Foto Arquivo pessoal do oceanógrafo Mateus Marques, do IOC/Fiocruz, no projeto Viva Mar, da UFMA
País poderá ser o primeiro a contar com esse ensino oficialmente, e existem boas perspectivas de inclusão da abordagem de Uma Só Saúde Azul nele
O Brasil caminha bem para ter incluído o ensino de Cultura Oceânica nas grades curriculares de suas escolas, pois o Ministério da Educação e Cultura (MEC) conseguiu internalizar isso e se empenha para a aprovação no Conselho Nacional de Educação da primeira política pública em nível nacional que leva para dentro das escolas o entendimento e desenvolvimento desse ensino. Embora ainda não tenha estimativa de tempo para que aconteça sua implantação oficial, há fortes indicadores que seja em breve. Se valer, todo o sistema educacional terá prazo – de dois a três anos – para se adaptar e produzir os materiais necessários. Já houve consulta pública com aceitação e, atualmente, está em fase de sistematização.
Em 11 de abril, o Brasil se tornou o primeiro país a ter compromisso com essa inovação educacional após a assinatura de Protocolo de Intenções entre o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) e o MEC. A liderança do Brasil, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), favorece isso também para que o ensino de Cultura Oceânica seja implantado em outros países. Alguns fatos de 2025 ajudaram, como a escuta de três especialistas em oceano pelo presidente Lula, o discurso dele na Cúpula dos Oceanos, em Nice, na França, no qual abordou a importância do oceano para o clima, e a assinatura do decreto que institui a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico (Enop) para o período de 2025 a 2030. A criação pela ONU da Década do Oceano – 2021 a 2030, esforço global para unir ciência, políticas públicas e sociedade em prol da conservação marinha, também fortifica.
Inclusão do conceito de Uma Só Saúde Azul
A Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030) tem sido grande incentivadora para o ensino de Cultura Oceânica junto à Unesco – na qual a Comissão Oceanográfica Intergovernamental (Unesco-COI) visa à implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14), a fim de conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável – e ao MEC. Orienta para que seja incluída a abordagem de Uma Só Saúde Azul – um avanço para as questões oceânicas do conceito de Uma Só Saúde, que reconhece a interdependência entre a saúde dos seres humanos, animais, plantas e outras formas de vida.
De acordo com Paulo Gadelha, coordenador da EFA 2030, a questão dos oceanos passa a ser reconhecida cada vez mais como central com temas interligados à Agenda 2030, que traz uma série de valores fundamentais e consegue agregar dimensões econômicas, sociais e ambientais, e as de saúde dos ecossistemas, humana e dos animais. Segundo ele, a Fiocruz está comprometida em tornar a questão dos oceanos uma prioridade institucional, algo ligado diretamente à educação, até porque dependemos do oceano para sermos saudáveis. “Cada dia que passa temos mais plástico no oceano, mais poluição e alterações climáticas”, lamentou.
Foto Vitor Vogel

Paulo Gadelha, coordenador da EFA 2030 e grande incentivador do ensino de Uma Só Saúde Azul
Opinião pública a favor do ensino de Cultura Oceânica
“Apesar de 44% dizerem que não têm impacto no oceano e de 30% não reconhecerem que se recebe algo dele, como oxigênio, alimento e regulação climática, 89% dos brasileiros, querem o ensino de Cultura Oceânica nas escolas”, comentou Ronaldo Christofoletti. Ele é coordenador do Maré da Ciência, programa de extensão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no contexto da Agenda 2030 e dos ODS, no qual faz parte o programa Escola Azul Brasil em que é o coordenador técnico desde o início e que conta com as colaborações da Unesco e do MCTI. Consiste em parceria para incentivar a cultura oceânica e a preservação de mares, rios e manguezais em escolas de todo o país, conhecidas por isso como azuis.
Os dados provêm da pesquisa “Oceano sem Mistérios: a relação dos brasileiros com o mar – Evolução de Cenários (2022-2025)”, realizada em 2025 pela Fundação Boticário, com a cooperação da Unesco e Unifesp. Foram realizadas 2 mil entrevistas presenciais de perguntas abertas e fechadas com adultos de todos os gêneros e classes sociais, em todas as regiões do país. Houve comparação com pesquisa feita em 2022, e em 2025 teve a inclusão do desejo ou não pelo ensino de Cultura Oceânica.
