Amanhã o Brasil dará início, em Brasília, a sua primeira Conferência Nacional dos ODS, porém quase a metade da população do país não os conhecem e grande parte sabe pouco sobre eles
Um dos principais desafios contemporâneos no mundo é o de se alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas 169 metas, que visam proteger as pessoas e o planeta, e garantir que até 2030 se desfrute de paz, prosperidade e justiça, sem comprometer o equilíbrio ambiental. Durante décadas, o modelo econômico predominante se apoiou na lógica de extrair, produzir, consumir e descartar, com pouco cuidado ambiental e à qualidade de vida.
Os ODS foram adotados pelos 193 Estados-membros das Nações Unidas, em 2015, como apelo universal a ações para acabar, sobretudo, com a pobreza, fome, os conflitos, as dificuldades de acesso à educação e à saúde, desigualdades sociais e econômicas, e haver maior proteção ambiental e enfrentamento às mudanças climáticas. Organismos internacionais, governos nacionais e a sociedade civil são convidados a refletir quanto à trajetória de desenvolvimento frágil e incipiente, e que não acompanha as extremas necessidades das crises climáticas e ambientais. Existe o pressuposto de que a redução das desigualdades e a proteção ao meio ambiente permitem transformar o que e como produzimos, melhorar e salvaguardar o bem público, e elevar a renda por meio de empregos dignos.
Pouca noção dos brasileiros sobre os ODS
Em pesquisa realizada pelo Instituto Cidades Saudáveis via Ipsos-Ipec, entre 4 e 8 de setembro de 2025, constatou-se cenário de estagnação no conhecimento da população brasileira quanto aos ODS da ONU, comparado ao índice de primeira medição, em 2017, feita depois de lançada a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, plano de ação global adotado pela ONU voltado para a transformação das condições de vida da população mundial. O universo de entrevistados chegou a 2 mil pessoas em 132 municípios de todo o país. Quase metade (48%) afirmou ter algum nível de conhecimento sobre os ODS. Desses, 2% disseram ter “bastante conhecimento sobre o assunto”, 10% “algum conhecimento” e 36% que os conhecem só de ouvir falar. Um total de 52% admitiu nunca ter escutado e nada ter visto sobre o assunto.
Crescimento com proteção ambiental
A essência para ações efetivas consiste na certeza de que o modelo tradicional de desenvolvimento precisava ser repensado, como resultado de décadas de aprendizado, negociações e cooperação internacional, buscando conciliar crescimento econômico, inclusão social e proteção ambiental. Os ODS estão relacionados à Agenda 2030. Fundamentam-se nos princípios de que o desenvolvimento deve equilibrar a sustentabilidade social, econômica e ambiental diante a um quadro mundial insustentável, em amplos aspectos, com ameaça aos recursos comuns e ao bem-estar de gerações futuras.
Os 17 ODS são integrados, considerando que a ação em uma área pode afetar a outra, e que nessa harmonização não se deve deixar qualquer uma para trás. A criatividade, o conhecimento, a tecnologia e os recursos financeiros – via financiamentos sobretudo de organismos internacionais – são necessários para alcançar os ODS em todos os contextos. Cada país adapta-os às suas realidades e necessidades para definir metas dentro de cada ODS. A intenção, segundo as Nações Unidas, é acelerar ao máximo os avanços.

Acompanhamentos dos ODS
Desde 2015, há o Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, publicado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (SDSN) das Nações Unidas, maior rede mundial de fomento aos ODS, que fornece os dados mais atualizados para rastrear e classificar o desempenho de todos os estados membros da ONU em relação aos ODS.
No último dia 23, foi divulgado o de 2026 que está muito aquém das metas: projeta-se que apenas 16% sejam alcançadas até o prazo final, embora aponte para melhorias na vida de milhões de pessoas. Muitos indicadores estão estagnados ou avançam lentamente, e desigualdades entre países aumentaram.
De forma geral, os crescimentos são tímidos, tendo como destaques o avanço parcial na redução da pobreza e melhorias sociais, ganhos relevantes, mas frágeis, na saúde global com redução de mortes, aumentos da expectativa de vida e maior combate a doenças, progresso limitado e desigual no meio ambiente, expansão de energias renováveis, mais obtenção de energia e infraestrutura, maior acesso à educação e inclusão social, mais tecnologia e conectividade, e mais incorporação dos ODS em políticas públicas e planos nacionais. O grande déficit de financiamentos e a queda no compromisso político global e fragmentação geopolítica estão entre os pontos de limitação dos ODS.
