Por uma pedagogia da coragem

Um evento como a Conferência Livre Ecocídio é racismo: enfrentamento é superação, sempre nos proporciona a constatação da potência da fala das comunidades. Quando se lhes dá voz, o resultado sempre impressiona. Nada sobre eles, sem eles, costuma ser uma norma na Fiocruz.

Um dos pontos altos do evento, muito aplaudido pelos presentes, foi a fala de Zilda Soares de Freitas da Silva, liderança do Coletivo Fala Akari. De acordo com o Dicionário de Favelas Marielle Franco, “o coletivo é formado por um grupo de moradores e militantes da Favela de Acari, que se organizam com o objetivo de realizar, disseminar e divulgar ações culturais e educacionais na favela e denunciar todas as formas de opressões cometidas pelo estado no território, inclusive através de seu braço armado”.

Zilda Soares denunciou a sobreposição entre racismo ambiental e violência de gênero, apontando a favela e o corpo da mulher negra como zonas de sacrifício de uma mesma lógica sistêmica. O medo (da bala, do desabamento, da perda dos filhos) foi descrito como argamassa do muro que separa a favela do asfalto e como ferramenta de controle dos corpos periféricos.

“A lógica do ecocídio e do racismo ambiental trata o meu espaço aqui, a favela, como zona de sacrifício. Lugar de lixo, esgoto, poeira de obras. Essa mesma lógica trata o meu corpo, que é um corpo de uma mulher, mulher negra, como zona de sacrifício também: racismo obstétrico, a própria solidão e a exploração, né, a extração capitalista, da mais-valia, quanto que o corpo da mulher é explorado nesse lugar.

“Essas duas violências são sustentadas por uma lógica do medo. Tenho medo de passar fome, tenho medo de não ter onde morar, tenho medo; vários medos assim que me atravessam. Medo da bala perdida que cala minha boca. O medo do desabamento que tira o meu sono. O medo de se maltratar a maternidade que paralisa a busca por cuidado. O medo de perder a guarda dos filhos que impede uma denúncia de violência ; aliás, violência doméstica. E o medo da argamassa — é o medo da argamassa que mantém o muro que separa a favela do asfalto.”
Zilda Soares – Coletivo Fala Akari

Zilda propôs a construção de uma pedagogia política de coragem, invocando o ODS 18 como instrumento de fortalecimento. Defendeu a arte, o audiovisual e a cartografia como linguagens capazes de converter a dor documentada em fúria organizada e a paralisia em ação política coletiva, articulada entre territórios quilombolas, indígenas e rurais.

Ao final da tarde, Zilda foi eleita delegada para defender as seis propostas decididas pelo coletivo presente na etapa nacional da I Conferência Nacional dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que acontecerá em Brasilia de 29 de junho a 2 de julho.


Nota da redação: Conteúdo integrante da cobertura especial da EFA 2030 / Fiocruz sobre as etapas livres da Conferência Nacional ODS , iniciativa voltada à construção participativa de propostas para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 no Brasil.


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