Além das percentagens mencionadas pelo professor, há outros dados interessantes referentes à de 2025:
87,6% dos brasileiros mostram-se dispostos a mudar hábitos pelo oceano (eram 82,2% em 2022)
80% indicam emoção positiva em relação ao oceano
48% sentem o impacto do oceano na própria vida
84% entendem que o oceano e seus ecossistemas sofrem ameaças e riscos
67% concordam que o oceano tem conexão com condições metereológicas e climáticas
9 em cada 10 brasileiros acreditam que o aumento do nível do mar é ameaça real para as cidades costeiras
Uma das metas que Audrey Azoulay, ex-diretora-geral da Unesco, colocou em 2022, recordou Christofoletti, é que até 2025 todos os países deveriam iniciar o processo de pensar a inclusão da cultura oceânica nos currículos escolares em todos os níveis, porque assim se formaria gerações de pessoas que teriam isso naturalmente. Para ter um exemplo da dificuldade em entender o oceano, prosseguiu o professor, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é o documento mestre do Governo Federal no Conselho Nacional de Educação, menciona uma única vez a palavra ‘oceano’. “E o Brasil conta com mais de 8.000 km de costa. Não é à toa que a gente tem população que não entende a sua relação com o oceano. Educação ajuda a mudar isso”, evidenciou o professor.
Foto Unifesp

Ronado Christofoletti coordena o Maré da Ciência e é coordenador técnico do Escola Azul Brasil
Escolas azuis espalhadas pelo país
O Brasil é o país que tem a maior quantidade de ‘escolas azuis’ com 25% do total e mais de 720 estabelecimentos de ensino, tudo de forma voluntária. Há escolas azuis em todas as 27 unidades da federação, inclusive indígenas e até no sistema prisional. A partir da demanda da ex-diretora-geral da Unesco, e através do programa Escola Azul Brasil e bastante impulsionada pela Olimpíada do Oceano, em 2021, ligada ao Maré da Ciência, conseguiu se ir adiante mesmo sem o apoio do Governo Federal à época. Isso mudou nos últimos anos. “O MEC trouxe narrativa que é para os próximos 10 anos de educação ambiental no sistema básico e superior focada na mudança do clima com base na cultura oceânica a partir de olhar o território”, disse Christofoletti.
Ótimo exemplo de Santos
A Baixada Santista sempre tem sido o primeiro exemplo de projeto nacional de educação em oceanos, e é o piloto do Maré da Ciência,porque a cidade de Santos foi a primeira cidade do mundo a ter uma lei da cultura oceânica, em 2022. O programa tem atuado junto com os ministérios e a Unesco para uma escala nacional e agora internacional, com parcerias na América Latina e África dentro de redes globais. O Maré de Ciência trabalha a difusão científica e o engajamento para fortalecer a interface entre ciência, políticas públicas e sociedade.
Ar e Cultura Oceânica
As questões relacionadas à poluição do ar são de extrema importância no ensino de Cultura Oceânica, porque, como explicou Nelzair Vianna, pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz Bahia, acaba se depositando no solo e nas águas, após ficarem um tempo em suspensão. O projeto Planet&AR, que coordenou, realizado de 2021 a 2023 na Ilha da Maré – ilha próxima à Salvador do arquipélago de Todos os Santos com 14 km², 4036 moradores, segundo o Censo de 2022, e presença muito forte de nativos e comunidades tradicionais –, inicialmente seria mais para estudar as estratégias de vigilância relacionadas à qualidade do ar, e por causa do acumulado de poluentes das indústrias que ficam ao redor, teve que se observar também as questões climáticas, devido às vulnerabilidades que afetam a população local, mas sem investigação do solo e mar. As emissões industriais e a queima de combustíveis fósseis afetam a saúde local e contribuem para crise climática.