O Relatório dos ODS da própria ONU será divulgado em julho deste ano.
Detalhes da pesquisa Ipsos/Ipec
Segundo o instituto, o estudo aponta ainda que as percepções da população e a vontade de contribuir com os ODS onde reside estão mais voltadas a questões de sobrevivência e bem-estar cotidiano. Quando questionada sobre quais ODS trariam mais benefícios para o Brasil, os mais citados foram “Garantir saúde e bem-estar” e “Acabar com a pobreza” (com 33% de menções, cada um) e “Garantir educação de qualidade” (29%).
O estudo trabalha com os cinco pilares dos ODS: Pessoas, Prosperidade, Planeta, Paz e Parceria, e o primeiro item liderou a maior atenção dos consultados, indicando a prioridade à dimensão social e de sobrevivência. Tal grupo temático representa a dimensão humana dos agrupamentos, que inclui a erradicação da pobreza, fome zero, saúde e educação, considerado o mais importante. De acordo com os dados, 80% dos entrevistados acreditam que os ODS desse grupo trariam mais benefícios para sua cidade; 70% afirmam que trariam mais benefícios para o Brasil, e 63% estariam dispostos a colaborar para promover avanços nesses objetivos em seus municípios. As premências básicas e imediatas de qualidade de vida centralizam as atenções.
Breve histórico
O crescimento econômico mundial a partir do século XX teve, além de relevantes avanços, sérios danos ao meio ambiente, perda de biodiversidade, receios em relação ao mau uso das energias nucleares, e aumento das desigualdades. O homem passou a adotar uma série de iniciativas para tentar vencer esses problemas.
Um dos grandes passos para isso deu-se em 1987, quando o conceito de desenvolvimento sustentável passou para o discurso público e os segmentos dedicados às questões socioeconômicas e ambientais, baseado no relatório “Nosso Futuro Comum”, criado pela Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU. A premissa era de o desenvolvimento preencher as necessidades sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atenderem as suas próprias necessidades.
Anos depois, um conjunto de conferências internacionais sobre a questão ambiental aconteceu, cuja a primeira ocorreu, em 1972, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, na Suécia. Posteriormente, aconteceram na cidade do Rio de Janeiro, Brasil (1992), em Joanesburgo, África do Sul (Rio+10, 2002), e novamente no Rio de Janeiro (Rio+20, 2012). Essa abriu as portas para debate constante sobre as melhores ações para se atingir o desenvolvimento sustentável, e trouxe à pauta da política internacional e ao discurso público temas que até então eram praticamente restritos à comunidade científica. A mudança climática já havia sido apontada há muitas décadas, desde pelo menos meados do século 20, mas era algo distanciado do grande público e dos gestores públicos ou privados.
Em Assembleia Geral realizada pela ONU em setembro de 2000, foi firmado o compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) por presidentes dos 189 países-membros das Nações Unidas, a fim do que consideravam oito maneiras de mudar o mundo. Àquela época, cerca de 1 bilhão de pessoas viviam na extrema pobreza, faltava água potável e alimentação adequada, assim como cuidados básicos com a saúde e serviços sociais necessários para a sobrevivência. Os ODM são os seguintes:
● Erradicar a extrema pobreza e a fome
● Atingir o ensino básico universal
● Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres
● Reduzir a mortalidade infantil
● Melhorar a saúde materna
● Combater o HIV / Aids, a malária e outras doenças
● Garantir a sustentabilidade ambiental
● Estabelecer parceria mundial para o desenvolvimento
Os ODS da Agenda 2030 são mais amplos e inclusivos, contemplando as dimensões econômica, social e ambiental. A definição dos ODS baseou-se em processo de consultas abertas e de pesquisa global, coordenado pela ONU, com a participação de mais de 1,4 milhão de pessoas de mais de 190 países.
Mais do que uma agenda ambiental, esses temas se tornaram exigência regulatória, oportunidade de inovação e vantagem competitiva para organizações que querem prosperar em um mercado cada vez mais orientado por critérios ESG – trata-se de conjunto de critérios utilizados para avaliar o desempenho de uma empresa ou organização em termos ambientais, sociais e de governança.

