Festa no ar, lixo no mar: o paradoxo cultural dos balões de festa

Eles representam um paradoxo cultural. Sinônimo de alegria e confraternização, presentes em festas de aniversário, comemorações e inaugurações, são, ao mesmo tempo, resíduo negligenciado pela regulação ambiental global.

De fato, os supostamente inocentes balões de festa, também conhecidos como “bexigas”, não tiveram o mesmo destino dos abomináveis canudos de plástico, estes banidos em dezenas de países por conta dos problemas ambientais que suscitam. Contrariamente, balões de festa gozam de salvo-conduto sem regulação específica na grande maioria dos países.

Não deveriam.

Evidências científicas sobre os danos que causam ao meio ambiente e à fauna são inequívocas. Aliás, balões de festa têm tudo a ver com ciência, pois foram inventados por Michael Faraday, em 1824, para uso em laboratório, visando conter os gases com os quais trabalhava. Um ano depois, os balões estavam disponíveis para consumo em geral. 

Bexigas comuns são feitas de látex ou nylon, ambos materiais que levam de seis meses a quatro anos para se decompor naturalmente. Pesquisas publicadas no Scientific Reports indicam que balões são 32 vezes mais letais para aves marinhas do que plásticos rígidos quando ingeridos. Além disso, aqueles inflados com hélio percorrem grandes distâncias, atingindo até 10 quilômetros de altura. Tome-se o caso de um balão que foi lançado em 2012, em Derby, na Inglaterra, e foi localizado em Sydney após viajar 16 mil quilômetros.

Foto de Happy Films na Unsplash

No ano passado, cerca de 40% das praias monitoradas na Inglaterra revelaram a presença de balões descartados. Até mesmo os balões ditos biodegradáveis representam um grande problema: estudo de 2020 revelou que eles não se decompõem mesmo após 16 semanas em compostagem industrial.

E como nosso foco é a Agenda 2030, por que não lembrar que pelo menos três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) incidem sobre a problemática dos balões de festa? O primeiro deles é o ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis). Balões são caso exemplar de produto cuja nocividade ambiental é sistematicamente externalizada, pois seu custo recai sobre ecossistemas, não sobre produtores ou consumidores. Em seguida, podemos destacar o ODS 14 (Vida na Água). Desnecessário lembrar o impacto direto que eles têm sobre a fauna marinha, afetando tartarugas e golfinhos. Mas não só a vida marinha é prejudicada. A vida terrestre também e isso nos leva ao ODS 15 (Vida Terrestre) pois animais de criação e fauna silvestre terrestre também são potenciais vítimas.  

Em fevereiro, a vendedora de balões Naomi Spittles, da Balloons by Naomi, em Lincoln, no Reino Unido, recusou-se a atender um pedido de 200 balões que seriam soltos em uma homenagem póstuma e que poderiam ter lhe rendido 600 libras. Para tornar pública sua decisão, publicou um post no Instagram que viralizou. “Muitos fazendeiros me mandaram mensagens agradecendo”, disse ela à reportagem do The Guardian. Isto porque o gado pode ingerir ou inalar balões. “Uma mulher me mandou uma mensagem dizendo que seu Yorkshire Terrier morreu engasgado com um balão no jardim”, complementou. 

A Agenda 2030 exige que nosso olhar recaia sobre o cotidiano de nossas práticas e não apenas sobre grandes indústrias. Nesse sentido, nunca é demais lembrar que práticas culturais como solturas de balões podem ser vistas como micropolíticas de consumo com efeitos macroambientais importantes. 

O Brasil não possui regulação federal específica sobre soltura ou descarte de balões. A Política Nacional de Resíduos Sólidos trata de resíduos sólidos em sentido amplo, mas não há norma específica relativa a descarte de balões. Se você levar em conta que o Brasil tem mais de 7.400 km de costa, verifica que temos uma vulnerabilidade concreta com relação ao seu descarte em ambientes marinhos.

Da próxima vez em que você se defrontar com aquele lindo arco de centenas de balões adornando um salão de festas, um risinho amarelo tomará conta de seu rosto. Afinal, você leu esta matéria e dela jamais vai esquecer.


Fonte: The dark side of the balloon boom – is it time they were banned? / The Guardian