Segundo Vianna, que é embaixadora de saúde planetária desde 2018 pela Planetary Health Alliance, de Harvard, isso levou à abordagem mais participativa com essa comunidade, entrando nas questões do maretório, território todo arrodeado por mares e que tem toda a influência deles, inclusive nas atividades econômicas: primeiro a mariscagem, depois a parte de serviço, turismo. Culminou com artigo que teve a participação da comunidade como se fosse espécie de texto-denúncia que vai desde a instalação de polo industrial ao redor da Ilha de Maré. “Aí tem uma série de questões ligadas às contaminações da água e do solo”, ressaltou.
Nesse processo, conforme Vianna, não só as políticas públicas têm importância, mas também é fundamental o processo educacional nas escolas, com a necessidade de incluir esse conteúdo de crise climática. “A gente começa nas escolas, na pré-escola, vai para o nível médio, para as universidades, visando o entendimento dentro de todas as áreas. Qualquer profissional tem que pensar nesse processo de impacto ambiental”, sugeriu Vianna, dedicada ao estudo de saúde planetária.
Foto Fiocruz Bahia

Nelzair Vianna é pesquisadora da Fiocruz Bahia e embaixadora de Saúde Planetária
Um oceanógrafo e os metais pesados
No Rio de Janeiro há apenas 10 meses, Mateus Brandão Marques, oceanógrafo que trabalha no Laboratório (Lapsa), do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), entende que as novas gerações não acham, no geral, que as contaminações de animais marinhos sejam grande problema, porque esse está muito grande desde que nascem. Mas, que somente vão valorizar a água quando penalizadas pelo meio ambiente, como agora com o calor extremo causado pelo desmatamento e poluição. Para ele, é fundamental o ensino do oceano nas escolas, principalmente na questão da contaminação ambiental que impacta vidas, com doenças relacionadas a organismos aquáticos contaminados que fazem parte da nossa alimentação. Saber disso no ambiente escolar, conforme ele, é primordial para a conservação e entender como o oceano afeta nossas vidas, caso do evento El Niño. “Considero importante aprender isso desde as faixas etárias iniciais até o ensino médio e superior”, disse.
Natural de São Luís, no Maranhão, Marques chegou, em 2017, a querer ser técnico em metalurgia, mas ficou indignado com os efeitos colaterais da extração do minério. Um professor de meio ambiente, que era engenheiro de pesca, chamou a atenção dele para os impactos da metalurgia na água. Na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde se formou em 2022, entrou para o Laboratório de Ictiologia Aquática e lidou com contaminantes, como biocidas e fungicidas em animais. Marques trabalhou para crianças e adolescentes no projeto Viva Mar, da UFMA, de gestão de resíduos e sustentabilidade, fez fiscalização na região costeira e continental como estagiário da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão (Sema), e cursou mestrado em educação ambiental sobre a questão dos oceanos e contaminação nas escolas. “Havia um desafio com pessoas de mais idade que tinham certa resistência e faziam reclamações sobre a falta de saneamento básico pelo poder público no Maranhão. Já crianças e adolescentes recebiam melhor as informações e as praticavam, corrigindo pais sobre não contaminar o ambiente”, recordou.
Foto do arquivo pessoal do oceanógrafo Mateus Marques, do IOC/Fiocruz

Mateus Marques veio do Maranhão para trabalhar como oceanógrafo do IOC/Fiocruz
Marques se espanta com o pouco cuidado em relação ao consumo comestível dos produtos do mar, e desde que veio para o Rio, estranha que haja cação nas refeições de escolas, algo que não acontece no Maranhão, porque o estado não autoriza. Segundo ele, cações e raias têm vida longa e biomagnificam – processo no qual substâncias químicas aumentam seus níveis de presença no corpo de um organismo predador. Desde os tempos de UFMA, ele costuma alertar para os graves riscos de contaminação por metais pesados e microplásticos nos animais marinhos. Atualmente, Mateus faz doutorado focado no cação-frango. “Embora os tubarões sejam resilientes e possuam sistemas de reparo de DNA semelhantes aos humanos, a carga atual de poluição nas águas costeiras tem levado muitos desses animais a adoecerem”, salientou Marques, que avalia como muito forte a educação ambiental nas escolas do Maranhão, porque universidades levam esse conhecimento, devido à contaminação da região portuária e industrial.

