O Acampamento Terra Livre (ATL) reuniu (de 5 a 11/4), em Brasília, milhares de indígenas de diferentes regiões do país em uma das maiores mobilizações em defesa dos direitos dos povos originários. Nesta 22ª edição, a Fiocruz marcou presença com iniciativas voltadas ao fortalecimento do diálogo, com protagonismo indígena, sobre saúde indígena.

A 22ª edição do ATL reuniu mais de 6 mil pessoas de todo o país (foto: Gutemberg Brito)
Ao longo da semana, uma equipe da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) acompanhou atividades da Fiocruz no ATL, além de apoiar à Tenda da Saúde, um dos espaços centrais do acampamento. De acordo com o coordenador de Saúde e Ambiente da VPAAPS/Fiocruz, Guilherme Franco Netto, a Fiocruz tem participado do ATL ativamente e a presença da instituição reforça o comprometimento com o fortalecimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), componente do Sistema Único de Saúde (SUS), criado em 1999 para garantir atendimento integral e diferenciado aos povos indígenas.
Criada em 2012, a Tenda da Saúde realizava inicialmente atendimentos básicos, como aferição de pressão arterial sistêmica e glicemia capilar, mas o trabalho evoluiu para uma abordagem mais ampla, com atendimentos de medicinas indígenas e práticas integrativas e cuidados em saúde (PIS). O espaço conta com três profissionais e coordenadoras da área da saúde: Juliana Mondulão, Keila Karipuna e Lucileila da Silva. Para Juliana, a Tenda é essencial para acolher os participantes que chegam após longas viagens de ônibus. Além disso, eles também enfrentam as variações do clima em Brasília, com temperaturas elevadas e chuvas eventuais e dias acampados. Segundo Juliana, os casos mais graves de saúde são encaminhados para hospitais.
Keila comemorou seu terceiro ano como voluntária na Tenda e, nesta edição, foi convidada para a coordenação. “Tem sido uma experiência grandiosa poder ajudar os parentes neste contexto de acesso à saúde”, comentou. Já Lucileila está presente desde 2012, quando ainda era estudante de enfermagem da Universidade de Brasília (UnB). Na avaliação dela, os profissionais de saúde indígenas têm um olhar diferenciado, pois compreendem tanto a medicina indígena quanto a biomédica.
2º Abril Indígena
A participação da Fiocruz no ATL também integrou o 2º Abril Indígena – iniciativa realizada pela VPAAPS/Fiocruz em parceria com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde (MS) – e que contempla projetos voltados à promoção da saúde, valorização de saberes tradicionais e enfrentamento de violações de direitos. No total, 18 unidades da Fiocruz participam do Abril Indígena, sendo três deles desenvolvem atividades no acampamento. As ações na Fiocruz seguem até o final do mês de abril.
Entre os projetos presentes no ATL esteve o Ouvir a Mobilização Indígena: Oficina de Saúde no Acampamento Terra Livre & Segundo Ato Contra o Garimpo na Amazônia, coordenado pela pesquisadora Anakeila de Barros Stauffer, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV). A iniciativa oferece oficinas e rodas de conversas que articulam saúde, agroecologia e direitos humanos e direitos das pessoas LGBTQIA+ por meio de oficinas e rodas de conversas, produção de podcast e atividades culturais e científicas. Uma tenda foi montada para a realização das atividades, e um ônibus com estudantes da EPSJV/Fiocruz e outros participantes do curso que deu origem ao projeto também estão presentes no ATL.
Outro destaque é o projeto MAPÊMI nos Territórios: Protagonismo e Mobilização para o Cuidado Intercultural no Sasi-SUS do Ceará – Exposição itinerante e interlocução de saberes entre cuidadores indígenas e equipes de saúde, conduzido pelo Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) e outros parceiros. O coordenador indígena do projeto, Edivan Veríssimo Rosas, do povo Tremembé, explicou que o projeto visa o mapeamento participativo de especialistas em medicinas indígenas, como pajés, rezadores, parteiras e raizeiros do Ceará. No ATL, a programação conta com rodas de conversas e exposições audiovisuais itinerantes, tendo como organizadores e protagonistas pesquisadores indígenas. Edivan revela que está em andamento uma publicação com biografias de 331 especialistas catalogados no Ceará e um documentário.
O Museu da Vida Fiocruz também marcou presença com os comunicadores indígenas Jannah Guató e João Ticuna, e a pesquisadora Paula Bonatto que também coordena a exposição sobre saúde indígena com curadoria de pajés dos povos Pitaguary e Kaingang. Guató e Ticuna fazem uma cobertura especial do ATL para o site do Museu e para o Invivo, site de ciências do MVF. A iniciativa faz parte do projeto Saúde indígena: trocas de saberes por uma aliança pelo bem viver. O projeto reúne atividades como lançamento de podcast, mostra de filmes, rodas de conversa e cobertura do ATL por comunicadores indígenas, com foco na valorização do protagonismo dos povos originários.
ATL 2026
Realizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a 22ª edição do ATL reuniu mais de 6 mil pessoas de todo o país. Após cinco dias de debates, marchas, eventos culturais e plenárias, o ATL 2026 foi concluído com o documento final dos participantes.
Ao destacar o tema do ATL (Nosso futuro não está à venda, a resposta somos nós), o coordenador da Apib pela Coiab Amazônia, Kleber Karipuna, enfatiza a importância da mobilização e da presença indígena em Brasília. “Esse território é fundamental para dizer que nós estamos aqui, nós estamos presentes e vamos continuar lutando em defesa dos nossos direitos, pelos nossos territórios e pela vida da humanidade”, afirma.

