vez, ainda depende do PSA para existir. Essas experiências indicam que o caminho entre a solução local e a política pública é longo. A experiência do Tapajós não pode ser transportada como receita pronta: uma solução que funciona em uma comunidade de Santarém pode precisar de ajustes em áreas indígenas do Amazonas, em cidades costeiras do Amapá ou em regiões de transição do Maranhão.

O próximo passo, segundo o Ministério da Saúde, é incorporar os aprendizados ao debate de políticas públicas e avaliar como experiências semelhantes podem contribuir em outros territórios. Políticas de saúde precisam considerar as distâncias, os rios, os períodos de seca e cheia, as formas de trabalho e os saberes de cada população.

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