Cadernos de Saúde Global e Diplomacia da Saúde — Edição 03/2026
O mundo está brincando com fogo. A frase não é retórica, é o título de um dos artigos mais provocadores da nova edição dos Cadernos de Saúde Global e Diplomacia da Saúde, publicação quinzenal do Observatório de Saúde Global da Fiocruz. E ela resume, com precisão cirúrgica, o clima desta edição: um planeta simultaneamente assolado por guerras, ameaças pandêmicas não resolvidas e um multilateralismo em frangalhos.
Um mundo em guerra, um planeta adoecido
A escalada do conflito no Oriente Médio, com 21 países já afetados e 115 milhões de pessoas necessitando de assistência humanitária, ocupa o centro desta edição. Mas os Cadernos recusam o olhar puramente geopolítico. Aqui, a guerra é lida pelas suas consequências sanitárias: os ataques a hospitais no Líbano e no Irã, a escassez de insulina na Cisjordânia, o colapso dos sistemas de saúde mental. A OMS verificou 18 ataques a serviços de saúde no Irã e 25 no Líbano em poucas semanas. Números que os editores traduzem em vidas, não em estatísticas.
A edição também lança luz sobre o Sudão, onde a pior crise humanitária do mundo completa mais de 1.000 dias praticamente ignorada pela mídia global. Mais de dois terços dos principais hospitais nas áreas afetadas estão fora de serviço. A ONU alerta que o conflito tem “sinais marcantes de genocídio”. Os Cadernos perguntam: quantas guerras esquecidas cabe na agenda global?
A próxima pandemia pode pegar o mundo mais despreparado do que a Covid-19
Um dos artigos mais urgentes desta edição, assinado por Paulo Buss e colaboradores, conclui que as condições que levaram à pandemia de Covid-19 não só permanecem como pioraram. Iniquidades estruturais, financiamento multilateral em retração, enfraquecimento da OMS e Estados Unidos se retirando de organismos internacionais compõem um cenário que os autores caracterizam como combustível para a próxima catástrofe sanitária global. Sem multilateralismo renovado e sem compromisso com o desenvolvimento sustentável, argumentam, o mundo está, literalmente, brincando com fogo.
Da física quântica à equidade sustentável
Em um dos ensaios mais instigantes da edição, o pesquisador Juan Garay propõe um diálogo improvável entre a física moderna e a ética. Com base em Einstein, Heisenberg e Feynman, ele argumenta que o equilíbrio dinâmico que sustenta a matéria no universo é também o princípio estruturante de qualquer sociedade justa. A equidade sustentável, conclui, é o análogo ético do equilíbrio quântico. Uma reflexão que conecta as leis do cosmos ao ODS 10 — Redução das Desigualdades — de forma que vai além do esperado.
Sul Global em movimento: o Brasil e a disputa pelo futuro
A edição dedica atenção especial ao protagonismo brasileiro no cenário internacional. O artigo sobre o despertar do Sul Global analisa como o Brasil tem ocupado espaços estratégicos na governança multilateral, da presidência da COP30, cujo Relatório Executivo foi divulgado justamente durante o período coberto por esta edição, à possível candidatura do Dr. Jarbas Barbosa à direção-geral da OMS.
Os BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS) são examinados com olhar crítico e propositivo: a ampliação do uso de moedas locais nos empréstimos e a perspectiva de maior participação do setor saúde em futuros financiamentos apontam para uma arquitetura financeira alternativa ao domínio do dólar com implicações diretas para o desenvolvimento sustentável do Sul Global.
América Latina entre a soberania e o “Escudo das Américas”
A cúpula convocada por Trump em Doral, o chamado “Escudo das Américas”, e o polêmico acordo SOFA assinado pelo Paraguai ganham análise rigorosa. Os Cadernos alertam: a decretação unilateral de grupos criminosos como terroristas cria precedentes jurídicos para intervenções militares em território soberano de países latino-americanos, ameaçando acordos de paz regional como a Zona de Paz do Atlântico Sul (ZOPACAS) e a Proclamação da CELAC.
Ao mesmo tempo, o contraste entre a reforma trabalhista regressiva da Argentina de Milei e a redução da jornada de trabalho no México de Sheinbaum ilustra a disputa civilizatória em curso no continente e seus efeitos diretos sobre saúde, proteção social e modelos de desenvolvimento.
Mulheres, alimentação e justiça: o que a ONU debateu em março
A 70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW70), realizada em Nova York, e a Conferência Regional da FAO para a América Latina e Caribe surgem nesta edição como dois lados de uma mesma moeda: o reconhecimento de que sistemas alimentares saudáveis, sustentáveis e justos passam, inevitavelmente, pelo empoderamento das mulheres. A delegação brasileira atuou ativamente para preservar referências a direitos sexuais e reprodutivos no documento final mesmo em meio a pressões por retrocesso.
O que mais espera o leitor desta edição
A riqueza desta edição está também nos detalhes: a análise da política de saúde global dos EUA sob o slogan America First e suas condicionalidades para países africanos; os impactos do fechamento do Estreito de Ormuz sobre a economia e a inflação globais; as eleições para Secretário-Geral da ONU e para Diretor-Geral da OMS, que moldarão a governança global de saúde pelo menos até 2032; a situação da China como potência “diplomática, civil e ecológica”; e o balanço da 14ª Conferência Ministerial da OMC, que ocorre em Camarões em meio à crise do multilateralismo comercial.
Os Cadernos de Saúde Global e Diplomacia da Saúde da Fiocruz são um exercício coletivo e interdisciplinar de compreensão do mundo onde a saúde humana e planetária é o fio que conecta guerras, clima, comércio, trabalho, gênero e soberania. Esta edição, em particular, é leitura indispensável para quem acredita que outro mundo é possível.
Leia a Edição completa:
Cadernos Fiocruz Edição Março 2026
Cadernos Fiocruz de Saúde Global e Diplomacia da Saúde, Edição 03/2026 — período de 4 a 17 de março de 2026. Publicação do Observatório de Saúde Global da Fundação Oswaldo Cruz.

