Na última sexta-feira (10), a Tenda da Ciência, na Fiocruz, foi palco de um encontro em celebração à diversidade cultural e religiosa brasileira, com a realização do primeiro seminário do projeto “Saúde e Garantia da Diversidade Religiosa no Estado Laico: estratégias literárias para formação cidadã”. O evento, realizado pela Cooperação Social da Fiocruz, reuniu representantes de diferentes religiões, do poder legislativo, além de pesquisadores, escritores e moradores de territórios periféricos para debater temas como Estado laico, diversidade religiosa, promoção da saúde e enfrentamento à intolerância religiosa.

Crédito: Raquel Fragoso
Entre os convidados estiveram Henrique Vieira, pastor, teólogo e deputado federal; Renata Souza, deputada estadual, doutora em Comunicação e escritora; e drª Maria Cristina Rodrigues Guilam, assessora da Vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz (Vpeic).
A mesa de abertura contou com a participação de Henrique Vieira; Drª Maria Cristina Rodrigues Guilam; Felipe Eugênio, escritor, pesquisador e coordenador da Periferia Brasileira de Letras; Danielle Ribeiro, escritora, artista plástica, ekede e coordenadora do projeto Liberdade Religiosa em Saúde e Literatura; e mediação de Rafael Andrade, geógrafo e fundador da Ação Negra.
Crédito: Raquel Fragoso
A Dra. Maria Cristina Rodrigues Guilam abriu o seminário destacando a importância do respeito à diversidade e à convivência entre diferentes crenças. “Sou filha de uma mulher católica e de um homem judeu e cresci em uma casa onde se respeita a liberdade. O fascismo se constrói quando passamos a desumanizar o outro, até o ponto em que se torna possível eliminá-lo”, afirmou.
O pastor Henrique Vieira destacou a necessidade de refletir sobre as raízes estruturais da intolerância religiosa no Brasil. “Pensar intolerância religiosa no Brasil é pensar num racismo de fundo, de base e de estrutura. Trata-se de uma lógica patriarcal e racista que tem como efeito essa intolerância religiosa”, afirmou. “Essa estrutura produz a construção da hostilidade contra determinadas experiências, do apagamento e da intimidação. Isso resulta na morte da vida: há vidas que valem mais e vidas que valem menos, e, para estas, a morte se torna mais aceitável ou até desejável. O racismo opera tanto na indiferença quanto em uma espécie de gozo diante do sofrimento do outro”.
Danielle Ribeiro destacou a proposta do encontro de articular cultura, literatura e direitos. “É muito legal estar aqui para celebrar o que a gente veste, o que a gente coloca no pescoço e como a gente fala. Queremos ampliar o nosso trabalho, as nossas discussões e lutas, por várias vias que se encontram. Uma dessas vias é a literatura, a literatura como um direito, e como isso se relaciona diretamente com a saúde e com a dignidade, sobretudo nos territórios onde a gente atua”, afirmou . “Esse encontro é a abertura de mais um caminho coletivo. A gente tem o direito de existir por inteiro, como memória e como corpo”.

Crédito: Raquel Fragoso
O seminário contou com três mesas temáticas:
A primeira, sobre liberdade religiosa, reuniu Ronilso Pacheco, pastor, teólogo e escritor; Padre Gegê, ativista antirracista e pároco da Paróquia Santa Bernadete e São Daniel Profeta, em Manguinhos; Pai Dário de Ossaim, coreógrafo, escritor e líder religioso; Bruno Ladvocat Cintra, historiador, jurista, professor, ativista social e integrante da diretoria da Associação Scholem Aleichem; Wellington do Pinheiro, pastor atuante na defesa dos direitos humanos; OdaraLoya, fundadora do Observatório dos Povos de Terreiro; Mãe Laudiceia Silva, mestra em Psicologia Social, professora da educação básica, CEO do Coletivo Awon Eroja, integrante do Fórum de Mulheres Negras do RJ, membro executivo do Coletivo Terreiro dos Povos, coordenadora do ICMU/RJ e zeladora umbandista; e Pastor Henrique Vieira. A mediação foi de Andressa Oliveira, membro da Primeira Igreja Batista do Grajaú, no Rio de Janeiro, e estudante de Teologia. Saiba mais aqui.
A segunda mesa, com o tema “cultura, literatura, música e liberdade religiosa”, contou com a participação de Renata Souza; Helena Theodoro, intelectual, professora e doutora em Filosofia; Marina Iris, cantora, compositora e professora de Letras; e Danielle Ribeiro. A mediação foi de Henrique Vieira. Saiba mais aqui.
A última mesa teve como tema “Formas de expressar a sua crença” e reuniu Mãe Wanda D’Omolu, yalorixá e representante das mulheres negras na manutenção das comunidades de terreiro na Baixada Fluminense; Raquel Mattoso, pesquisadora e psicóloga, mestra em Saúde Pública pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com atuação no estudo e no combate ao racismo religioso; Sheikh Adam Mahammad, uma das principais lideranças da comunidade muçulmana no Rio de Janeiro; e Pai Marcelo de Xangô, atuante na Baixada Fluminense, voz ativa em fóruns de defesa da liberdade religiosa e com atuação em conselhos municipais e estaduais na luta por políticas públicas para os povos de terreiro. A mediação também foi de Henrique Vieira. Saiba mais aqui.
Sobre o projeto
O projeto “Saúde e Garantia da Diversidade Religiosa no Estado Laico: estratégias literárias para formação cidadã” vai promover, por meio de pesquisa-ação, residências literárias e publicações com textos inéditos sobre a experiência da intolerância religiosa e perspectivas utópicas relacionadas à diversidade religiosa, como forma de articular a promoção da saúde e a garantia de direitos para moradores de favelas.

